48 horas em São Luís e Alcântara

Um roteiro de dois dias no norte do Maranhão, com muita cultura e patrimônio histórico

Por Eduardo Jun Marubayashi Atualizado em 23 ago 2021, 09h57 - Publicado em 29 fev 2012, 15h15

Como num romance de Josué Montello, passaremos um dia entre tambores e outro sob uma noite: São Luís e Alcântara, no Maranhão. Uma é patrimônio da humanidade, a outra uma cidade histórica para todos os brasileiros. Experimentaremos peixes assados, doces de buriti, ouviremos o boi e contos dos casarões. Conheceremos belas igrejas e ouviremos poesias e narrativas de gente boa desta terra, como Aluísio de Azevedo e Gonçalves Dias. Sim, porque são nestas terras que estão as palmeiras, onde canta o sabiá.

São Luís é a única capital brasileira fundada pelos franceses e, curiosamente, pelo menos externamente, a mais portuguesa de todas. São dezenas de casas revestidas de azulejos – o isolante ideal para o calor equatorial e os torrenciais meses de chuva, entre janeiro e junho. Mas esse balaio de influências cruzadas não para por aí. Aqui também imperam um certo ar amazônico e o reggae é ouvido em cada barzinho. Sem dúvidas, o Maranhão é o menos ‘nordestino’ dos estados de nosso Nordeste. É uma experiência única.

Já a antes próspera e cosmopolita Alcântara hoje é mais conhecida por sua base aeroespacial do que por seu melancólico, porém ainda belo, casario. Aliás, dos dois lados da Baía de São Marcos o precioso patrimônio arquitetônico rui a olhos vistos, vítimas de políticas inábeis. Mesmo assim, vale a pena aprontar as malas e partir para o Maranhão, explorar um pouco de nossa história para depois se encantar com as indescritíveis belezas dos Lençóis Maranhenses.

Dia 1

São Luís do Maranhão, Maranhão, Brasil
Azulejos revestindo o casario de São Luís. Crédito: Peeter Viisimaa/Getty Images

Se você chegou a São Luís na noite anterior, talvez estranhe que o mar que avistou ao chegar não esteja mais lá pela manhã. No lugar dele, um baita areião. A região possui uma das maiores diferenças de maré do planeta, girando entre seis e oito metros. Como o leito do mar em parte da Baía de São Marcos é razoavelmente plano, o resultado é um recuo da linha d’água que chega a dezenas de metros. Deixando essa curiosidade de lado, vamos começar a explorar o centro histórico, que valeu à cidade o título de Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

São quatro mil imóveis de típico desenho colonial português, que vão dos amplos e arejados solares às simples meia-moradas – com suas fachadas de porta e duas janelas. Infelizmente, boa parte delas está bem deteriorada ou mesmo abandonada, um visível exemplo de descaso do serviço público. O ponto ideal para começar nosso roteiro é a Casa das Tulhas. Observar os artigos à venda nos boxes da feira é uma pequena introdução à cultura maranhense, com o camarão seco, a explosiva tiquira e licores diversos.

Dali, inicie uma caminhada meio sem destino pelas ruas de paralelepípedo, observando o casario das ruas do Giz e da Estrela. Pelo caminho você se deparará com a Igreja de Nossa Senhora do Desterro, do século 17, construída por ‘desterrados’ (imigrantes, fugitivos e exilados) que por aqui aportaram. Próximo dali está o Convento das Mercês e seu elegante pátio de traço ibérico e o centro cultural Nova Casa do Maranhão, onde é possível ver um pouco da história e das cores da Festa do Boi. Também vale a pena conhecer a Casa da Festa, que conta um pouco da trajetória de manifestações como o Tambor de Mina e a Festa do Divino.

