Minha Trancoso

Peter Rosenwald fala de um sentimento àqueles que frequentam Trancoso. Invariavelmente chamam o vilarejo de seu. Ainda bem que ele também pode ser nosso!

Um platô com um imenso gramado no meio ladeado por casinhas coloridas, amendoeiras e mangueiras, uma igrejinha de 1650 caiada de branco em uma das pontas e mais abaixo o mar. Você pode nunca ter colocado os pés no Quadrado, o coração de Trancoso, mas a cena está no imaginário de quem algum dia sonhou com uma Bahia idílica, quase mágica. Primeiro ocupada por índios, depois por jesuítas, hippies, gringos, e mais recentemente por endinheirados e celebridades, Trancoso é o resultado dessa ocupação tão eclética quanto dispersa no tempo.

O vilarejo, localizado a 47 quilômetros de Porto Seguro, caiu nas graças de moradores e visitantes que se encantam com seu astral pitoresco. Algumas pessoas desenvolvem um afeto muito particular com o lugar, parecido com um sentimento de posse. Aconteceu comigo em quase todas as ocasiões em que estive lá – e foram mais de dez. Trata-se de uma sensação de liberdade incomum. Em uma das ocasiões, eu me peguei escrevendo poesia no verso do cardápio de um restaurante do Quadrado, perdido em devaneios, desconectado do mundo. Muitas pessoas com quem conversei tinham um sentimento parecido com o meu e invariavelmente se referem ao lugar como “a minha Trancoso”.

O jornalista Caloca Fernandes ouviu falar do vilarejo em 1970, quando morava em São Paulo. Na ocasião, um aluno da USP ofereceu-lhe um terreno à beira-mar para comprar, mas tudo o que ele soube informar sobre a localização era que ficava “próximo a Porto Seguro”. Português de nascimento, Caloca meditou: Porto Seguro, descobrimento, portugueses, antepassados, terra prometida; o terreno seria dele. Foi uma compra às cegas. Ele e a mulher, Sônia, só colocaram os pés no lugar três anos depois. “Chegamos de jipe. Não havia estrada. Atravessamos rios pelo caminho. Foi uma aventura e tanto. Mas o charme estava no difícil acesso”, relembra. Em 1978, a casa começou a ser construída, pé na areia, sendo que o material veio todo em carro de boi. A luz chegou só cinco anos depois que eles já estavam morando. “Não fazia a menor falta naquela época; hoje, nem pensar”, pondera Caloca. “Muita coisa mudou desde então. Primeiro houve um influxo de hippies e, por último, dos endinheirados de São Paulo. Mas a minha Trancoso ainda é sinônimo de tranquilidade e de uma praia linda e intocada onde eu consigo reunir amigos.”

Fundo quase infinito em trecho da Praia dos Nativos, em Trancoso Fundo quase infinito em trecho da Praia dos Nativos, em Trancoso

Fundo quase infinito em trecho da Praia dos Nativos, em Trancoso (/)

Fundo quase infinito em trecho da Praia dos Nativos, em Trancoso – Foto: Marcelo Nacinovic/Getty

A casa que Caloca e a mulher construíram tem vista para o trecho onde a Praia dos Nativos faz a curva, areias que se estendem por 3 quilômetros até o Rio da Barra, um passeio muito comum para quem vem. Mesmo durante a alta temporada, é possível contar nos dedos o número de andarilhos nesse trecho. Uma das pousadas mais conhecidas também fica ali, a Estrela D’Água, que tem um agradável bar de praia aberto ao público. Naquelas redondezas, é comum topar com Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli caminhando de mãos dadas. No final da Praia dos Nativos, a recompensa é o riozinho que deságua no mar.

Nos últimos 15 anos, Trancoso se tornou o destino cool do Réveillon, época em que a tranquilidade do vilarejo dá lugar a algumas das melhores festas do Brasil. O line-up de DJs celebridades pode incluir Layo & Bushwacka e Killer on the Dance Floor, figuras conhecidas em festivais de música eletrônica pelo mundo e que tocaram neste ano no Para-Raio. A balada mais concorrida da virada é a Festa do Taípe, que acontece na praia homônima, a 6 quilômetros do Quadrado. “Foram os 6 quilômetros de táxi mais caros do mundo, mas valeu a pena”, ouvi de um baladeiro que, como a maioria dos que foram ao Taípe, só voltou para casa ao amanhecer do primeiro dia do ano.

