Sonha empreender em Portugal? Esta entrevista é para você!

As lições, dicas, tombos e acertos de Adriana Bechara, um dos grandes nomes do jornalismo de moda brasileiro, em sua encarnação como empresária em Lisboa

Adriana Bechara na porta da seu Wel Well no Príncipe Real, agora como mercearia gourmet: a reinvenção da reinvenção

Adriana Bechara na porta da seu Wel Well no Príncipe Real, agora como mercearia gourmet: a reinvenção da reinvenção (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

Sexta-feira, 15 de janeiro de 2021. O dia amanheceu ensolarado e, às 10h da manhã, a brasileira Adriana Bechara abriu pela primeira vez as portas do seu Wel Well Center ao público no Príncipe Real, em Lisboa. Estaria tudo conforme o previsto não fosse um detalhe: era o primeiro dia do segundo confinamento em Portugal. O dia escolhido para o país voltar a se trancar em casa novamente em consequência de um aumento desenfreado e inesperado dos números da pandemia. A jornalista, um dos grandes nomes da moda no Brasil, com passagens por revistas como Vogue e Glamour, não se abalou com os planos. Por dois motivos: um, seu estabelecimento fazia parte da lista dos essenciais estabelecida pelo governo, e portanto com funcionamento permitido; dois, ela já havia enfrentando o primeiro confinamento, num momento bastante diferente do seu empreendedorismo. “Estava previsto abrirmos no dia 15 de janeiro anyway – calhou de ser no primeiro dia do lockdown”, diz ela. “Eu quero acreditar que isso foi uma grande oportunidade, que a gente teve uma sincronicidade do universo e que foi um sinal!”

A seguir, ela conta a sua trajetória como empresária do lado de cá do Atlântico – desde as razões que a fizeram escolher Portugal até os maiores desafios e aprendizados.

Por que Portugal?
A gente (Adriana, o marido Fernando e a filha Rosa, hoje com 6 anos) fez uma volta ao mundo e na verdade eu acho que a gente estava intuitivamente buscando um lugar para morar que não fosse o Brasil. Não sei se escolhemos Portugal por ter sido o último país por onde a gente passou (foram dez ao todo), pelo acolhimento da língua e por aquela sensação de ter chegado em casa mesmo estando na Europa…  A moda já tinha perdido para mim um pouco do significado que tinha quando eu comecei, quando tinha uma vertente muito cultural, muito social, de expressão individual. E eu vi despertar em mim uma vontade de empreender em uma outra área num lugar mais harmônico economicamente e socialmente do que o Brasil.

Você já mudou para cá com o objetivo de empreender?
Eu fui inspirada por portugueses que foram muito definitivos nesta decisão, caso do Nuno Carreiro, da revista Frontline, jornalista, que fez um tour com a gente pelos melhores restaurantes e hotéis de Cascais e Lisboa, e da Rita Andrade Soares, que é uma mulher da minha idade com uma história linda na Malhadinha Nova, no Alentejo. Eu sempre acalentei um pouco a vontade de fazer alguma coisa diferente da carreira de jornalismo e achei que era a hora de tomar esta coragem. Vim primeiro com a ideia de que faria uma coisa simples, para ter uma vida mais tranquila – aquele velho primeiro texto de quem resolve empreender (e que é exatamente o contrário, pois a vida não é simples e nada é fácil!). Logo percebi que eu não ia fazer mais uma guesthouse ou um Airbnb. Eu tinha uma bagagem, um background para coisas mais ousadas e mais alinhadas com o momento atual. Eu ia abrir um welcome and wellness center, que seria um espaço para acolher o viajante antes do check-in e depois do check-out. Mas aí veio a pandemia e devastou o mercado do turismo e das viagens intercontinentais, que eram o combustível para o meu negócio acontecer.  

