Como serão as viagens de avião após a pandemia de coronavírus

Mudanças nos preços, nos procedimentos de segurança e no comportamento de passageiros são esperados; veja certezas e suposições sobre o futuro da aviação

Ainda que existam muitas incógnitas sobre o futuro pós-coronavírus, é certo que a pandemia será responsável por mudanças definitivas na indústria do turismo e, principalmente, na aviação.

Em 11 de setembro de 2001, os ataques terroristas nos Estados Unidos escancararam as fragilidades no sistema de segurança dos aeroportos e levaram a uma série de mudanças. Muitas delas perduram até hoje e já fazem parte do cotidiano dos viajantes, como a restrição de líquidos e a inspeção rígida das bagagens de mão.

Enquanto o atentado levou à suspensão de voos domésticos nos Estados Unidos por três dias, o Covid-19 vêm reduzindo a quantidade de voos por todo o mundo há mais de um mês. Dessa vez, o inimigo não é o terrorismo, mas um vírus insidioso praticamente impossível de ser detectado.

Por esse motivo, as companhias aéreas já estão adotando medidas especiais para conter a disseminação de doenças contagiosas e algumas delas podem continuar em vigor mesmo após o fim da pandemia. Veja essas e outras possíveis mudanças no modo em que viajaremos de avião daqui para frente:

O novo look do viajante moderno

Agora: Desde o dia 20 de abril, o Canadá passou a exigir que passageiros usem máscaras no processo de embarque e durante o voo. Nos Estados Unidos, representantes dos sindicatos de pilotos já estão pressionando o governo a também implementar uma legislação desse tipo. Enquanto isso, a Jet Blue anunciou que exigirá que os passageiros usem máscaras a partir de 4 de maio e a United já instituiu o uso delas para toda tripulação. Em Dubai, a Emirates equipou seus funcionários com avental descartável sobre a roupa, luvas e protetor para os olhos. Na holandesa KLM, a tripulação passou a usar toucas e luvas. 

No futuro: Existem duas possibilidades em relação ao uso de máscaras durante o voo. A primeira é que os governos ou as próprias companhias aéreas exijam que os passageiros tenham em mãos uma máscara no embarque, assim como é obrigatória a apresentação de um documento oficial com foto; a outra é que as próprias aéreas forneçam o artefato antes do embarque, coisa que a American Airlines anunciou que irá fazer. Enquanto para nós, brasileiros, o hábito de usar máscara é uma novidade trazida pelo coronavírus, para os japoneses esse já é um costume antigo e difundido. A venda de máscaras para viajantes pode se tornar tão corriqueira quanto a de almofadas de pescoço. Também podem surgir alternativas mais estilosas, como o moletom da G95, que se fecha até a altura do nariz e possui um filtro de ar, ou um cachecol da mesma marca, que protege da poluição e das doenças virais. No caso dos trópicos, importante que as empresas invetem soluções para os verões calorentos.

Bioscarf Será essa a próxima moda entre os viajantes?

Será essa a próxima moda entre os viajantes? (G95/Divulgação)

Aeroporto ou hospital?

Agora: Os termômetros infravermelhos, que apontam à distância se um indivíduo está com febre, estão sendo usados em aeroportos de todo o mundo desde o início da pandemia de coronavírus. Porém, essa técnica não é totalmente eficiente, já que muitas pessoas contaminadas pelo coronavírus são assintomáticas e, consequentemente, não apresentam febre. Sem falar que nem toda febre é causada pelo coronavírus. Mais recentemente, a Emirates começou a fazer testes de sangue que detectam o coronavírus durante o check-in dos passageiros, com resultados que saem em apenas dez minutos. Enquanto isso, a Etihad já está trabalhando em máquinas de self-check-in em que o próprio cliente confere a respiração, batimentos cardíacos e temperatura do corpo.

No futuro: É possível que esse tipo de exame se incorpore nos procedimentos de segurança dos aeroportos. Eles fariam parte da rotina de embarque dos passageiros, assim como a passagem pelo detector de metais ou pelo raio-X. O número de dispensers abastecidos com álcool em gel também deve se multiplicar. No Aeroporto Internacional de Hong Kong, está sendo testada uma máquina que desinfeta todo o corpo e todas as roupas dos passageiros: em 40 segundos, o aparelho mata todos os vírus e bactérias. A questão será saber a eficácia de tais procedimentos e como se dará a monitoração das filas que deverão se formar com as novas checagens, já que elas vão na contramão do que se espera de afastamento social.

Mais um documento para providenciar

Agora: A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um artigo afirmando que alguns países sugeriram que as pessoas façam testes para detectar a presença de anticorpos contra o novo coronavírus. Esse exame serviria de base para um “passaporte de imunidade”, com o qual o indivíduo poderia entrar ou não em um país. Assim, ficaria descartada a necessidade de fazer uma série de exames no próprio aeroporto. No entanto, a própria OMS ressaltou que ainda não foi comprovado que pessoas que contraíram a doença são imunes a uma segunda infecção ou por quanto tempo essa proteção dura. Além disso, o órgão afirmou que ainda não se sabe se os testes são realmente precisos. Isso significa que pessoas que foram infectadas podem ter um resultado falso negativo, enquanto os não infectados podem ter um resultado falso positivo.

