Bélgica: um passeio pela medieval, universitária e boêmia Ghent

A Manhattan medieval é jovem, com canais, culinária autoral (e vegana) e a tela mais cobiçada do mundo

Sem corrente ou cadeado, as bikes jogadas no chão diante do campus Ledeganck da Universidade de Ghent sintetizam o climão desse encanto de cidade a 25 minutos de trem de Bruxelas.

“Melhor segredo europeu” e “Manhattan medieval” são alguns de seus apelidos. Também chamam Ghent de capital veggie da Europa: reúne uma das maiores relações de restaurantes vegetarianos per capita do continente – e os outros têm ao menos um prato sem nada animal – e instituiu a quinta-feira vegana toda semana, até na escola.

Dito isso, welkom a um lugar irreverente de 248 mil habitantes, em sua maioria libertários, em parte universitários, que vivem entre canais, curtem arte, comida criativa e boemia.

Cordeiro Místico

Essa cena das bicicletas foi meu début nas ruas de Gante, digo, Ghent – não curto a forma aportuguesada, melhor grafar como você vai usar lá. A faculdade citada fica diante do MSK, o Museu de Belas Artes. Não sou maluco de museu, só que a Bélgica obriga.

Era hora do almoço e lá dentro tem um tanto para ver, logo é providencial se abastecer antes. De repente no Mub’Art, restaurante do MSK, onde fui surpreendido com um delicioso prato de kaascroquette, com uma porção desses sequinhos e saborosos croquetes grandes de queijo, acompanhada de batata ou salada.

Ghent, Bélgica Point de habitantes e turistas de todas as idades, a Graslei, uma via forrada de cafés e bares, sediava o velho porto

Point de habitantes e turistas de todas as idades, a Graslei, uma via forrada de cafés e bares, sediava o velho porto (Werner Dietrich/Getty Images)

Depois, entrei no MSK, a miríade artística. De cara, vejo, por trás dos vidros, o quadro mais cobiçado da história da humanidade, ou melhor, parte dele, que passa por uma restauração. É A Adoração do Cordeiro Místico, políptico de 24 painéis, 12 deles visíveis enquanto aberto, e o restante, quando fechado. Concluído em 1432 por Jan van Eyck, mito entre os mestres flamengos, foi iniciado por Hubert, irmão menos pop. Também chamado de Retábulo de Ghent, já teve restaurados alguns de seus painéis que foram reconduzidos pra casa, a Catedral de St. Bavo.

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Mais cobiçado? Resumo: de 1566 a 1578, católicos se pegaram com protestantes, que queriam queimá-lo, pois representava o divino, então os padres o desmontaram e o esconderam num porão até meados de 1700; em 1794, Napoleão ocupou a Bélgica e pegou quatro painéis centrais, mas perdeu a guerra; aí, em 1816, o prefeito de Ghent vendeu seis painéis para um antiquário de Bruxelas e o restante para um colecionador; com o fim da Primeira Guerra, em 1918, a Alemanha teve de devolvê-lo; em 1940, Hitler a afanou, mas, em 1945, com o fim da Segunda Guerra, os americanos a resgataram na Áustria e a repassaram à St. Bavo. Essa saga é tema de um filme de George Clooney, Caçadores de Obras-Primas.

O MSK, porém, vai além do cordeiro: tem tapeçaria, esculturas. Há telas surrealistas e sensuais de Paul Delvaux e o clássico Retrato de um Cleptomaníaco, de Théodore Géricault. É um templo dos pintores-mestres flamengos.

STAM, museu em Ghent, Bélgica O Stam, museu que conta a história da cidade com objeto

O Stam, museu que conta a história da cidade com objeto (Divulgação/Divulgação)

Noite

Dali, é vagar pelo Citadelpark, área verde em frente ao MSK, e desembocar no Stam, museu que conta a história de Ghent com objetos. Quase em sua esquina há um canal, cuja ciclovia dá num túnel, que passa debaixo da ponte. Pedalar e andar, a melhor mobilidade.

Após o Stam, vivi uma das grandes refeições desta encarnação no variado Volta, estrelado no Michelin instalado numa velha estação de energia elétrica. O Volta tem boa reputação, ao contrário dos garçons do legendário Dulle Griet, pub para fechar o dia, um dos tantos escondidos em meio aos becos centrais.

