Em Minas Gerais, Ibitipoca é uma verdadeira experiência na roça

O parque mais visitado do estado tem passeios por terra, água, jipe, bicicleta ou cavalo, além de uma das joias da hotelaria do Brasil

Por Maria Bitarello Atualizado em 9 set 2021, 11h06 - Publicado em 6 mar 2017, 14h03
Rio em Conceição do Ibitipoca. Crédito:
Rio em Conceição do Ibitipoca. Crédito: Fernando Quevedo/iStock

Informe-se neste link sobre o funcionamento do Parque Estadual do Ibitipoca durante a pandemia.

Em Minas, diz-se que, se há um campo de futebol, um boteco e uma igreja, já é uma cidadezinha. Esses são os pilares de fundação da vida em comunidade.

E Conceição do Ibitipoca, com seu charme serrano, é uma das mais antigas do estado: os primeiros bandeirantes paulistas, mineradores descendentes de portugueses, chegaram àquela serra grande em 1692, quando os habitantes locais eram os tupis-aracis, indígenas da tribo que batizou a região pela enorme incidência de raios que recebe – cinco vezes mais que a média mundial. O nome pode significar montanha que estala, serra fendida ou serra da ventania.

Hoje, o arraial tem cerca de 1 300 habitantes, mas naquela época da mineração chegou a 15 000. Nas últimas décadas, o turismo foi virando a principal atividade e, agora, já tem tanta gente encantada por essa terra de rochas claras e águas escuras que nos feriados o Parque Estadual do Ibitipoca, situado a 3 quilômetros do arraial, fica superlotado (o limite diário é de 1 200 pessoas). E é aí que entram os passeios off-parque, aventuras nas bordas da área federal abastecidas de muita comida mineira.

Grande parte dos visitantes prefere o inverno, quando não só as pousadas oferecem a possibilidade de se viver o frio em volta das lareiras dos chalés mas também é quando ocorrem os festivais de blues, jazz, forró e o rali local. Os dias são ensolarados e secos; e as madrugadas, geladas.

Se antigamente a única via de comunicação com o mundo exterior eram as ligações feitas do orelhão em frente ao lendário Bar do Zé do Arame, Ibitipoca hoje já tem muitos pontos de wi-fi e restaurantes de diversas inclinações gastronômicas.

Mas não se engane: o acesso ao arraial ainda é morro acima por uma estrada de chão que, dependendo das chuvas, pode se transformar num lamaçal.

Circuito Fora do Eixo em Conceição do Ibitipoca, em Minas Gerais
Festival de blues em Conceição do Ibitipoca. Crédito: Divulgação

A região quilombola ainda mantém hábitos da tradição católica. Dá para visitar a Igreja da Matriz, fundada em 1768, no estilo barroco, folhada a ouro, e a Igreja do Rosário, construída uns anos depois pelos escravos, em estilo colonial e sobre vigas de pau a pique.

Com o disfarce cristão armado, os escravos praticavam como bem entendiam o candomblé e os ritmos da congada e do maculelê. A sincrética cultura brasileira agradece a desobediência desses resistentes, e as novas gerações dali carregam, no sangue, as marcas dessa mistura genética e cultural entre brancos, índios e negros.

É o caso do guia Gabriel de Sá Fortes da Sauá Turismo, um nativo e entusiasta local. O pai, Vicente César, dono da Mercearia Fortes (“onde os preços são fraquinhos”), foi um dos primeiros funcionários do parque; a mãe, Elizete, serve almoços no Restaurante Varandas, logo no início da subida da rua do cemitério – e, nos feriados, chega a alimentar centenas de turistas por dia -; e o primo Josué é o homem por trás da porreta Cachaça Fortes.

Há 21 anos trabalhando como guia, Gabriel vem se dedicando, na última década, ao entorno do parque – seja de jipe, seja a pé, seja em rafting, seja de bicicleta – e, assim, tenta alcançar algum equilíbrio para aplacar a superlotação dos feriados.

Igreja Matriz de Conceição do Ibitipoca, em Minas Gerais
Igreja Matriz de Conceição do Ibitipoca. Crédito: Ivclshaudl/Getty Images

Foi com ele que eu fiz os passeios, que duraram dois dias inteiros. Esse chamado turismo rural dá a volta em toda a extensão do parque, desde a Vila dos Moreiras, passando por Bom Jesus do Vermelho e Boa Vista, até o Mogol.

No primeiro dia, visitamos a parte baixa das Sete Quedas, que são as cachoeiras que se formam a partir da Janela do Céu, talvez a atração mais famosa de Ibitipoca, seguida pelo Pico e Gruta da Água Santa e pela Vila dos Moreiras, onde almoçamos na casa da dona Lúcia.

A comida tem que ser encomendada antes do passeio para, na volta, fazer a parada para uma galinha e ovos caipiras, junto com as hortaliças, o queijo feito com o leite dali do lado – tudo caseiro e sem formalidade alguma. Não é só uma boa opção. É imperdível.

