Depoimento: como é viajar de férias dentro da Europa agora

Formulário, aeroporto, voo, chegada, teste de covid. Passo a passo, um relato completo de uma brasileira que mora em Portugal e passa férias na Grécia

Mariana numa praia da Ilha de Milos: escapada de Lisboa

Mariana numa praia da Ilha de Milos: escapada de Lisboa (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

A paulistana Mariana Gentile mora em Lisboa há 4 anos e, com o desconfinamento e a reabertura das fronteiras internas da União Europeia, decidiu ir passar férias na Grécia com o marido, onde está neste exato momento, mergulhando nas águas azuis e transparentes da Ilha de Milos.

Mergulho no paraíso: “um outro mundo”

Mergulho no paraíso: “um outro mundo” (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

Para efeitos de contextualização: a Grécia é um dos países com menos casos de Covid-19 oficiais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até a data de hoje, 28 de julho, o país registrou um total de 4.227 casos e 202 mortes. Para se ter uma ideia, Portugal, que tem praticamente a mesma população da Grécia (pouco mais de 10 milhões), já registrou 50.410 casos e 1.722 mortes – e segue sendo um país de estatísticas consideradas sob controle.

Mariana e o marido Marcelo em Atenas: vida quase normal

Mariana e o marido Marcelo em Atenas: vida quase normal (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

Com as fronteiras abertas ao turismo desde o dia 1 de julho, a Grécia exige de todos os viajantes o preenchimento com antecedência de um formulário chamado Passenger Locator Form (PLD), com dados como origem do voo, duração da viagem, endereços no país etc. Ele serve para rastrear o turista em caso de necessidade. O PLD precisa ser preenchido até um dia antes da partida; depois de submetê-lo, o viajante recebe uma confirmação e um QR code que autoriza a viagem. Na chegada, uma triagem define quem pode entrar diretamente e quem precisa fazer o teste de Covid.

Um cantinho especial em Milos

Um cantinho especial em Milos (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

A seguir, Mariana nos conta em detalhes como tem sido a viagem e o dia a dia por lá, em plena pandemia:

Marcações no chão no aeroporto de Lisboa: distanciamento garantido

Marcações no chão no aeroporto de Lisboa: distanciamento garantido (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

O embarque no aeroporto de Lisboa

“O aeroporto está tentando deixar tudo o mais organizado possível. Há marcações de distanciamento quando você chega perto do check-in, na fila de segurança… Dos restaurantes da praça de alimentação, mais da metade estava fechada, só o McDonald’s e duas confeitarias estavam funcionando. A maioria das lojas estava aberta. No chão, vi muita marcação para fluxo de circulação das pessoas, com mãos de direção (sempre pela direita, para tentar evitar que as pessoas se encontrem de frente). E tinham anúncios constantes de que é preciso usar máscara e respeitar o distanciamento social, além de álcool gel por todo canto.”

A praça de alimentação no aeroporto de Lisboa: quase tudo fechado

A praça de alimentação no aeroporto de Lisboa: quase tudo fechado (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

“Eu sempre falo que eu não sei porque, mas viagens, aeroportos e aviões despertam o pior das pessoas, elas parecem estar sempre ansiosas e acabam não respeitando várias regras. Eu achei que neste momento do coronavírus elas fossem estar mais conscientes, mais pacientes, mas a gente continuou a ver pessoas sem-noção querendo furar fila de check-in, ansiosas… onde não tem marcação, é fato: elas tendem a não respeitar a distância de segurança. O embarque foi feito bem devagar, para dar tempo das pessoas sentarem sem filas de espera no finger ou no corredor do avião. Na dúvida, optei por embarcar por último!”

Mariana e Marcelo no voo: completamente lotado

Mariana e Marcelo no voo: completamente lotado (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

O voo da Aegean Airlines de Lisboa a Atenas

“Nosso voo estava lotado. Parece que não há nenhum tipo de obrigação ou regra para as aéreas deixarem assentos livre. Como há poucos voos, eles estão saindo completamente cheios. É obrigatório usar máscaras – inclusive, assim que acaba de passar o vídeo de segurança, eles contextualizam com uma informação extra: se houver despressurização e as máscaras de oxigênio caírem, é preciso antes tirar a máscara pessoal para então colocar a de oxigênio. No serviço de bordo, foi entregue uma sacolinha de papel com um sanduíche, uma barrinha de cereal e uma garrafinha de água logo no início do voo. A grande maioria das pessoas respeitou a obrigatoriedade da máscara durante todo o voo, mas sempre tem aquelas que tentam burlar e colocam a máscara no queixo quando vão dormir, e tal. As aeromoças têm que ficar passando e falando o tempo todo. Mais uma vez: tem gente que não está muito preocupada, principalmente os mais jovens.”