Mas o bom de Trancoso é que algumas coisas nunca mudam. Sim, estou falando do Quadrado e de suas lojinhas que só abrem a partir das 5 da tarde. Dá para perder umas boas horas imaginando como ficariam na sala de casa os móveis da Marcenaria Tavani, as esculturas de argila e papier-machê da Carmen Martins ou os objetos de papel reciclado do Urubu. E há também muitos estandes embaixo das amendoeiras vendendo de tudo, desde joias artesanais até utensílios de cozinha feitos pelos índios.

Para o presidente da JAC Motors do Brasil, Sergio Habib, Trancoso é o lugar onde ele se refugia duas vezes por mês para despressurizar. “Acho as praias daqui as mais bonitas do mundo. Elas não são desertas, mas sempre têm pouca gente. Você pode andar 4 quilômetros e ver no máximo 20 pessoas. Onde mais existe isso?”, diz.

O Revéillon no Taípe, em Trancoso O Revéillon no Taípe, em Trancoso

O Revéillon no Taípe, em Trancoso (/)

O Revéillon no Taípe, em Trancoso – Foto: Divulgação

Trancoso acolheu tão bem Sergio e a mulher, Sandra, que despertou no casal a vontade de retribuir algo para a comunidade. Começou com a reconstrução do hospital e a compra de uma ambulância. Em seguida, eles ergueram uma creche, e não demorou muito para que isso se transformasse em um projeto maior, o qual resultou na construção de uma moderna escola que hoje atende mais de mil crianças. As aulas são em período integral, e os alunos pagam R$ 35 por mês. Perguntei a Sergio se essa era a sua maneira de agradecer a Trancoso pela acolhida, e ele respondeu: “Não exatamente. O hospital é apenas para Trancoso. Já a escola é para o Brasil”.

Outra que caiu de amores pelo lugar foi a alemã Sabine Lovatelli. “Toda vez que eu subo na balsa de Porto Seguro e venho para Trancoso, sinto que estou voltando 100 anos no tempo para um outro lugar”, diz ela, que é fundadora e presidente do Mozarteum Brasileiro, associação que promove concertos de música erudita no Brasil e que há dois anos edita uma filial do evento em Trancoso. Sabine e o marido, Carlo, estiveram na inauguração do Club Med em 2003 e ficaram entusiasmados com a possibilidade de ter uma casa no condomínio de alto padrão contíguo ao resort, o Terravista. Embora esteja a poucos quilômetros do Quadrado por uma estrada de terra e com pontes precárias, lá dentro é como se fosse um enclave dos Jardins, em São Paulo, ou qualquer outro bairro chique. Os moradores podem usufruir das instalações do Club Med e têm para si um campo de golfe magnífico que serpenteia as falésias. As vistas para o mar são magníficas. Em um anfiteatro construído junto ao campo de golfe aconteceram, no fim de fevereiro, os concertos do Música em Trancoso, o que acabou estendendo a temporada de verão até o início de março. Além das apresentações gratuitas, Sabine organizou oficinas de música para a comunidade em escolas do vilarejo.

Golfe no Club Med, em Trancoso Golfe no Club Med, em Trancoso

Golfe no Club Med, em Trancoso (/)

Golfe no Club Med, em Trancoso – Foto: Divulgação

Para a chef Morena Leite, “a minha Trancoso é o lugar onde eu aprendi a andar e a falar”. Ela era recém-nascida quando os pais se mudaram para lá, nos anos 1970. O casal trocou uma caminhonete por um pedaço de terra em que construiu uma casa e uma horta. Até os 15 anos, Morena vivia descalça ajudando os pais na cozinha do restaurante da família. O negócio cresceu, e em 1985 surgiu o Capim Santo, restaurante e pousada que viraram sinônimo de Trancoso. Morena mora em São Paulo, onde está à frente da filial do Capim Santo e do restaurante Santinho, aberto em 2010 no Instituto Tomie Ohtake, e que ganhou uma unidade no Museu da Casa Brasileira em 2013.

“Eu tive sorte, cresci dentro de uma cozinha. Minha mãe acreditava que nós somos aquilo que comemos”, lembra ela. “Eu ia todos os dias para a escola em Porto Seguro e tinha amigos de todas as classes sociais, gente que andava de avião particular e gente que não tinha dinheiro para comprar um par de Havaianas. Isso me deu perspectiva.” Morena aproveitou uma cozinha da comunidade de Trancoso usada para as festividades de São Brás e de São Sebastião, mas que passa boa parte do ano ociosa, para montar uma escola. Ali Morena coordena o treinamento de jovens moradores que veem na culinária um ofício. “Embora eu ame morar em São Paulo e tenha a chance de embarcar em um avião para qualquer lugar do mundo, eu preciso voltar a Trancoso pelo menos uma vez por mês”, ela diz. “A minha Trancoso foi onde eu me tornei um ser humano.”

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