Como a pandemia afetou seus planos?
Inicialmente o Wel Well seria um mix de café, concierge e spa. Um espaço para a pessoa deixar a mala, tomar um banho, descansar, fazer uma massagem e tomar um café antes de fazer o check-in ou depois de ter feito o check-out. Com a pandemia, me disseram para parar tudo. Só que eu já tinha alugado o imóvel, já tinha colocado uma boa parte do meu investimento na obra e não estava conseguindo me desapegar. Foi muito duro para mim, eu não estava conseguindo aceitar isso. E também já tinha os meus investimentos comprometidos. Durante o verão, fiquei na busca de investidores, fazendo contatos, fazendo bootcamps de startups do Turismo de Portugal… Fui muito bem avaliada, mas os investidores entenderam que um negócio desses naquele momento, do jeito que ele era, era muito arriscado. Mas um deles me colocou em contato com um empresário que me fez enxergar oportunidades (o Mauro Passini, o dono da Quinta do Saloio, um mix de mercearia gourmet, delicatessen e mercado no Estoril). Eu fiquei então pensando que uma mercearia gourmet não afetava os propósitos iniciais do Wel Well –  pelo contrário, ela vinha somar, como um espaço plural de serviços e produtos. Foi então que me caiu a ficha. E aí entrei no modus operandi “é com o que temos que vamos”.  Eu tive que me readaptar e entender que a proposta oficial é atender o momento presente e não me agarrar a uma ideia fixa. Então a ideia da mercearia gourmet que o Wel Well é hoje vem justamente para se adequar ao momento presente. A obra que era para ser finalizada de um jeito foi finalizada de outro, o arquiteto foi muito parceiro, eu entrei no mood de fazer tudo mais barato, eu mesma fui comprar material pro pintor… e comecei um movimento de fazer acontecer que foi muito interessante.

Que lições e aprendizados você tirou disso?
Eu realmente me batizei e fui legitimada como empreendedora na hora em que eu me vi nesta sinuca de bico: ter feito um plano, ter feito cálculo, ter feito consultoria financeira para não correr risco, ter feito business plan, enfim, ter feito tudo direitinho e ver que nada disso prestou porque o cenário mudou, as previsões mudaram e eu não tinha plano B. Aí eu resolvi fazer do jeito que dava. E o jeito que dava era negociando cada centavo. Eu criei um grupo durante o primeiro confinamento com mulheres brasileiras que já tiveram sucesso em algum momento das nossas vidas e estão aqui tentando encontrar o caminho em Portugal para tentar entender o novo cenário, como fazer, como nos ajudar. Pessoas que já fizeram história, como eu com o jornalismo, e que aqui estão apanhando para se encaixar num novo cenário. Ganhar dinheiro aqui não é fácil! E brotaram parcerias. Não tenho funcionários, sou só eu aqui. Não contratei ninguém, não tô pagando salário… Ao mesmo tempo estou tendo uma ajuda e uma parceria que eu jamais teria de alguém contratado. Foi uma bênção para mim. O grande aprendizado do momento foi me reinventar no meio de uma reinvenção. Um outro aprendizado, que já estava no propósito do Wel Well desde o início, é o da coletividade. O espírito coletivo tem muito mais valia hoje do que a relação empregado-patrão. A última coisa que eu quero na minha vida é hierarquia, chefia… Eu já vivi muito bem estes modelos de negócios. Hoje este é um espaço em que as pessoas entram para se melhorar – seja para comprar uma coisa e levar para comer em casa, seja para trabalhar aqui e sair melhor do que entrou, seja para prestar um serviço que vai acrescentar de alguma forma, que vai acalentar ansiedades, desejos, projetos… E a coletividade também no sentido de irmandade, de se ajudar. De ver uma oportunidade onde não havia.

Quais são os maiores desafios de empreender em Portugal?
Eu não sei como é empreender no Brasil, mas eu posso dizer que tem muita burocracia. Eu sei que tem dinheiro entrando da União Europeia para apoiar empresários e eu não me encaixo em nenhum requisito. Não consegui nenhum apoio, nenhum financiamento em banco, nenhum incentivo do governo, nenhuma aposta de investidor… Parece que tem tudo, mas no final não tem. Me senti muito sozinha, com muito medo e angústia de fazer tudo por minha própria conta e risco. Mas isso antes de fazer, porque agora eu tenho certeza que estou fazendo a coisa certa!

