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A número 1

Gramado, melhor destino de inverno do Prêmio VT, entra na era do turismo de luxo - mas os ônibus continuam chegando

Por Júlia Gouveia
Atualizado em 14 dez 2016, 11h56 - Publicado em 17 set 2011, 20h26

Quando o senhor Octávio Rossi chegou a Gramado, em meados dos anos 1950, por ali ainda não existiam os jardins de hortênsia, as fabriquetas de chocolate e os restaurantes de fondue, marcas características desse que é o grande destino de inverno no Brasil. “Nem rua direito tinha. Ali, ó, era tudo terra”, me disse o simpático octogenário apontando para a movimentada Avenida Borges de Medeiros, a principal de Gramado. Naquele momento, carros, ônibus de excursão e turistas se aglomeravam como se algo importante estivesse para acontecer. Mas era um dia comum. Há algum tempo, essa é a rotina da pequena cidade gaúcha, a 135 quilômetros de Porto Alegre, desde que um prefeito “meio maluco” – Pedro Bertolucci, que esteve quatro mandatos à fente da cidade -, como diz seu Octávio, resolveu transformar aquele município rural em uma potência turística, ainda nos anos 1970. “Começou a vir tanta gente que houve quem dormisse nos bancos da praça”, contou ele. Seu Rossi não tem do que reclamar, pois vive do turismo. Ele é dono da Vovó Carolina, quinta melhor pousada do Brasil para os eleitores do Prêmio VT 2010/2011.

Hoje não é mais preciso dormir em bancos da praça. Os 3 milhões de turistas anuais encontram mais de 10 mil camas em cerca de 140 hotéis – nada mal para uma cidadezinha de 32 mil habitantes. Gramado foi eleito o melhor destino de inverno do Prêmio VT 2010/11 na estreia da categoria, bem à fente de Campos do Jordão, a medalha de prata. Excetuando as praias, é o primeiro produto nacional mais vendido da CVC, a maior operadora brasileira. Hoje Gramado vive sua terceira onda do turismo, pode-se dizer. Inicialmente refúgio de gaúchos endinheirados, depois meca das excursões rodoviárias, Gramado começa a apontar em direção ao turismo de luxo. O grande movimento nesse sentido foi a estreia do Saint Andrews, em dezembro. O hotel fica em um casarão que é verdadeiro castelo, outrora pertencente a uma família de Novo Hamburgo. Do teto pendem 35 lustres de cristais tchecos, as cadeiras são em estilo vitoriano e os tapetes, feitos sob encomenda, combinam com os papéis de parede ingleses de motivos florais. O hotel é de Guilherme Paulus, da CVC, e tem José Eduardo Guinle como diretor-geral. Guinle é um dos sobrenomes da hotelaria brasileira – seu pai, Octávio, fundou o Copacabana Palace em 1923. Guinle gosta de dizer que o Saint Andrews é um lugar para o “hóspede se sentir na própria casa”. O tono de ironia salva a fase do convencionalismo. É que, para se sentir em casa no Saint Andrews, seria preciso viver num lugar semelhante a uma mansão, onde trabalhassem mordomos, chefs, sommeliers. Ao chegar ali, em um dia de neblina forte, confesso que a minha sensação foi parecida com uma hóspede de 13 anos que deixou este honestíssimo recado no livro de visitas: “Tudo é muito lindo aqui, mas me senti invadindo a mansão de alguém”.

Mas foi uma invasão deliciosa. Como na nossa casa, você pode escolher onde quer fazer as refeições. Pode ser na adega, no deque do jardim, no quarto. Escolhi a cozinha (digam: você tira a pessoa da classe média, mas não a classe média dela). Eu tinha um bom motivo: ver a chef Marina Fontes em ação. A moça executou na minha fente um incrível carré de cordeiro e um cuscuz marroquino com a simplicidade de quem ferve água. Conversamos bastante, enquanto o sommelier Gustavo Bertolucci explicava quais eram as melhores maneiras de harmonizar meu cordeiro com o tinto chileno Casa Silva e o sundae de café que arrematei no final.

Do outro lado da Avenida das Hortênsias, o Kurotel é outro endereço que define bem esse coté elegante da cidade. Fundado em 1982 por um casal de médicos, o spa logo virou referência nos tratamentos para emagrecimento, longevidade e bem-estar. Sem regimes espartanos ou horas intermináveis de aeróbica, a filosofia ali é buscar equilíbrio entre o corpo e a mente para perder peso, parar de fumar ou se preparar para uma operação. Equipamentos especialíssimos são mobilizados para esses objetivos. Como um que avalia os problemas da pisada do pé. Há também cadeiras de relaxamento projetadas pela Nasa. Ficar uma semana ali sai pelo menos R$ 8 000, mas você não gasta 3% disso no Kur Estação das Águas, com direito a uma sequência de banhos relaxantes e um almoço.

