Além do Bolero de Ravel: saiba o que fazer em João Pessoa, o tesouro paraibano

Uma das capitais mais desestressadas do Brasil, João Pessoa brilha no curto, bonito e pouco conhecido litoral da Paraíba

Por Fellipe Abreu 3 jul 2012, 16h10

Atualizado em 31/3/2016.

Em uma divisão imaginária das belezas do Brasil, o Nordeste ocupa enorme pedaço, especialmente seu litoral. Mas os 130 quilômetros da costa paraibana não costumam ser a primeira lembrança do viajante sedento por falésia e água de coco. E isso mesmo com aquela latitude perfeita, 7 graus ao sul da Linha do Equador. João Pessoa, a capital da Paraíba, com 720 mil habitantes, no centro desse litoral, é uma das cidades menos estressadas do Brasil. Trânsito ali é algo tão raro como feira às segundas-feiras.

Beneficiada por uma lei que veta edifícios à beira-mar com mais de quatro andares, bairros como Manaíra e Cabo Branco exibem visual incomum comparado ao de outras cidades litorâneas, nas quais os prédios altos tiram o sol da praia nos horários em que mais precisamos dele.

Acompanhando a “moda”, os hotéis também são baixinhos. João Pessoa tem, falar nisso, o Verdegreen, um hotel sustentável que foi construído inteiramente com madeiras de reflorestamento e faz uso intensivo de energia solar. A correção ambiental também está nos detalhes: todos os funcionários vestem uniforme de algodão orgânico.

É muito fácil se deslocar por João Pessoa, cujo Centro Histórico é ligado à orla pela Avenida Epitácio Pessoa. Na orla, um calçadão de 6 quilômetros vai de Manaíra, ao norte, a Cabo Branco, ao sul, passando por Tambaú, onde está um postal da Paraíba, o estranhíssimo Hotel Tropical Tambaú, com seu formato de disco voador. Tanta gente correndo, se exercitando ou simplesmente passeando ao longo do calçadão faz pensar que qualquer campanha do tipo “Dia do Desafio” seria ociosa ali: os pessoenses já se mexem todos os dias.

João Pessoa, sempre ensolarada (foto: Otávio Nogueira/Flickr/creative commons)

O sol é madrugador em João Pessoa

Visitei João Pessoa quando o frio começava a dar as caras em São Paulo, e foi lindo acordar com o sol forte no rosto. A intensidade da luz me fez pensar que havia perdido a hora. Teria o despertador falhado? Estiquei o braço para alcançar o celular e ver o tamanho do prejuízo, mas eram apenas 6h30. Feliz como se tivesse encontrado dinheiro na calça, levantei-me para aproveitar o meu primeiro dia de sol na Paraíba.

Depois de tomar um café caprichado, saí sem saber por onde começar. Decidi então perguntar aonde ir para os próprios pessoenses. Minha pesquisa informal deu 100% para Bessa, a praia que eles consideram a mais bonita da cidade. São 6 quilômetros de areia, uma bela linha de coqueiros e trechos tranquilos que se agitam mais ao norte, quando começa Intermares, praia de surfistas que tem uma base do Projeto Tamar.

Bessa é a mais bonita, mas não a mais popular. Esta é Ponta do Seixas – a tal, você há de se lembrar das lições de geografia, a ponta mais oriental da América do Sul, cheia de barracas em que o forró toca non-stop. Mais ao sul, a bonita Barra de Gramame permite banhos em água doce e salgada. O Rio Gramame, antes de desaguar no mar, forma uma grande lagoa de águas escuras. Falésias avermelhadas completam o cenário.

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Se praias desse quilate e um sol generoso não são razões suficientes, saiba que João Pessoa começa a se destacar também na gastronomia. O restaurante Mangai é unanimidade quando o assunto é comida sertaneja. A buchada de bode e o baião de dois têm clientes fiéis, mas o cardápio traz coisas mais “acessíveis”, ainda que seus nomes não deem água na boca. O sovaco de cobra (carne de sol moída com milho e cebola) e a gororoba de charque (macaxeira, charque e queijo de coalho) são boas opções, mas não deixe de provar um clássico da casa, o pão de macaxeira com a deliciosa carne de sol com nata. O Mangai hoje também está presente em Natal e Brasília.

Se até aqui falei de quão dessemelhante é João Pessoa das outras capitais nordestinas, vamos às parecenças: até 7 da noite os fãs de artesanato podem se esbaldar nos dois andares do Mercado de Artesanato Paraibano, em Tambaú. Impressiona a variedade de peças produzidas com algodão orgânico colorido naturalmente. Outra parecença é a existência de uma construção de Niemeyer, daquelas reconhecíveis a quilômetros, a Estação Cabo Branco, que abriga um museu de ciências e exposições temporárias de arte.

Estação Cabo Branco, que tem arquitetura e exposições interessantes (foto: Fernando da Veiga Pessoa/Flickr/creative commons)

Um roteiro pelo Centro Histórico de João Pessoa

Milton Nascimento já dizia em uma velha canção que a “novidade é que o Brasil não é só litoral”. Troque Brasil por João Pessoa e encante-se com um Centro Histórico lindinho. A capital paraibana é uma das cidades mais antigas do país, fundada em 1585 como Filipeia de Nossa Senhora das Neves (no século 17, após o domínio holandês no Nordeste, Filipeia virou Frederica).

Comece pela Praça João Pessoa e vá andando até o Teatro Santa Rosa, de 1889, um dos mais antigos do país. Conheça as lindas casinhas coloridas na Praça Antenor Navarro e siga à Igreja do Carmo. Do outro lado da rua, o Casarão dos Azulejos vale uma foto. Mas deixe o melhor para o final. O Centro Cultural de São Francisco, formado pela Igreja de São Francisco e pelo Convento de Santo Antônio, é um belo exemplar do barroco brasileiro.

As praias imperdíveis e os clássicos da capital paraibana

João Pessoa está a 140 quilômetros de Recife e 180 de Natal, o que torna a capital ainda mais estratégica para quem quer se mexer um pouco pelo Nordeste. Mas nem é preciso viajar “tanto”. O litoral paraibano, para o norte e para o sul, tem belezas para dias de viagem. Tomando a BR-101 em direção a Natal, saia na altura do quilômetro 50 e acompanhe as placas para a Praia de Campina.

Daí, placa é o que não falta até Barra de Mamanguape. A atração mais famosa por aqui é uma base do Projeto Peixe- Boi, ONG que ajuda a preservar o maior mamífero das águas doces brasileiras. Ali um barqueiro leva o visitante pelos manguezais do Rio Mamanguape. Logo ele desliga o motor do barco e começa a remar para não afugentar os bichões. De um mirante de madeira é fácil observar os quatro moradores mais famosos dali, que de tempos em tempos vão até a superfície para buscar oxigênio. Guape, o maior deles, gostou de mim, assim me disse o barqueiro, já que não se importou com os meus cliques.

Os leitores que conhecem a Paraíba talvez estranhem a minha demora em falar de dois clássicos locais, o Bolero de Ravel ao pôr do sol e a praia naturista de Tambaba, a primeira do Brasil, onde ficar de sunga ou biquíni é proibido – assim como a presença de homens desacompanhados. Eu não ia falar nada mesmo, mas não poderia deixar de registrar que ali é disputado um campeonato de surfe para pelados, o Tambaba Open. Eis uma maneira de ser admitido na praia se você é solteiro: competindo no evento.

Peixe-boi de Barra de Mamanguape (foto: Cacio Murilo)

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