Ao Coliseu e além: onde estão os bairros mais descolados de Roma?

Dicas de uma moradora de Roma sobre atrações escondidinhas na cidade

Por Gislaine Marins Atualizado em 9 Maio 2018, 17h55 - Publicado em 17 dez 2014, 18h32

Quando vim morar em Roma em 1998, eu era uma estudante de literatura sem muito dinheiro, e muita vontade de conhecer tudo. Hoje, 20 anos depois, tenho um marido e um filho romanos, não vivo uma dolce vita, mas não tenho do que me queixar. É a cidade eterna, diziam os escritores da Roma Antiga. De minha experiência, que divido um pouco aqui, está mais para uma cidade infinita.

E começo puxando a sardinha para a minha brasa. Moro em Tor Pignattara, que, com o vizinho Pigneto, formam os bairros da vez. E não estou sendo cabotina. O New York Times em reportagem definiu Pigneto como o “enclave cool do momento”, uma espécie de Brooklyn.

Saem de cena os turistas, as ruínas históricas mais famosas, entram o grafiti, uma vida de bairro pulsante, em suma, é a Roma que não está no filme “A Grande Beleza”. A frequência é jovem, casais circulando até altas horas com crianças, artistas, um ar underground e ao mesmo tempo de vanguarda. É perfeito para conhecer gente, reviver um certo clima anos 70, descobrir tribos meio intelectuais, meio de esquerda.

Scooter em Roma, Itália Scooter em Roma, ItáliaCena típica de qualquer quebradinha romana

Para quem vem do Vaticano (ônibus linha 81) ou da Estação Termini (linha 105), basta descer no ponto Ponte Casilino: ao atravessar a rua e passar o hotel que se encontra na esquina, chega-se à praça principal de Pigneto, a Isola Pedonale, onde se concentra a maior parte dos restaurantes e lojinhas.

+ Um guia de Roma segundo o filme “A Grande Beleza”

Mas as artérias laterais também reservam boas surpresas, como o Lo Yeti (Via Perugia 4), uma livraria-café onde se pode petiscar enquanto se lê um livro disponível nas estantes (e que pode ser comprado se for o caso).

Em Tor Pignattara, o legado arqueológico dá o tom do bairro (do Pigneto, a linha 105 leva até lá, ponto Tor Pignattara, ou 2 quilômetros a pé percorrendo a Via del Pigneto até o fim e à direita na Via di Acqua Bullicante). A Via di Tor Pignattara conduz ao Aqueduto Alessandrino e, seguindo os arcos do monumento, você topa com a Osteria Bonelli (Viale dell’Acquedotto Alessandrino 172), a melhor dali.

Se, em vez disso, seguir em frente pela Via Casilina, chegará ao Mausoléu de Santa Helena, sob o qual se encontra a Catacombe dei Santi Marcellino e Pietro; a entrada é pela Igreja dei Santi Marcellino e Pietro (Via Casilina 641).

Mas o lado sagrado da cidade vai muito além do Vaticano, e falo aqui do Gueto, o bairro judaico. Para chegar, o ponto de referência é o Teatro Marcelo, também conhecido como “piccolo colosseo”: basta pegar a rua lateral do monumento. O ponto alto é a visita guiada ao Museu da Sinagoga: entende-se ali as segregações que os judeus soferam ao longo da história e que culminaram na deportação para campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar de tudo, o que se respira pelas ruas é um ar de laços profundos com a cidade e basta andar pela Via do Portico d’Ottavia para perceber isso.

Moisés manco

Coliseu, Fontana di Trevi e Panteão são, claro, incontornáveis, mas o que me emociona no circuito mais turístico hoje em dia são os detalhes. Explico. Além das igrejas que qualquer guia indica, tenho um apreço especial pela San Pietro in Vincoli (Piazza di San Pietro in Vincoli 4/a), ou São Pedro Acorrentado (as correntes das quais o apóstolo se livrou estão lá expostas), que fica perto do Coliseu, subindo a colina.

O monumento interessante ali é o Moisés de Michelangelo. É uma obra, digamos, “deformada”, já que inicialmente ela havia sido esculpida em uma posição estática. Como era comum na época, muitas obras eram reelaboradas depois de um tempo. Quando Michelangelo retomou o Moisés, ele quis lhe dar movimento, mas faltava mármore para esculpir a perna dobrada. O que ele fez? Esculpiu dobras na túnica, de modo que não chamasse a atenção a diferença de comprimento entre uma perna e outra. O resultado é um Moisés manco, verdadeira obra-prima!

Moises MoisesMoisés de Michelângelo: belo e manco

Outra igreja que recomendo é a de Santa Maria degli Angeli e dei Martiri (Piazza della Repubblica), o último projeto arquitetônico deixado por Michelangelo. A igreja foi construída aproveitando as ruínas das termas de Diocleciano, e a praça tem a forma redonda que acompanha a circunferência da ruína utilizada como fachada da igreja.

