Rio que Shake Por Blog As descobertas, as furadas, as novidades e o eterno do Rio e cercanias por Letícia Sorg, editora-chefe da VT. Paulista do interior que vem "cariocando" há 3 anos

O refúgio de uma pandemia do passado que dá alento na atual

Hotel Vila Santa Teresa surpreende com vista irretocável na paz do pós-luxo

Por Leticia Sorg Atualizado em 18 Mar 2021, 10h50 - Publicado em 17 Mar 2021, 16h38
Pão de Açúcar é um cartão-postal à beira da piscina no Vila Santa Teresa Vila Santa Teresa/Divulgação

– Nossa, não imaginava que existia isso aqui em cima! Que coisa linda! Obrigado por me trazer aqui!

Pode parecer estranho, mas foi assim que o motorista do aplicativo se despediu ao me deixar à porta do hotel Vila Santa Teresa. Isso mesmo depois de passar um bom tempo perdido para achar a entrada e subir uma inesperada ladeira.

De fato, não é tão simples chegar lá pela primeira vez. Não há placa com o nome do lugar. É preciso saber para onde se está indo e observar a discreta sinalização de que o número 2305 fica depois de um pesado portão, no alto da pequena rampa que brota abruptamente da Avenida Almirante Alexandrino, a principal do bairro.

Do lado de dentro, a pista tortuosa vai subindo por gramados, uma mansão, uma horta. Uma paisagem campestre que sempre surpreende num dos principais bairros de uma metrópole. E prenuncia uma visão arrebatadora.

Da pandemia de então para a de agora

Com seus 80 mil metros quadrados, a propriedade não chega a ser um segredo. Mas não deixa de ser uma surpresa num bairro tão conhecido por suas histórias e belezas. Casarões, ateliês, vistas deslumbrantes. São muitos os predicados dessa vizinhança cuja ocupação se consolidou num período de epidemia. Foi em 1850, quando a cidade foi devastada pela febre amarela.

Acossados pelos mosquitos que levavam a doença para a região central, os habitantes mais abastados de São Sebastião do Rio de Janeiro decidiram subir o morro. O regime de ventos e a temperatura mais amena repeliam os mosquitos e atraíam famílias em busca de um refúgio, inicialmente, sanitário.

Foi assim que uma família austríaca se estabeleceu num dos pontos altos de Santa Teresa, em uma mansão em estilo clássico. A mesma que, em 1936, foi reformada e ampliada pelo novo dono da propriedade, Joaquim Monteiro de Carvalho. Ali, passou a viver com sua família. Pelo menos na metade do ano. Na outra, era provável estarem em Paris.

De lá, aliás, foi trazida grande parte dos itens de acabamento e decoração da residência, como mostra um livro exposto na segunda das quatro casas da propriedade, a que abriga o hotel-boutique. É ali que hóspedes e visitantes podem conhecer um pouco o modo de viver e receber dessa tradicional família carioca.

Luxo que acolhe

Construída na década de 1970 por Sérgio Alberto Monteiro de Carvalho, filho de Joaquim, a residência ocupa um ponto privilegiado do terreno. As janelas frontais e o terraço com piscina têm uma das vistas mais espetaculares do Rio: toda a baía de Guanabara. Com direito ao Pão de Açúcar, claro.

É mesmo de tirar o fôlego – mesmo para uma cidade como o Rio, pródiga em mirantes e paisagens deslumbrantes. E só ter a experiência de estar numa casa de onde se tem essa vista todo santo dia já valeria a visita. Mas ir ao Vila Santa Teresa é mergulhar num Rio silencioso e exclusivo, com experiências cuidadosamente preparadas por Eva Monteiro de Carvalho, que administra o hotel.

Foi ela que, em 2010, conversando com um hoteleiro francês, teve a ideia de receber hóspedes na casa onde cresceu com os irmãos Astrid, Letícia e Joaquim. Embora o local estivesse vazio há algum tempo e tenha passado por várias reformas, a sensação é de que nunca deixou de ser um lar.

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A biblioteca repleta de livros, muitos raros, e aconchegantes móveis em couro. A sala com poltronas confortáveis e uma bandeja estratégica com bebidas. A sala de jantar, hoje restaurante, com talheres e louças da família. Os itens são cuidadosamente escolhidos, mas não gritam grifes. E esse é o tom do lugar.

“É o conceito do pós-luxo. A sensação importa mais do que a grife”, explica Eva. “É aproveitar o prazer do momento, da descoberta, da autenticidade para criar memórias marcantes”.

A proposta é que os hóspedes de cada uma das sete suítes, cada uma com decoração própria, sejam tratados pelo nome e sintam-se à vontade para circular descalços pela casa e pelo extenso gramado do entorno. Que aproveitem a experiência de tomar um café na horta, com itens cultivados ali mesmo, ou então um piquenique de fim de tarde preparado com os itens de sua preferência.

Chama a atenção um detalhe no tratamento dos hóspedes. Ao chegar, eles recebem um token, espécie de chaveiro onde podem acionar o atendimento do hotel. Foi a maneira encontrada por Eva para garantir atenção e, ao mesmo tempo, manter a privacidade das pessoas.

Descoberta carioca

De 2017, quando começou a funcionar, até agora, a maior parte dos hóspedes do Vila Santa Teresa era estrangeira. Mas o cenário mudou com o início da pandemia. Seja porque ficou complicado vir ao país, novo epicentro de casos de coronavírus. Seja porque, presos em apartamentos por meses, os brasileiros começaram a redescobrir as próprias cidades.

Além das diárias – que custam R$ 2 mil –, há outras maneiras de experienciar o lugar. O day use custa R$ 850 para duas pessoas (mais 10% de serviço e 5% de ISS) e inclui recepção com uma taça de espumante e almoço. Os visitantes têm acesso à piscina e ao jardim.

Outra opção (que não permite aproveitar a piscina, porém) é a reserva para almoço ou jantar (este apenas quando o decreto municipal de combate à pandemia permitir). O menu, com entrada, prato principal e sobremesa, sai por R$ 180 por pessoa – um preço honesto para a qualidade do que é servido. São poucas e boas sugestões para cada curso. A comida, embora saborosa, é coadjuvante. Ir ao Vila Santa Teresa não é ir a um restaurante. É todo um programa.

O brunch aos domingos já é tradicional e pode ser degustado numa mesa do terraço. Para não perder a vista de tirar o fôlego. Mas não vejo a hora de poderem ser retomados os jantares da Lua cheia. As imagens dão uma ideia de quão especial é o lugar para apreciar esse fenômeno natural. A Lua, de cera forma, é como o Vila Santa Teresa. Convida a viver o momento, que é mais bonito que todas as fotos que possamos tirar até com o melhor celular.

Serviço

Diária: a partir de R$ 2 mil; reservas aqui
Day use: R$ 850 + 10% de serviço + 5% de ISS para duas pessoas (com taça de espumante e almoço em três cursos)
Almoço ou jantar (quando for permitido): R$ 180 por pessoa (com entrada, prato principal e sobremesa)
Brunch: R$ 160 por pessoa
Aviso: são permitidos hóspedes com mais de 18 anos

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