Como foi voar de São Paulo a Londres em plena pandemia

Cabine da Latam apinhada, prato único no jantar, passageiros que cobriam a boca, mas não o nariz; jornalista que estuda na Inglaterra conta como foi

O aeroporto de Guarulhos estava quase irreconhecível. Lojas e restaurantes fechados, alguns poucos funcionários e passageiros circulando de máscara, anúncios sobre os cuidados sanitários em tempos de pandemia piscando nos monitores. Tomaria o primeiro de um dos poucos voos internacionais que a Latam disponibilizou na segunda quinzena de junho, rumo a Londres, para onde voltaria depois de três meses de isolamento em São Paulo.

Faixas no chão determinavam a distância de um metro e meio entre os passageiros na fila. Ao chegar ao guichê do check-in, uma placa de acrílico me separava da atendente, que me pediu para mostrar, além do passaporte e da passagem, o visto de estudante internacional e um formulário exigido pelo governo britânico em que eu me comprometia a passar 14 dias isolada após desembarcar no Reino Unido

A fila do raio-x estava maior do que esperado, com poucas esteiras funcionando e o processo de inspeção de malas mais lento devido às medidas de distanciamento social. Quem não usasse máscara não poderia seguir. Depois de passar pelo raio-x, caminhei pelos corredores de um freeshop completamente deserto, exceto por um segurança que observava o movimento. 

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O portão de embarque para Londres estava bem povoado. Para evitar aglomerações, o chamado para entrar na aeronave foi feito em seis grupos. Tive que pedir a uma passageira mais apressada que estava perto demais para manter a distância estabelecida. Fiquei aflita ao ver que muitas pessoas usavam a máscara cobrindo apenas a boca, com o nariz desprotegido – que naquelas condições era o mesmo que não usar máscara alguma.

Com todos aqueles cuidados, esperava que a Latam tomasse providências para manter o distanciamento também dentro da aeronave, mas não foi o que aconteceu. O voo estava lotado, sem assento do meio vazio. Passei álcool gel nas mãos e arrumei a máscara no rosto pela milésima vez.

A tripulação anunciou as novas regras sanitárias: obrigação do uso de máscara durante todo o voo (deviam instruir as pessoas a cobrir também o nariz, pensei), só permitida a retirada para o consumo de alimentos, e os passageiros poderiam se levantar apenas em casos de extrema necessidade. Além disso, o piloto explicou que as aeronaves haviam sido esterilizadas e que o sistema de recirculação renovaria o ar ali dentro a cada três minutos, graças a um filtro capaz de captar vírus e partículas

Levantamos voo. Pedi uma máscara de dormir, mas a aeromoça me informou que, por medidas de segurança sanitária, tais regalias haviam sido cortadas. Na hora do jantar, para deixar o processo mais dinâmico e minimizar as interações, a tripulação não ofereceu aos passageiros a habitual opção entre dois pratos e um grande leque de bebidas: todo mundo recebeu o mesmo macarrão com molho vermelho, copo de água e pão de mel de sobremesa.

Ao meu lado, uma mãe viajava com a filha, e o momento mais desesperador foi quando ela derrubou umas migalhas de pão de mel na minha calça e se virou para pedir desculpas, enquanto as duas ainda estavam sem máscara, com o rosto a menos de 30 centímetros do meu. Acenei e virei rápido o rosto na outra direção. Em tempos de pandemia a gente fica menos simpático. 

A distribuição do café da manhã repetiu o protocolo do jantar, e logo depois pousamos. O desembarque foi feito por fileiras, com pedidos veementes da tripulação para que ninguém se levantasse antes da hora. Estava no fundo do avião e fui uma das últimas a sair. No aeroporto de Heathrow, também bastante vazio, informes diziam que as autoridades britânicas poderiam aferir a temperatura dos passageiros, mas não vi ninguém apontando termômetros para as testas dos recém-chegados. Também alertavam para a necessidade do isolamento obrigatório de 14 dias.

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Fiquei quase uma hora na fila da imigração, e notei que o guichê “especial”, para passageiros vindos da União Européia e outros países do Commonwealth, estava desativado: todo mundo, vindo do país que fosse, teria que passar pelo mesmo processo.

No guichê, pediram mais uma vez o formulário de comprometimento com a quarentena e ainda algumas explicações de onde estudava e onde iria me isolar, mas foi mais rápido do que eu imaginava. Logo estava atravessando a fronteira da Inglaterra. Imagino que para um brasileiro sem visto de residente o processo seria mais burocrático.

Terminei meu isolamento há dois dias. Felizmente, todos os mercados aqui oferecem serviço de compra online. A cada pedido, a equipe da residência estudantil trazia as sacolas até a porta do meu flat com um lembrete: “nada de sair, Olga”. Alguns gritavam lá no térreo: “só mais cinco dias e você estará livre”. Agora é me preparar para terminar o ano acadêmico e depois aproveitar, o que for possível, do “novo normal” do verão europeu.

Olga Bagatini é jornalista, comentarista de futebol feminino e faz mestrado em Jornalismo Esportivo Internacional na St. Mary’s University, com bolsa Chevening. Siga ela no Twitter.

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