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Difícil é convencer quem vai a Gramado a pegar leve nas calorias. A cidade tem as melhores fondues do Brasil e restaurantes que servem uma deliciosa sequência de sopa, galeto, massa e muita polenta. Há três restaurantes estrelados pelo GUIA BRASIL 2011 na cidade (Campos do Jordão, atrás de novo, tem dois). Entre eles, o Belle Du Valais, o melhor suíço do país, e o Casa di Paolo, que serve um galeto que vou te dizer. Recentemente Gramado ganhou uma vinícola, a Ravanello. É a primeira da cidade – a região vinícola por excelência da Serra Gaúcha é Bento Gonçalves, a 110 quilômetros de lá.

Alexandre Ravanello, filho do proprietário, Normélio Ravanello, gosta de dizer que a vinícola está a apenas “15 minutos da Borges de Medeiros” e esse é um trunfo. Visitar Bento é uma experiência bem mais completa para um enoturista – a cidade concentra mais de 30 vinícolas e parreirais a perder de vista -, mas a Ravanello mostra ao visitante um traço próprio de Gramado: o cuidado com a tradição, tão evocada nas empresas familiares da cidade. Alexandre fez questão de me mostrar um triturador onde “vovô já produzia seus próprios vinhos para vender à vizinhança”, em suas palavras. Em 2010, a Ravanello celebrou sua esperada primeira safa.

Pegar um friozinho já é uma razão para viajar. Ainda mais se acompanhado pelas atrações de Gramado. Por outro lado, Gramado também se tornou uma espécie de celeiro de atrações inusitadas. Aquela velha história: cidade que não tem praia precisa se virar. Em 2009, surgiu por ali o primeiro museu de cera do Brasil, o Dreamland. Hoje o prédio abriga dois museus diferentes. Nos mesmos moldes do inglês Madame Tussauds, o Dreamland trouxe dos Estados Unidos cerca de 50 estátuas em tamanho real de diversas personalidades. Ok, o Elvis Presley é meio Zulu e o Ayrton Senna lembra um pouco o Zacarias, mas os cenários onde eles estão são muito bem elaborados – há até um barco pirata para fotos. Pegando um elevador panorâmico, a chegada ao piso inferior causa até um choque. Ali fica o Harley Motor Show, meio museu, meio bar, com 21 motos da Harley-Davidson – e toneladas de néons. A 1 quilômetro de distância está o complexo Hollywood Dream Car, outro museu, só que de carros antigos. Entre Cadillacs, Rolls-Royces e Jaguares, são 28 automóveis originais e em perfeito estado de conservação. O acervo é avaliado em R$ 20 milhões. Daqui a alguns meses, será inaugurado um quarto museu, o Super Carros. Dessa vez, o espaço será dedicado a máquinas modernas e potentes, como Porsches e Lamborghinis – com a diferença de que, pagando uma taxa, os visitantes poderão andar de carona e até dirigir os carrões. Será possível inclusive levar os modelos para casa – tudo estará à venda.

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Com a chegada do inverno, Gramado começa a fervilhar. Dezenas de atividades por toda a cidade marcam a temporada. O Lago Joaquina Bier vira palco de atrações culturais. No Estação Gramado, a pista de patinação no gelo dá aquele ar gringo. Na Rua Coberta, o point da cidade com seus bistrôs e cafés charmosos, há apresentações musicais e exposições de artistas locais. Em agosto começa o Festival de Cinema, o mais glamouroso do Brasil. Com tudo isso, na temporada, a cidade fica um pouco mais notívaga. Em maio, quando visitei Gramado, andei pela Borges de Medeiros, a principal via de Gramado, que às 9 da noite já estava bastante silenciosa. As vitrines eram um breu só. Em minha direção vinha um casal. Ele, de cachecol de lã e jaqueta de couro; ela, de chapéu, trench coat até os joelhos e bota de salto altíssimo. Trocamos olhares cúmplices pela nossa falta de timing. Ela então me disse: “Pelo menos, estamos pegando esse fiozinho, né? Você pode tirar uma foto nossa ao lado do termômetro?”

Reconheci-me na menina. Assim como ela, tenho sol e praia no DNA, e pegar um fiozinho já é uma ótima razão para viajar. Ainda mais se acompanhado pelas atrações de Gramado.

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