Dentro, na falta de mármore para fazer os acabamentos, as paredes foram pintadas para imitar a pedra. É preciso olhar com atenção para ver onde há mármore e onde há pintura. Por fim, a igreja possui um relógio solar, com a indicação das constelações no pavimento. Um raio de sol percorre o relógio ao longo do dia, mas o percurso varia durante o ano de acordo com as estações.

E já que de início falei na Fontana di Trevi, vale lembrar que, desde 2015, a paisagem ali mudou bastante. O eterno cenário de La Dolce Vita passou por uma grande restauração, finalizada em novembro de 2015, após 16 meses, e que custou cerca de € 2,5 milhões.

Mangia che te fa bene

Lição gastronômica número um: evite restaurantes cheios de turistas. Você é um, mas não precisa cair em arapucas. Coisas a serem evitadas: deixe os risotos para Milão. Arroz, exceto pelo supplì (já falo dele), não é o forte dos romanos. A carne também não é lá essas coisas. É preciso ir à Toscana ou à Umbria para falar seriamente do assunto.

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Além das massas e pizzas, o carro-chefe de Roma são as frituras. Se no restaurante em que você for oferecerem friti como entrada, aceite. São os empanados à romana, mas bem mais crocantes e variados em relação ao que costumamos encontrar no Brasil. Dica? Flor de abóbora recheada com anchova e mussarela (busque por fiori di zucca), demais! Uma alternativa? Carciofo alla giudia, ou alcachofra à moda judaica (no Gueto, claro!): vem frita e é divina.

Carciofo alla giudia, alcachofra italiana prato típico de Roma Carciofo alla giudia, alcachofra italiana prato típico de Roma Alcachofra frita: delícia judaica

Café em Roma é levado muito a sério. O Sant’Eustachio Il Cafè, na Piazza Santo Eustachio, perto da Navona, é badalado e merece a fama, mas as filas são quilométricas. Alternativa? A rede O Castroni, na Via Nazionale e em outros dez endereços, serve uma bebida de primeira, a ser tomada em pé. Ultimamente, tenho provado deliciosos cappuccinos na Latteria Bar Cafè (Borgo Pio 48), que não cobra mais só porque está a dois passos da Piazza di San Pietro.

Direto do forno

Se a fome bater, os “fornos” são a melhor pedida. Você irá topar com muitos, basta ficar atento às fachadas ou, quando não houver indicação, às prateleiras internas, com pães à disposição. Muita gente não sabe, mas quase todos os fornos preparam sanduíche ao gosto do freguês (o produto não é exposto e geralmente não aparece na lista).

Exemplo: posso pedir uma tartaruga, que é um pãozinho redondo, e acrescentar três fatias de salame romano corallina, uma fatia de queijo caciotta, uma fatia de abobrinha (zucchine): vai de acordo com os produtos que o forno vende.

Em muitos bairros, o mesmo serviço é oferecido pelos mercadinhos, chamados alimentari (está escrito na fachada). O forno que se encontra na praça do Pantheon é ótimo, assim como os que ficam na região de Campo di Fiori, como o Il Fornaio (Via dei Baullari 5).

O forno da Patrizia (Borgo Pio 159), perto do Vaticano, é o único que conheço na região em que tudo é preparado na hora. Uma alternativa aceitável ali é a rede Insalata Ricca, na Piazza Risorgimento e em outros dez endereços. A rede não serve pratos típicos, mas não vende gato por lebre (“golpe” bem comum em restaurante pega-turista é molho pesto com creme de leite, o que deixa qualquer italiano passado).

Campo di Fiori, em Roma, Itália Campo di Fiori, em Roma, ItáliaO Campo di Fiori

No Il Mozzicone (Borgo Pio 163), se o almoço for numa terça ou sexta, peça massa com futos do mar: são os dias em que o peixe fesco é entregue aos mercados da cidade.

Outras especialidades são a pizza a taglio (em pedaços quadrados) e o supplì (bolinhos de arroz recheados com mussarela). As boas pizzarias não vendem pizza o tempo todo – elas vão desenfornando de acordo com o fluxo de clientes (os romanos almoçam por volta das 13h).

Perto do Mausoléu de Augusto, na Via Frezza, recomendo a pizzaria Da Luigi (Via Della Frezza 40): glamour zero, autenticidade 10! Numa ruazinha escondida quase na Navona está o Lo Zozzone (Via del Teatro Pace 32), que vende a pizza ripiena: é quase um sanduíche e o recheio fica a gosto do freguês.

Sorvetes? Também por ali, a Quinto é boa tanto em gelatos quanto em vitaminas – é provável que o atendente entregue junto o copo do liquidificador com o chorinho, generosidade rara em tempos de vacas magras.

Na Via Veneto, coração da velha dolce vita, tem o L’Hambugheria, uma sucursal do Eataly, a já famosa megastore de comidas que fica próxima ao metrô Piramide.

Aliás, lá eu só não recomendo o nhoque. Ah, só por curiosidade: dia de comer nhoque em Roma é quinta-feira. Buon appetito!

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Publicado na revista Viagem e Turismo — agosto de 2014 — edição 226

 

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