Já no segundo dia, contornamos o parque por outro extremo, visitando o Arraial do Mogol, o Areal (uma paisagem quase lunar) e a Vila da Boa Vista. No Mogol, tomamos um café na casa da dona Rita. É a casinha de roça mais linda que você vai ver.

Janela do céu, Conceição do Ibitipoca, em Minas Gerais, Brasil
Janela do Céu, atração mais famosa de Ibitipoca. Crédito: Opção Brasil

Se quiser saber um pouco mais sobre as histórias dos moradores da região do entorno de Conceição do Ibitipoca, assista ao documentário Ibitipoca, Droba pra Lá”, do juiz-forano Felipe Scaldini:

As trilhas do Parque do Ibitipoca

Para os que quiserem fazer apenas o circuito dentro do parque do Ibitipoca, o ideal são três dias. Sugiro começar pelo passeio mais longo, que vai até a Janela do Céu.

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A atração consiste em uma abertura nas árvores no ponto exato em que o rio despenca de um paredão, formando as Sete Quedas. É um espaço pequeno e, nos feriados, havia uma fila de gente querendo clicar o lugar.

Ainda que seja uma atração muito disputada, o roteiro até lá é repleto de surpresas. Logo no início da trilha, você vai atravessar uma ponte sobre o Ribeirão do Salto, cuja tonalidade escura já lhe rendeu o apelido de água cor de Coca-Cola.

Depois de uma subida mais ou menos constante até a Gruta do Monjolinho, o que virá será uma alternância de subidas e descidas, vales e descampados, vegetação rasteira e Mata Atlântica.

No caminho, vai dar para visitar o Lago dos Espelhos, a Cachoeira da Pedra Furada e a Cachoeirinha, uma queda que despenca rente a um paredão e forma uma prainha – muitos a consideram a melhor atração do percurso. Atravessar sua cortina d’água é revigorante. Ao todo, serão 16 quilômetros de uma beleza inesquecível.

Cachoeirinha de Conceição do Ibitipoca, na trilha para a Janela do Céu
Cachoeirinha de Conceição do Ibitipoca, na trilha para a Janela do Céu. Crédito: Pedro Peron/Wikimedia commons

Você pode dedicar um outro dia à subida do Pico do Pião (leve lanterna para visitar também a gruta) e outro ainda para cobrir o Circuito das Águas.

Quem tiver apenas um dia para explorar, sugiro se ater a esse último, que vai te conduzir por uma série de cachoeiras de formatos e tamanhos variados.

Você pode tanto contratar um guia quanto seguir o caminho por conta própria. É tudo bem sinalizado e não há muito risco de você se perder.

O que fazer se você encontrar um lobo-guará

A vegetação do parque estadual é composta por campos rupestres e suas árvores de médio porte, rochas, bromélias e orquídeas. Nas partes mais altas, o que predomina são os campos de altitude; nas mais baixas, a Mata Atlântica. Na maior parte do tempo, a vegetação é rasteira, e a exposição aos raios solares, total.

Nada impede que uma nuvem súbita ocupe o céu, que uma neblina desça e que haja trovoadas seguidas de sol, tudo no mesmo dia. Se isso acontecer, quer dizer que sua experiência no Ibitipoca foi completa.

Ah, e fique atento: durante o passeio, existe chance de você avistar o lobo-guará, animal-símbolo do parque e uma das 20 espécies de mamífero presentes ali. Faça uma bela foto e não lhe dê comida.

Lobo guará no meio do cerrado de Ibitipoca, Minas Gerais
Lobo guará no meio do cerrado de Ibitipoca. Crédito: Fernando Quevedo de Oliveira/Alamy/Reprodução

Reserva do Ibitipoca: um hotel de luxo caseiro e rural

A Comuna do Ibitipoca é uma propriedade privada que ocupa uma área equivalente a quase três vezes o tamanho do parque estadual. Em seus domínios, foi inaugurado, em 2009, um hotel de luxo, composto de quatro chalés e oito suítes, na antiga sede da Fazenda do Engenho, construída em 1715.

Com tratamento de água, carros elétricos, energia solar, replantio de espécies, horta, apiário, fabricação caseira de alimentos de todos os tipos e uma maioria esmagadora de funcionários locais, a Comuna do Ibitipoca busca a autossustentabilidade e o mínimo de interferência no ciclo da natureza. O que talvez você jamais se esqueça caso vá: o enxoval de algodão egípcio, a banheira vitoriana, o piso aquecido e a decoração made in Minas.

Suíte da pousada Reserva Ibitipoca, próxima ao Parque Estadual de Ibitipoca em Minas Gerais
Suíte da pousada Reserva Ibitipoca. Crédito: Divulgação

Há também arte espalhada por pontos estratégicos, sendo que a vedete da coleção é o conjunto de esculturas com 7 metros de altura da americana Karen Cusolito, que produziu obras similares em uma das edições do Burning Man, festival de expressões artísticas realizado anualmente no Deserto de Nevada.

Mas, se tempos bicudos não permitirem extravagâncias, não importa: há sempre uma Ibitipoca para caber em qualquer bolso.

Assista a um vídeo sobre a Comuna do Ibitipoca feito por Jayme Drummond, do vlog Carioca no Mundo:

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