Que dicas você daria para quem sonha abrir um negócio do lado de cá do Atlântico?
Eu acho que quando a gente vem do Brasil, a gente vem com um conceito de pujança econômica e de consumo muito diferentes da realidade daqui. As pessoas na Europa – e eu nem vou dizer só em Portugal – são muito conservadoras. A maioria vive numa contenção normal; tem uma vida boa, uma qualidade de vida boa, mas é conservadora na hora de gastar. Não é como o brasileiro que ganha um dinheiro, vai lá e arrebenta o cartão de crédito. Ou então arrebenta o cartão de crédito mesmo sem ganhar dinheiro! Isso não acontece aqui. As pessoas são muito conscientes do que elas precisam, de como elas gastam, do que vale a pena e do que não vale a pena para elas. No caso do Wel Well, eu estou dialogando com um público cosmopolita porque eu sei que o público português tradicional é conservador. Claro que existem pessoas que gostam de gastar, principalmente com comidinhas e agrados – as pessoas se permitem mais com isso do que gastar com roupa e coisas mais ostensivas, por exemplo. Inclusive quem tem dinheiro em Portugal não ostenta! Se você está vindo para cá, a minha dica é entender o mercado português, ver se é com ele que você quer falar, entender com quem você quer falar e ver se você consegue atingir este público de alguma forma. Outra coisa: a gente acha que vai chegar aqui e resolver tudo em 5 minutos como a gente resolve em São Paulo, só que não é assim! O que eu recomendo é vir para cá com um certo fôlego financeiro para analisar, observar primeiro e só depois começar a executar algum projeto.

Você avalia que Portugal é um bom país para empreender, de maneira geral?
Depende de quem, como, quando, onde, em que área. Mas talvez este seja o melhor momento para investir. Eu acho que daqui a pouco vamos ver uma demanda reprimida no segmento do turismo, por exemplo. Tem milhares de pontos para você comprar ou alugar pela cidade, que você jamais teria acesso noutro momento; tem empresários devastados que estão passando tudo por um preço que você jamais poderia imaginar. Mas ao mesmo tempo tem a incerteza deste mesmo momento. Então depende muito da visão do empreendedor e do fôlego financeiro. Mas eu acho que neste momento serão encontradas as melhores oportunidades. E aposto que serão mais dois ou três meses até o negócio voltar a florescer. Não vou dizer que ele vai voltar como era antes, porque não vai. Mas eu acho que vai começar a se levantar a partir de agora. Este longo e tenebroso inverno que a gente está vivendo é, para os mais antenados, o momento certo para investir. Mas é fundamental entender o momento atual e a necessidade das pessoas. O que rege o mercado é o público, não um desejo ou uma ideia de um empreendedor.

Você está realizada?
Estou, porque estou vendo que existe um caminho. Eu já tinha um ponto que era muito bonito, consegui fazer ele acontecer praticamente na unha e com a energia da Dinah e da Bia, minhas parceiras neste momento. Estou realizada porque estou vendo acontecer, estou vendo que tem potencial. Mas ao mesmo tempo eu tenho muitas angústias em relação ao futuro – em relação ao mercado, ao feat do que estou propondo para o público local, à dúvida de quando o público internacional vai vir com mais coragem para Lisboa de novo… ainda mais agora que a gente entrou no lockdown.

Que avaliações você faz dos primeiros dias de funcionamento do Wel Well, em pleno confinamento?
A gente teve um feedback muito positivo de toda a vizinhança, porque aqui na região só havia as mercearias dos indianos e um mercado tradicional pequeno. Se você quiser comprar um caviar, uma pasta de amendoim com cacau, umas bolachas de gengibre da Suécia ou uma pasta italiana com trufa, onde você vai? Estamos aqui com a porta para a rua e um monte de produtos diferentes, muitas vezes com um preço realmente de boutique, mas muitas vezes também com um preço competitivo. Por exemplo: acabou de entrar um senhor que levou uma mozarela de búfala italiana maravilhosa por € 1,79. Eu tendo a acreditar que realmente é um bom negócio, tanto pra gente quanto para o público. Estou com muita fé de que vai rolar!

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