El Chaltén: paraíso do trekking na Patagônia Argentina

O lugar ganhou a fama de capital do trekking e reúne uma turma disposta a encarar trilhas na raça, acampar e ouvir Jack Johnson. Seus joelhos estão prontos?

Três horas ao norte de El Calafate pela Ruta 41, um microvilarejo cercado por montanhas reserva alguns dos trekkings mais incríveis da Patagônia. Enquanto na vizinha que ficou para trás os passeios custam uma nota, em El Chaltén eles não custam nada. Aliás, custam a forma física: o requisito fundamental é ter joelhos bons e gostar de caminhar.

El Chaltén está dentro do Parque Nacional Los Glaciares, mas não é preciso pagar nada por isso. Antes de chegarmos à minúscula rodoviária dessa diminuta cidade em que vivem menos de 2 mil pessoas, o ônibus da Caltur fez uma parada na administração do parque nacional e todos descemos para ouvir as orientações do guarda-parque. A principal delas foi sobre os cachorros de rua.

“Basta um pedaço de empanada, um afago, e o perro te adota. Na sequência, ele vai te seguir pelas trilhas, mas não vai aguentar por muito tempo porque elas são longas, eles podem se perder nos bosques e morrer. Em suma, quando forem pegar uma trilha, taquem pedras nos cachorros para que eles fiquem na cidade.”

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Vista da cidade de El Chalten, na Argentina (nicolasdecorte/iStock)

A partir da El Chaltén, existem nove roteiros que variam de uma hora até sete horas só de ida. A rotina dos passeios é sair cedo e voltar no fim da tarde, mas há quem prefira fincar bases em algum dos campings em lugares remotos. Os percursos estão demarcados e não requerem guias. Nesse sentido, é uma experiência de natureza das mais autênticas.

Esse talvez seja um dos motivos para que esse pequeno vilarejo de montanha guarde uma aura alternativa/bicho-grilo, onde o número de hostels supera o de hotéis, onde os bares tocam CDs do Jack Johnson até furar e aonde os turistas, muitos deles europeus, chegam falando inglês com qualquer um e são prontamente correspondidos.

As inclemências do tempo

Quase toda a El Chaltén coube dentro desta foto (Richard L' anson/Getty Images)

Um fato importante é estar atento à previsão meteorológica. Em linhas gerais, o clima pode ser resumido em uma palavra: imprevisível. Você pode sair da cidade com chuva, céu fechado e no meio do caminho abrir. Dificilmente você vai perder a viagem porque, se o tempo não colaborar para fazer uma trilha mais longa, há outras mais curtas a um pulo do centrinho. Tive sorte: os três dias que passei em março foram gloriosos. Da janela do meu hotel, o Cumbres Nevadas, eu via o cume pontiagudo do Fitz Roy, a montanha que é o fetiche dos caminhantes e o percurso mais duro que há – meninos, eu fiz!

Mas, no primeiro dia, encarei uma trilha mais curta para aquecer, a do Mirador del Torre. A subida é uma pirambeira. No alto há um descampado que logo dá lugar a um bosque. O Mirador Margarita alcancei meia hora depois – e que panorâmica! À minha frente, um penhasco profundo em cujo leito corriam um rio, formado pelo degelo, e uma cascata; à direita, a Montanha Solo reluzia o branco incandescente da neve acumulada nas paredes graníticas.

Levei 1h15 para chegar ao Mirador del Torre e foi uma caminhada tranquila, tanto que tinha pais com crianças de colo. A cadeia de montanhas de El Chaltén está comumente encoberta por teimosas nuvens, mas naquele dia elas deram uma licencinha, pairando nas laterais. A mata escura em primeiro plano com os picos alvos ao fundo iluminados pelo sol era de embasbacar. Na volta à cidade, uma parada no restaurante vegetariano Cúrcuma provou que energia não se repõe só com açaí. A vitamina de abacate, maçã-verde, leite de coco e tâmaras é de chorar.

Quanto tempo?

Há quem faça apenas um bate e volta a partir de El Calafate e ninguém precisa ser atleta para aproveitar o destino. Há opções fáceis, como as trilhas Chorillo del Salto, para ver uma cascata; o Mirador de los Condores e o de las Águilas; e também uma caminhada à beira do Lago del Desierto, 35 quilômetros ao norte de El Chaltén, em que é possível navegar para ver geleiras. Mas, se você for um entusiasta das caminhadas, considere pelo menos dois dias inteiros e cogite seriamente ficar até uma semana. A Geleira Viedma também toma um dia de passeio. Atente para a previsão do tempo: se o dia amanhecer hostil, isso poderá miar a saída – priorize a sua segurança.

Fitz, Fitz, hurra!

Laguna Capri no Monte Fitz Roy (Cris Photos/Flickr)

Encarar os 10 quilômetros só de ida à Laguna de los Tres, a trilha que deixa você frente a frente com o Fitz Roy, estava nos meus planos de um jeito meio difuso. São oito horas de caminhada, 20 quilômetros ida e volta. O que eu lia a respeito em fóruns na internet era empolgante por um lado (“Melhor trekking da vida”) e desanimador por outro (“Doeu tudo depois, parece que levei uma surra”). Mesmo que na balança as opiniões fossem massivamente favoráveis ao passeio, aquele percentual de quem se queixava não dava para ignorar.

Viajar para se estropiar pra quê? Esse era o pano de fundo quando saí do hotel naquela manhã. Minha ideia era seguir os 4 quilômetros até a Laguna Capri, que fica no caminho do Fitz, e de lá eu voltaria. A subida foi íngreme e o Mirador Rio de las Vueltas, que surgiu 15 minutos depois, revelou um rio correndo sinuoso e cercado por uma magnífica cadeia de montanhas.