Faça uma pausa para o almoço experimentando os pescados da região, em um dos restaurantes no entorno da Rua Portugal, ou no Senac, com sua comida variada. Subindo até o largo da Avenida Dom Pedro II, repare na curiosa representação da Justiça na sede do judiciário estadual e visite o Palácio dos Leões, local de assento do governador. Um pouco mais adiante fica a clara e arejada Sé. De lá siga para o bem conservado Teatro Artur Azevedo, onde você poderá fazer uma visita guiada passando pelo palco, camarins e galerias. Na mesma rua está o Museu Histórico e Artístico do Maranhão, com várias peças doadas pelos próprios cidadãos.

Continua após a publicidade

Um pouco cansado de caminhar? Então pegue o carro e vá até a Lagoa da Jansen curtir o fim de tarde. Escolha um bar para apreciar seu Guaraná Jesus enquanto vê a movimentação noturna. Para terminar, que tal a carne de sol com baião de dois do Cabana do Sol?

Dia 2

O pelourinho de Alcântara, Maranhão
O pelourinho de Alcântara. Crédito: John Jessé/Wikimedia Commons

Siga para o terminal hidroviário para pegar a barca que faz a travessia São Luís-Alcântara. Dependendo da hora da maré, será um chacoalhar tremendo. Para não enjoar, mantenha o olhar fixo no horizonte, senão já sabe. Outrora uma das mais aristocráticas cidades do norte brasileiro, pontilhada de solares e casarões, Alcântara entrou em profunda e irreversível decadência no século 19. As últimas modas europeias em vestuário e louças deram lugar à ruínas e a juventude que estudara em universidades do Velho Continente migrou para a mais próspera São Luís. As teorias para tal declínio são muitas, de canaviais obsoletos a canaviais esgotados, da abolição da escravatura à falta de um bom porto. O que restou, no entanto, é de uma melancólica beleza.

Enquanto o sol ainda não está muito forte (lembre-se que estamos praticamente no Equador) vale a pena caminhar pelas areias das praias da Baronesa e Itatinga ou da Ilha do Livramento. Para esta última você precisa combinar a travessia de cinco minutos com os barqueiros do Porto do Jacaré. Passe a manhã nelas, relaxando um pouco. Explore um pouco então os ateliês e lojinhas da Ladeira do Jacaré e da Rua das Mercês (ótimos doces! Não deixe de experimentar o de buriti) até chegar na Praça da Matriz, com as ruínas da matriz de São Matias, o pelourinho e a Casa de Câmara e Cadeia.

Na hora do almoço, desça pela Rua de Baixo e ache a Rua Direita. Lá você encontrará os bons pescados do Palácio dos Nobres. Voltando para os lados do centrinho, você dará de cara com a simpática Igreja de Nossa Senhora do Carmo e as ruínas de dois casarões. A história por trás destas residências é exemplar de como funcionava o Brasil na época do império. Com a expectativa da visita de Dom Pedro II à cidade, duas poderosas famílias locais iniciaram obras de amplos solares para ter o incerto privilégio de receber o monarca e sua comitiva. Os rivais barões de Pindaré e Mearim dispuseram uma fortuna e movimentaram toda Alcântara, mas, no final, o imperador nunca deu as caras por ali.

As casas não foram concluídas e suas paredes e fundações são um símbolo da já aparente decadência social da cidade. Faça uma curta caminhada entre as ruas Direita e da Amargura para apreciar mais um pouco do casario e termine visitando o Museu Histórico de Alcântara, um antigo casarão com objetos da época. Repare nas boas soluções para manter toda a casa ventilada e fresca.

Pegue o barco de volta a São Luís. Cansado e com a mente efervescendo de tanta história, arquitetura e arte sacra (e de como tantos tesouros estão mal conservados), você merece um generoso jantar de despedida. Tome o rumo da ventania da Praia do Calhau e opte pelas fartas mesas de um dos restaurantes da região. É, simplesmente, reconfortante para a alma. Belas e encantadoras, São Luís e Alcântara são duas damas que merecem um pouco mais de carinho. Seria bom vê-las em seu auge novamente, antes que a noite caia, de vez, sobre ambas.

Busque hospedagem em São Luís

Leia tudo sobre Maranhão

  • Continua após a publicidade
    Publicidade