Festa em Ghent A festeira Ghent

A festeira Ghent (Divulgação/Divulgação)

Eles dispõem de 400 cervejas, mas fazem uma exigência a quem pede uma Kwak: como é servida num copo de meio metro de altura, é preciso depositar seu tênis num balde, que é alçado ao teto, caução antifurto para a taça de 1,2 litro. Indo ou não lá, saiba que a melhor noite é na quinta, pois, na sexta, muitos universitários e professores retornam às suas cidades.

Comidinhas

Na manhã seguinte, rodei mais pelo Centro, medieval, com comidinhas na pauta. A mais célebre é o cuberdon, bala de goma com recheio melado. Em formato de nariz, o mais pop é o de frutas vermelhas – mistura groselha, framboesa, mirtilo e amora, há até cerveja disso. Sabores como alcaçuz, tangerina e limão, porém, são menos enjoativos.

Cuberdon, doce típico de Ghent, Bélgica O célebre cuberdon, bala de goma com recheio de melado

O célebre cuberdon, bala de goma com recheio de melado (Divulgação/Divulgação)

Também afamada é a receita de mostarda que data de 1790 na Tierenteyn, loja na Praça Groentenmarkt. Não sou tão mostardense, então, nessa praça, preferi o Great Butchers’ Hall. Antigo mercado de carnes do século 15, é lugar para comprar e/ou provar iguarias locais como: o roomer, licor amarelo com florzinhas boiando; os speculoos, biscoitos feitos de especiarias, como gengibre e pimenta-branca; e os presuntos Ganda (nome original de Ghent) pendurados no teto – daí o nome da marina-atração, Portus Ganda, com bancos para dar um relax.

O Butchers’ Hall vale mais como passeio, porque, se a ideia é almoçar, não perca o moderninho Balls and Glory. Primeiro, opta-se pela bolota, que pode ser de porco, frango ou vegana; depois, se escolhe entre purê de batata ou salada + pão; aí, é apreciar tudo numa mesa compartilhada.

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Medieval

O Balls and Glory é colado na Veldstraat, principal rua comercial com lojas como a H&M. No fim dela, surgem as três torres que dignificam o horizonte medieval: a Igreja de São Nicolau, com seu belo órgão; o Belfort, campanário de 1442 – são 256 degraus até o topo; e a Catedral de St. Bavo, aquela da tela do cordeiro.

Outros tesouros são avistados ali do lado da Veldstraat, na St. Michael’s Bridge. Essa ponte é para desacelerar, admirar o Gravensteen, o Castelo dos Condes do século 12 com sua coleção de armaduras medievais; é para mirar a Igreja de São Miguel e o Old Fish Market.

Beco Grafitado em Ghent Beco grafitado, o Werregarenstraat

Beco grafitado, o Werregarenstraat (Fotofritz16/Reprodução)

Ghent é o antigo tinindo junto à vanguarda, vista nas pessoas e no Werregarenstraat, beco projetado pela prefeitura como um ponto livre para o grafite. “Ghent é a resistência à monarquia belga”, brinca Karel Algoed, garoto de 65 anos, baixista jazzista que também é guia. Brincadeira com um fundão de verdade.

 

Quando ir: De abril a junho, na primavera, o clima é agradável e as paisagens atingem o ápice. De julho a setembro, os turistas chegam em peso para os festivais e os preços sobem um pouco. Ainda que chuvoso, o outono (de setembro a novembro) deixa os bosques alaranjados. O inverno é rigoroso, venta muito – vale para quem procura os mercados de Natal de Bruxelas e Bruges.

Grana: Euro

Língua: Há três: flamengo (holandês), francês e alemão, mas dá para se virar no inglês.

Comunicação: O serviço BrasilDireto faz ligações a cobrar para o Brasil pelo número 0800-10055. No celular, a Base tem chip pré-pago com 100 MB de internet, desde € 10, com mais € 10, dá para acrescentar mais 1 GB.

Fuso: + 4h; se tem horário de verão aqui ou na Bélgica, oscila entre + 3h e + 5h.

Tomada: De 230 V, tipo E.

Documentos: Brasileiros não precisam de visto para até 90 dias de permanência

Como circular: São mais de 12 mil km de ciclovias no país. Por desde € 2,10, opção mais comum são as redes de tram, metrô, ônibus e trem, ainda mais devido às curtas distâncias entre as cidades – de Antuérpia a Ghent, o trem gasta 56 minutos.

Como chegar: Não há voos diretos do Brasil. A KLM voa a Bruxelas via Amsterdã, a TAP faz stopover gratuito de até cinco dias em Lisboa ou Porto e segue a Bruxelas e a Turkish voa com escala em Istambul.

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Publicado na edição 266 da revista Viagem e Turismo

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