No futuro: A ideia geral é simples: o tal “passaporte da imunidade” seria como o Certificado Internacional de Vacina Contra a Febre Amarela, que é obrigatório para entrar em certos países. Porém, ele ainda está bem longe de ser viável. Primeiro, seria preciso descobrir uma vacina contra o Covid-19 ou comprovar que pessoas que já contraíram a doença são imunes a ela e detectá-las a partir de um teste de imunidade 100% eficaz, o que não existe ainda. A questão é torcer para que uma vacina seja descoberta o mais rápido possível. Somente a partir daí será possível estabelecer protocolos com graus de confiabilidade maior.

O fim do assento do meio

Agora: Para garantir uma distância mínima entre os passageiros, companhias aéreas como a Qantas, a Delta, a American e a United estão bloqueando os assentos do meio. Dessa forma, as pessoas viajam apenas na janela ou no corredor, com um espaço livre entre elas. Esse espaçamento é possível agora, enquanto há pouquíssimas pessoas dispostas a viajar, mas deve ser inviável no futuro. Afinal, nenhuma companhia aérea quer voar com apenas dois terços de sua capacidade e, consequentemente, com faturamento reduzido. Ao se posicionar sobre o assunto, a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) argumentou que “se o distanciamento social for imposto, as viagens baratas acabarão”, já que as companhias teriam que encarecer os bilhetes para compensar os assentos vagos. O presidente da Latam, Jerome Cadier, concordou: “se bloquearem o assento do meio, os voos não se pagam. Adotar um espaçamento custa muito”. Já o diretor da low cost Ryanair, Michael O’Leary, acredita que o espaço de um assento sequer representa distanciamento social suficiente: “é uma ideia idiota que não ajuda em nada”.

No futuro: A empresa italiana Aviointeriors, especializada em assentos de aviões, propôs uma solução para esse impasse. Imagens divulgadas no Instagram da companhia mostram poltronas que separam os passageiros com placas na região do tórax para cima, o que supostamente evitaria o contágio por tosses e espirros. Outra proposta coloca os assentos do meio virados na direção contrária e com uma separação ainda mais abrangente. Resta saber se as companhias estarão dispostas a fazer alterações em suas aeronaves, se são viáveis no quesito segurança e se o custo de tais medidas deixará as passagens mais caras.

Aviointeriors A empresa italiana Aviointeriors projetou assentos que separam os passageiros por meio de divisórias

A empresa italiana Aviointeriors projetou assentos que separam os passageiros por meio de divisórias (Aviointeriors/Divulgação)

Aviointeriors O objetivo é proteger os passageiros de tossidas ou espirros do vizinho, mas não se sabe ainda se a configuração é viável

O objetivo é proteger os passageiros de tossidas ou espirros do vizinho, mas não se sabe ainda se a configuração é viável (Aviointeriors/Divulgação)

O que está barato deverá sair caro

Agora: Para garantir um faturamento mínimo nesse período de crise, as companhias aéreas estão lançando promoções de passagens tentadoras. A baixa nos preços é uma forma de incentivar as pessoas a voltarem a viajar no curto prazo. Porém, essa situação pode se inverter mais tarde.

No futuro: Se a tendência de bloquear os assentos do meio ou limitar o número de passageiros pegar, as companhias terão que aumentar os preços das passagens para compensar o valor perdido com os lugares vagos. Se isso não acontecer, a tendência continua sendo de alta no valor dos bilhetes a longo prazo. O que pode exemplificar isso é, mais uma vez, o atentado de 11 de setembro: segundo um levantamento da Dollar Flight Club, site de alerta de passagens aéreas, em 2001 os preços caíram 18%, mas depois aumentaram 25% em 2003. A mesma plataforma aponta que os voos poderão ficar 35% mais baratos em 2021 e 27% mais caros nos cinco anos seguintes.

Menos gente, mais robôs

Agora: Com os aeroportos praticamente vazios, não vem sendo necessário adotar muitas medidas contra as aglomerações. Porém, o cenário deve mudar quando o fluxo de passageiros se normalizar.

No futuro: A automação já é uma realidade em muitos aeroportos do mundo. O que pode acontecer é o uso dessas tecnologias aumentar, seja com um maior número de máquinas de self-check-in ou com a implementação de mais sistemas automáticos de despacho de bagagem. Medidas assim diminuem o contato entre passageiros e funcionários, que devem permanecer trabalhando apenas em procedimentos essenciais. Porém, essa ainda é uma questão cultural a ser vencida: nem todo mundo se sente seguro ou tem o costume de fazer o próprio check-in. Além disso, é possível que a organização das filas, como a do raio-X, e das salas de espera, mude para criar um maior espaço entre as pessoas. Em suma, “educação para viagens” deve se tornar um assunto cada vez mais relevante com o objetivo de tornar o passageiro menos dependente do contato humano, o que vai de encontro com a ideia cada vez mais disseminada de uma nova low touch economy.

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