Cheguei à Laguna Capri sem nenhum drama depois de quase duas horas. A quantidade de gente que seguia adiante era considerável. Por que ir, por que não ir? Segui. Depois de passar por uma mata densa, quase labiríntica, a trilha se abriu.

A paisagem mudava o tempo todo e vi pessoas dando-se por satisfeitas e fazendo meia-volta ao chegar aos quilômetros 5 ou 6. Que isso sirva de alento: retornar em qualquer momento não significa que você perdeu o melhor. O caminho inteiro é esplendoroso. Ao mesmo tempo não dava para ignorar que o Fitz Roy ficando cada vez mais perto era um canto da sereia. O que veio em seguida foi uma floresta fechada, o camping Poincenot, outro rio, outra ponte e um aviso: daqui em diante, terreno instável, 400 metros de subida, 1 quilômetro, uma hora.

Ainda que sentisse meus pés em brasa e o que tinha pela frente era uma terra seca e de pedras soltas, subi até dar de cara com isso que você vê logo abaixo. Por um triz não beijei o chão. Mas eu ainda tinha 10 quilômetros para voltar. Ao chegar ao vilarejo, minhas pernas mal me obedeciam. Abençoado seja o relaxante muscular! Se voltasse hoje, faria uma coisa diferente: pegaria um transfer até a Hostería el Pilar, 15 quilômetros ao norte de El Chaltén, em que começa uma outra trilha até o Fitz. Vantagem: você vai por um caminho e volta por outro, sem repetir a paisagem.

Depois de quatro horas de caminhada, a recompensa é o magnífico Fitz Roy (bluejayphoto/iStock)

 

Geleira Viedma

El Chaltén também tem o seu Perito Moreno. No caso, é a Geleira Viedma, em que se costumava realizar caminhada sobre o gelo. Ao contrário da irmã calafateña, que está em equilíbrio, a Viedma está retrocedendo devido ao aquecimento global. Por esse motivo, os trekkings sobre ela foram suspensos em fevereiro de 2017. Continuam a acontecer excursões pelo Lago Viedma para avistagem de icebergs; caminhadas pelas laterais; os acampamentos noturnos; e o chamado Viedma Pro, em que os visitantes podem escalar os paredões de gelo com equipamentos específicos. Informe-se com a Patagonia Aventura.

O Lago Viedma com um pedaço da sua geleira - convite a potenciais escaladores (jarcosa/iStock)

Onde ficar?

O Chaltén Suites é o que mais se aproxima de um hotel de rede. O Cumbres Nevadas tem quartos com vista para o cume do Fitz Roy. O La Guanaca  tem jeito de hostel, com quartos coloridos e cozinha compartilhada. A El Puma é acolhedora, tem lareira na sala de estar e oferece traslado até a rodoviária. A 15 km da cidade, a Hostería El Pilar é um casarão imerso na natureza e fica próximo ao início da trilha Laguna de los Tres.

Onde comer?

Tapas, sopas, peixes e carnes saborosíssimas constam no cardápio do acolhedor La Tapera (Calle José Antonio Rojo, 75). No Maffía, as massas são feitas na casa e o vulcão de chocolate de sobremesa é uma coisa!

Passeios

Para os trekkings, basta sair andando da cidade e seguir as placas. É possível ficar uma semana em El Chaltén sem repetir uma trilha sequer. A 35 km ao norte da cidade, o Lago del Desierto reserva passeios de barco no lago turquesa, com paradas para explorar trilhas e geleiras. Mais informações podem ser encontradas neste site. Outra possibilidade é ir de van até o Lago del Desierto de van e voltar de bicicleta até El Chaltén com vento a favor. Informações aqui. Os passeios à Geleira Viedma são feitos exclusivamente pela Patagonia Aventura. Você pode alugar calças impermeáveis, botas e bastão no Camping Center (Avenida San Martín, 70).

Quando ir?

O verão e o outono são as melhores estações para combinar El Calafate e El Chaltén. De dezembro a fevereiro os termômetros alcançam os 20°C, mas os dias costumam ser ventosos e os passeios no Perito Moreno e nas trilhas de El Chaltén ficam mais cheios. Março e abril desafoga e o tempo segue firme. No outono, as folhas avermelhadas dos bosques deixam tudo mais encantador.

Dinheiro

Se levar reais, troque por pesos na conexão em Buenos Aires no Banco de la Nación do aeroporto de Ezeiza ou do Aeroparque. Dólares são aceitos nas agências de passeios, mas não na entrada dos parques nacionais. Muitos lugares não aceitam cartões – em El Chaltén, nenhum lugar aceita, mas existe um caixa eletrônico na rodoviária; prepare-se: cada saque custa cerca de R$ 19, mais IOF de 6,38% e taxa de saque do banco.

O que vestir?

Brasileiro não tem know-how de verão patagônico. Em linhas gerais, encare como se você estivesse indo para o inverno na Europa. Ceroulas, meias com boa quantidade de lã, blusa segunda pele (que só cumpre a função térmica se estiver bem aderida ao corpo), fleece, casaco corta-vento, gorro e luvas são itens a serem colocados na mala. Na Patagônia, você pode alugar calça impermeável corta-vento e bota de trekking, fundamentais na hora de andar sobre o gelo e fazer trilhas se você for do time dos friorentos.

Como chegar?

Direto a Buenos Aires, a pela Aerolíneas e pela Gol.

Publicado na edição 259 da Revista Viagem e Turismo

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