Bélgica: um giro pela novidadeira Antuérpia

Uma cidade cool e bicicleteira em constante renovação, com diamantes, moda de vanguarda, agitos e arquitetura eclética!

Por Bruno Favoretto Atualizado em 4 mar 2022, 15h54 - Publicado em 15 jun 2018, 18h06

Sempre associei Antuérpia aos diamantes. Lembrei que era a capital dessas preciosidades pela ação de Franky Quatro Dedos, vivido por Benicio del Toro em Snatch – Porcos e Diamantes. Com três comparsas, Franky vai à cidade e rouba vários, entre eles uma pedra de 84 quilates. Essa joia rendeu desdobramentos retumbantes na vida dos personagens.

Óbvio, é uma ficção, você não é gatuno(a) e talvez nem compre um diamante lá. Mas, sim, a estada em Antuérpia proporciona sensações marcantes ao viajante, ainda mais àquele que não preza lugares tão turísticos, com fila para todo lado. Alcançada em 50 minutos de trem a partir do aeroporto de Amsterdã ou 40 minutos a partir de Bruxelas, a cidade habitada por 500 mil pessoas, e com preço médio europeu, é cheia de bons motivos para ser o começo de uma jornada belga.

É chegar e notar que Antuérpia parece a Holanda, uma Flandres genuína. A língua oficial dessa que é a região norte da Bélgica, o flamengo, ou flemish, é, na prática, o holandês. É tipo a gente a ouvir o português luso. A semelhança também aparece pelas construções de tijolo que se mesclam às modernas, pelas bikes em profusão, pelo tram, um meio de transporte delicioso e eficiente que tilinta para te atentar que está passando.

Ok, sem moças na vitrine ou coffee shops, mas parece ainda mais a Holanda por ser um lugar plano que pede caminhadas, com moda e arte aqui e acolá. Até as placas dos logradouros se orgulham de palavras como straat (rua, em flamengo). E é bom se acostumar com essas placas para se situar. Na Bélgica, o melhor para se deslocar é andar e pedalar. As cidades são pequenas, tudo é perto.

Amante diamante

O acesso mais usual à cidade é pelo desembarque na formosura da Centraal Station, onde há um parque de diversões anexo, o Comics Station. Pequeno, tem como temática um orgulho nacional: os quadrinhos. É um tributo a Smurfs, Jommeke e outros clássicos do gênero. E é um bom passeio também para fazer com as crianças, pois logo ali do lado já havia um zoológico.

Centraal Station, Antuérpia
A Centraal Station, suspiros na chegada. Crédito: Divulgação/Divulgação

Mas os diamantes são um atrativo maior, sobretudo para os adultos que vararam noites nos anos 1990 jogando Sonic. Para barganhar um anel, o lugar é a Square Mile. Existem joalherias enormes como a Diamondland, que organiza visitas gratuitas às suas instalações.

Bom para entender como 80% das pedras de qualidade do mundo são lapidadas na cidade, algo que representa cerca de 8% do PIB belga. Tem de garimpar, pois há tudo que é preço. Veem-se mestres ourives, compreende-se a classificação dos diamantes… E a coisa vai se revigorando. Antuérpia até viu fechar o Diamantmuseum, mas já inaugurou outro grandioso museu, em maio de 2018: o Diva.

Square Mile, Antuérpia
Se quer comprar – ou olhar – diamantes, vá às imensas joalherias da cidade. Crédito: Ger Bosma/Alamy Stock Photo/Latinstock/Reprodução

Antuérpia fashion

Vão-se os anéis, vem um quê fashion, um fuzuê de gente meio moderninha, meio tradicionalista. A cidade tem um vínculo com a moda desde o século 15, quando o comércio e o tingimento de roupas foram a chave para torná-la uma das mais-mais no ramo. Outra razão da fama da moda belga atual é o The Antwerp Six, grupo de seis estilistas de vanguarda e cultuados que saíram da Royal Academy of Fine Arts: Dirk van Saene, Dries van Noten, Walter van Beirendonck, Ann Demeulemeester, Dirk Bikkembergs e Marina Yee.

Daí tantas grifes descoladas no quadrilátero entre a Wapper e a Nationalestraat, que sedia o museu da moda, o MoMu, atualmente fechado para renovações. Outra rua boa para comprar é a Meir, também famosa pela The Chocolate Line, loja com deleites instalada em um palácio que pertenceu a Napoleão.

Vitrines em Antuérpia
Uma das muitas vitrines de um lugar com moda criativa e pujante. Crédito: Kris Jacobs/Reprodução

Moderno x Antigo

Exemplão da hibridez de Antuérpia, no povo e nas construções, é o Port House. Ele está para Zaha Hadid como a Sagrada Família de Barcelona está para Antoni Gaudí, já que a iraniana dona do Prêmio Pritzke, o Nobel de arquitetura, não pôde ver sua obra-estrondo finalizada – faleceu seis meses antes.

No segundo maior porto de embarque da Europa, Zaha concebeu uma construção que “flutua” sobre o antigo edifício, acoplada nele mas respeitando suas fachadas. Sustentável e envidraçada, reflete os tons do céu de Antuérpia. É de embasbacar a iluminação natural, o pátio, a biblioteca. Almoce pela região, quiçá um stoverij, que é um picadinho no molho de cerveja escura; ou, já que estamos no porto, um sole, peixe similar ao linguado.

