Roteiro pelo melhor do Mato Grosso

A natureza dita o ritmo da viagem entre a bicharada do Pantanal Norte, as montanhas da Chapada dos Guimarães e os rios cristalinos de Nobres

Por Betina Neves Atualizado em 31 ago 2021, 15h48 - Publicado em 25 ago 2021, 13h05

Nada pode dar errado numa viagem que começa com uma pândega gastronômica, pelo menos foi o que eu pensei durante meu almoço inaugural no Mato Grosso, logo depois de aterrissar no bafo quente de Cuiabá. No restaurante Lélis Peixaria, pirarucu no espeto, filé de arraia à milanesa, piraputanga recheada de cebola na manteiga, lambari frito, linguiça de jacaré e pintado ao creme de banana passam num irresistível rodízio difícil de imaginar em outra parte do Brasil.

O Mato Grosso é comumente preterido em relação ao vizinho Mato Grosso do Sul, onde ficam Bonito e um naco do Pantanal com alguns hotéis sofisticados (uma das maiores planícies inundáveis do planeta, o bioma ocupa 210 mil quilômetros quadrados, divididos entre os dois “Matos Grossos”). De fato, a estrutura aqui é mais modesta, mas as belezas naturais são comparáveis. E talvez seja justamente essa simplicidade que faça o estado ser tão gostoso de descobrir. De qualquer modo, todo o roteiro que segui é facilmente transitável em carro alugado e não se afasta muito da capital.

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PANTANAL NORTE

Você alcança o Pantanal, chamado aqui de Pantanal Norte, na cidade de Poconé, a míseros 100 quilômetros de Cuiabá. Depois daquele almoço nababesco, enchi o tanque ali e parti para a Transpantaneira, uma estrada de terra de 145 quilômetros que se alonga entre campos abertos, matas e aterros que represam as águas das cheias e formam refúgios para a bicharada.

Pouco depois da placa de madeira que anuncia o começo da via, você já depara com ela, seguindo a vida como se nada fosse: fileiras de jacarés repousando sob o sol, emas caminhando no pasto, congregações de garças-cinzas empoleiradas na água junto a esbeltos tuiuiús, ave-símbolo do Pantanal, com mais de 1 metro de altura. Tudo colorido pelo florescer dos ipês-rosa, amarelos, brancos, que ocorre na seca (de julho a outubro), única época em que a Transpantaneira é transitável em carro de passeio. Se você não é admirador de pássaros, aliás, ali vai se tornar: eles são o grande destaque da fauna local, e atraem grupos de europeus sessentões com suas roupas de safári e suas câmeras potentes para as pousadinhas ao longo estrada.

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As hospedagens costumam incluir passeios e refeições na diária (não tem restaurante por ali). Há boas opções como a Pousada Rio Claro e, com uma dose a mais de charme, a Pousada Araras Eco Lodge – mas que pratica preços para gringo.

Eu não via o nascer do sol há uns anos, e o Pantanal me convocou a fazê-lo todos os dias. Onde quer que você pernoite, a ideia é acordar antes das 6h e percorrer trilhas, de preferência no lombo de cavalo, para ver a luz dourada inundando o horizonte – algumas pousadas possuem torres de observação para avistar a paisagem do alto. Macacos-prego brincam na copa das árvores, cotias se escondem entre elas, tachãs e carcarás são fáceis de espreitar. De jaguatirica, só as pegadas. Tucanos, araçaris-castanhos e bandos de cavalaria (com corpo branco, cabecinha vermelha e asas pretas) fazem o trabalho do despertador na porta do seu quarto.

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No fim de tarde, o outro horário de ouro para acompanhar os animais, passeios de barco levam pelos rios (Claro, Pixaim) à procura de ariranhas e antas, mas tem que dar sorte de elas se mostrarem. Mais fácil é dar com o gavião-belo, a jacutinga e o martim-pescador, que o guia vai apontando nas árvores. Nas focagens noturnas, depois das 21 horas, além das dezenas de pares de olhos de jacaré que cintilam no breu, lobinhos e veados-campeiros passam correndo, e grupos de capivaras, por vezes, obstruem as estradinhas.

No projeto original da Transpantaneira, a rodovia teria quase 400 quilômetros e deveria cruzar o Pantanal de Poconé a Corumbá (MS). Mas a obra foi encerrada em Porto Jofre (MT), às margens do Rio Cuiabá e seus afluentes (Piquiri, Três Irmãos, Caxiri, entre outros).

E é justamente Jofre o lugar garantido para avistar a onça-pintada (93% de chance por passeio, na estatística informal dos guias), o animal-desejo dos visitantes do Pantanal. Para isso, você precisa reservar outro hotel ali, como o Hotel Pantanal Norte, a Pousada Porto Jofre e o Porto Jofre Pantanal Pousada e Camping, e participar de jornadas de barco que duram o dia todo sob o sol inclemente.  Mas encontrar a onça bela e plena, descansando na vegetação da margem, deixa a gente com o coração na boca.

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O tempo do Pantanal é lento, requer paciência e, a bem da verdade, não há muito mais o que fazer depois de dois ou três dias, já incluindo longas leituras à beira da piscina e sessões de carteado sob as estrelas entre uma e outra refeição caseirinha (arroz, feijão, bife, purê, pudim de leite). Por isso, depois de acalmar a mente ali, fui buscar mais atividade na Chapada dos Guimarães, a 170 quilômetros de Poconé.