Port House, Antuérpia
O ultramoderno Port House, legado da arquiteta Zaha Hadid. Crédito: Rosshelen/iStock

Uma fatia tradicionalista dos nativos considerou a Port House moderna demais, segundo minha enquete informal. Foi do mesmo jeito com o MAS, museu instalado numa edificação de arenito, expoente provocador, logo à beira do Rio Escalda – o acesso ao seu terraço é gratuito e o restaurante, o ‘t Zilte, tem três estrelas no Michelin.

MAS, museu em Antuérpia
O MAS, museu à beira do Rio Escalda. Crédito: Divulgação/Divulgação
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Edificações antigas, porém, me seduzem mais. As mais legais se concentram na meiúca da pequena cidade, o gracioso centro histórico que pede de uma a duas tardes agradáveis gastando sola de sapato. É andar e deparar com atrativos como o Vlaeykensgang, um beco medieval labiríntico e intrigante; o Plantin-Moretus, museu que retrata os primórdios da imprensa; e o Museum Mayer van den Bergh, com obras góticas e renascentistas de grandes mestres flamengos das artes. Caso de Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569), pintor holandês radicado em Antuérpia que, aliás, protagonizará a mostra inaugural de outro complexo pujante, o Museu Real de Belas Artes, que virá em 2019 como o maior museu do país.

Rubão e o idolatrável

Outro capítulo legal, convicções à parte, são as igrejas. Prodígios como a barroca Saint Carolus Borromeus e a gótico-romana Catedral de Nossa Senhora, edificada entre 1352 e 1521. Com uma torre de 123 metros, pode ser vista de vários pontos da cidade. Conforme ela vai se aproximando, vai batendo um furor como o que senti no Duomo de Florença.

A igrejona passou por poucas e boas: um incêndio em 1533, vandalismo calvinista em 1581, ameaça de derrubada pelos franceses que dominavam o território no século 18, entre outras. Lá dentro, desbunde e torcicolo de tanto olhar para cima: estão ali alguns dos golaços do ídolo local, o maior dos mestres do barroco flamengo, o Van Gogh flemish, Peter Paul Rubens (1577-1640). Ligue-se nos gigantescos e lindos trípticos como A Elevação da Cruz (1610) e A Ressurreição de Cristo (1612).

Igreja Saint Carolus Borromeus, Antuérpia
A Igreja Saint Carolus Borromeus. Crédito: Divulgação/Divulgação

Rubão, porém, não ficou somente no sagrado. O cara mereceu até estátua ali na Groenplaats, praça rodeada de restaurantes e bares. Pintou tudo que é segmento, quadros históricos que retratavam cães, cavalos, mães amamentando. Na linha do Renascimento italiano – aprendeu muito com Caravaggio -, só que mais naturalista. Rubens também foi escultor, tapeceiro, escritor e até diplomata/espião a serviço de Flandres, de tão simpático e afável que era. A história dele está toda retratada ali perto da catedral, na Rubenshuis, a velha mansão do pintor. Com jardim e quase inalterada desde o século 17, exibe uma coleção que sintetiza como se vivia à época.

Rubenshuis, Antuérpia
A mansão de Rubens, o cara Divulgação/Divulgação

Seguindo pelo Centro, salta à vista a razão de a majoritariamente católica Bélgica ter feito uma revolução para se separar da protestante Holanda. Os belgas se declararam independentes do Reino Unido dos Países Baixos em 1830. É que há até figuras sacras pequenas, quase subliminares, perto de postes e acima de placas de ruas, como na Sint-Pieter en Paullus, coisa do século 16.

Visita boa nessa região é a Grote Markt, praça com a majestosa construção da Stadhuis, a prefeitura. No meio dela, uma estátua desabrocha. É Sílvio Brabo, figura mítica, arremessando uma mão. Reza a lenda que havia um gigante no Rio Escalda que exigia pagamento a todos os que nele navegavam; cortava a mão de quem se recusava a pagar. Até que Brabo duelou com esse gigante, o matou, decepou sua mão e a atirou no rio. Daí as antwerpse handjes, mãozinhas-molde para biscoitos e deliciosos chocolates, como os da Leonidas, loja onipresente.

Mini-Berlim

Antuérpia ostenta algo de mini-Berlim, ambas velhas e novas, clássicas e descoladas, com uma inegável tendência hipster. Então convém falar da noite. Adeptos de um jantar com pegada happy hour procuram ruas do Centro como a Suikerrui, endereço do De Bomma, “Da Vovó”, em português, como denuncia o xadrez dos aventais do staff.

Tendência mundial, ali o gim transborda como base de drinques – em geral, eles saem de € 7 a € 12 país afora. Jantei a típica chipolata, uma linguiça fina enrolada em espiral, e a água foi cortesia. Baladas? Existe jazz pelas ruas Hoogstraat, Pelgrimstraat e Pieter Potstraat; rock na Stadswaag; e eletrônico e afins nas imediações da Centraal Station.

De Bomma, restaurante em Antuérpia
O salão do De Bomma, restaurante com pegada happy hour. Crédito: Divulgação/Divulgação

Seja qual for o seu perfil, você está na Bélgica e quer cerveja, então bora considerar o Kulminator, um bar certeiro com seus 550 rótulos, alguns deles estocados há 25 anos. Um bom lugar para brindar ao Rubão, ao Sílvio Brabo, a Antuérpia.

Quando ir

De abril a junho, na primavera, o clima é agradável e as paisagens atingem o ápice. De julho a setembro, os turistas chegam em peso para os festivais e os preços sobem um pouco. Ainda que chuvoso, o outono, de setembro a novembro, deixa os bosques alaranjados. O inverno é rigoroso, venta muito – vale para quem procura os mercados de Natal de Bruxelas e Bruges.

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