Por que choras, tuiuiú?

Uma lenda local explica o olhar tristonho e cabisbaixo dos tuiuiús: dizem que eles ficaram assim depois que um casal de índios que costumava alimentá-los morreu e eles estão de luto até hoje…

CHAPADA DOS GUIMARÃES

Ela é menos roots que as outras chapadas brasileiras (Diamantina, Veadeiros) por seu fácil acesso a partir de Cuiabá (são apenas 67 quilômetros), mas também capricha na paisagem, com mirantes estarrecedores, gigantescas esculturas de pedra, um punhado de cachoeiras, cavernas de arenito e vegetação do cerrado, mata ciliar e campos rupestres.

A cidadezinha chamada Chapada dos Guimarães, ao redor da qual estão algumas pousadas, é pequena e pacata, com simpatia interiorana centrada na pracinha, com igreja e restaurantes que tocam música ao vivo e servem galinhada caipira e sorvete de frutas regionais (jaca, caju, pequi). Outra opção gastronômica é o restaurante Morro dos Ventos, a um quilômetro do centro, que prepara uma costelinha de porco e tem mirante à beira de um penhasco.

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A proximidade com a capital mato-grossense também já foi sinônimo de farofa e lixo nos fins de semana na área do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, que protege 33 mil hectares, até que um acidente fatal com turistas, em 2008, causou seu fechamento por quase dois anos. Desde a reabertura, em 2010, todos os atrativos ali exigem guia – o que fez o movimento regredir, mas fortaleceu a preservação. Você pode contratar um através de agências, como a Chapada Explorer, ou entrar em contato pela lista de guias autorizados.

Há alguns passeios a se escolher. Comecei com o chamado Circuito das Cachoeiras, um percurso que sobe e desce entre os caminhos de arbustos retorcidos que desembocam em pequenas quedas-d”água, com poços para lavar a alma. A trilha culmina na Casa de Pedra, uma caverna onde a voz faz eco e a sombra acolhe para um lanchinho. Outras opções são o Vale do Rio Claro, a Cidade das Pedras e o trekking até o Morro São Jerônimo, de 18 quilômetros de extensão.

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A maior abundância de cavernas, porém, está no circuito da Fazenda Água Fria, fora do parque. Ali anda-se o dia todo. Tem trechos de mata de galeria (que forma corredores ao longo dos rios e das áreas úmidas), passando pela Aroe Jari, maior gruta de arenito do Brasil, com 1 550 metros de extensão. E tem uma lagoa azul cristalina proibida para banho e algumas quedas-d”água (nestas, sim, dá para entrar). Tudo entre o silêncio perene e o céu azul intenso do cerrado. Há pouquíssima gente à vista, mesmo na alta temporada.

Do mirante da Cachoeira Véu da Noiva avista-se o cartão-postal da região: 86 metros de queda certeira, que vai por um paredão e cai num enorme poço. Ver a chapada de cima deixa claro sua potência. Em pontos como o Mirante Alto do Céu, onde o pessoal se junta no fim de tarde, pode-se contemplar a grandiosidade das montanhas e, ao fundo, a baixada cuiabana.

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À noite, as opções para pernoitar vão desde até o resortão Malai Manso até o hostel central Casa di Rose, passando pelas pousadinhas do Parque e do Penhasco.

Olha a cobra!

Na chapada, as trilhas pedem o uso de “perneiras”. São coberturas de couro para proteger as canelas das cobras.

NOBRES

De volta à estrada, a última parada da viagem: Nobres, um primo de Bonito com menos notoriedade (e preços mais em conta), a 200 quilômetros da chapada. O melhor é ficar na Vila Bom Jardim, mais próxima dos atrativos. A Pousada Bom Jardim e a Rota das Águas têm infra honesta e organizam passeios pela região, mas também é possível reservar excursões em agências como a Roma Turismo.

Além de um peixe sempre fresquinho, o Restaurante do Chapolin, na Vila de Bom Jardim, é famoso pelo seu proprietário Agostinho Pedroso, que atende trajado como o personagem El Chapolin Colorado, de Roberto Bolaños. Entre Nobres e a Vila de Bom Jardim, o Mirante do Cerrado tem uma bela vista da região, uma piscina para uso dos frequentadores e um restaurante com refeições caseiras.

Mas o importante mesmo é separar pelo menos um dia ali para flutuar no Aquário Encantado, dentro do Recanto Ecológico Lagoa Azul. Mergulhos com snorkel em dois locais de água cristalina deixam enxergar com uma nitidez absurda piraputangas, piaus e pacus, enquanto o corpo é levado pela correnteza leve. 

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Com mais tempo à disposição, inclua no roteiro a visita à Cachoeira da Serra Azul e a flutuação no Rio Triste, no município vizinho de Rosário do Oeste. Como tudo no Mato Grosso, os passeios são ditados apenas pelo ritmo da natureza.

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É pacumê?

Não volte sem provar o caldo de piranha e a costelinha de pacu, comuns nos restaurantes da região.

QUANDO IR

Na estação chuvosa, de novembro a março, a vegetação fica exuberante, e a paisagem, alagada. Na seca de abril a outubro, os bichos circulam soltos – inclusive as onças. Essa também é a melhor época para explorar a Chapada dos Guimarães, já que com chuva as trilhas ficam mais perigosas.

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