Mariana na esteira de bagagem em Atenas: marcações de segurança no chão

Mariana na esteira de bagagem em Atenas: marcações de segurança no chão (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

A chegada no aeroporto de Atenas

“O avião desligou os motores e “naturalmente” as pessoas começaram a levantar, mas os comissários pediram que todos se sentassem para fazer o desembarque por fileiras. Mesmo assim, teve quem se fingisse de desentendido, pegando a mala e indo para o corredor, obrigando as aeromoças a pedir que voltassem aos assentos. O desembarque foi por ônibus e eles colocaram pouquíssima gente em cada um. Na entrada, eles estão fazendo testes aleatórios de coronavírus – como leva 48h para sair o resultado, você segue a sua viagem normalmente e, se for preciso, a pessoa é encontrada através do formulário PLD.”

“Fiquei surpreendida com a grande quantidade de pessoas que foram testadas no nosso voo – mas não foi o nosso caso, fomos direto para as malas. Nas esteiras de bagagem estava marcado no chão onde cada um deveria ficar para respeitar o distanciamento social. Mas, de novo, o ser humano… as pessoas viam suas malas e saíam avançando na nossa direção. De maneira geral, elas ainda estão condicionadas a essa pressa de pegar as coisas e sair correndo. Resultado: viajar nesta época demanda um pouco mais de paciência, você vai passar um pouquinho mais de nervoso com quem acaba não respeitando as regras.”

As ruas da cidade: cheias, mas não superlotadas

As ruas da cidade: cheias, mas não superlotadas (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

Vida de turista em Atenas

“Chegando aqui na Grécia, surpresa! Estamos num mundo paralelo! A sensação é de que não tem muitas regras. Conversando com um taxista, ele disse que as regras existem, sim, mas na prática a gente não vê. Passeando por Plaka, bairro muito turístico aos pés da Acrópole, não vimos quase ninguém de máscara. Ficamos até desconfortáveis de entrar nos lugares sem máscara por estarmos condicionados a usá-las a todo momento! Sentamos para comer num restaurante e preferimos ficar ao ar livre… porque é isso, parece que a gente entrou num novo mundo!

Mariana e Marcelo no show: máscara, só até chegar no lugar marcado

Mariana e Marcelo no show: máscara, só até chegar no lugar marcado (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

No hotel, a gente chegou e foi informado de que era recomendado usar máscaras, mas não era obrigatório. Os funcionários usavam uma espécie de proteção diferente (de acrílico, presa no queixo, cobrindo até o nariz), mas em geral ninguém usa. A piscina interior e a sauna estavam fechadas, mas a exterior, a academia e o spa estavam funcionando. A limpeza do quarto era opcional e não tinha nada no minibar, para as pessoas não ficarem tocando nas coisas. Nas ruas, a gente entrava nos táxis e os motoristas estavam sem máscara e só colocavam quando viam que a gente estava usando. Uma vez entramos numa loja (de máscara, claro) e a dona soltou: ‘ai, vou ter que colocar a máscara também, este troço me sufoca!’

A sensação foi de que a cidade estava bem cheia, mas não lotada. As pessoas comentavam, nas ruazinhas perto da Acrópole, por exemplo, que estavam achando uma delícia a cidade vazia daquela maneira. Fomos num show num teatro ao ar livre do lado da Acrópole e foi engraçado porque até chegar no nosso lugar a gente tinha que estar de máscara; depois podíamos tirar. Mas a capacidade estava reduzida, com distanciamento entre os lugares. Regra geral, reparamos que está tudo aberto no país, inclusive as baladas. Parece uma realidade paralela!”

Mariana no mar em Milos: imensidão azul

Mariana no mar em Milos: imensidão azul (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

Vida de turista nas praias

“Embarcamos em Atenas para Milos em um avião menor. Foi todo mundo de ônibus e eles estavam vazios. Na hora de subir no avião, as aeromoças pediam para as pessoas esperarem embaixo da escada para dar tempo dos passageiros da frente sentarem, mantendo o distanciamento. Milos é uma ilha pequena, mais fora do circuito e, conversando com as pessoas locais, elas disseram que não teve um único caso por aqui. Perguntando se eles não tinham medo, com a chegada dos turistas, elas foram unânimes em dizer que é preciso ter um equilíbrio, pois elas só trabalham seis meses por ano e precisam dos turistas.

Casinhas azuis e brancas e água transparente: postais da Grécia

Casinhas azuis e brancas e água transparente: postais da Grécia (Arquivo Pessoal/Arquivo pessoal)

No hotel em que estamos agora as pessoas usam máscara. O que mais tem atrapalhado é o café da manhã porque não pode ter esquema de buffet para você se servir em nenhum lugar, então é preciso esperar numa fila grande até alguém te servir. Mas faz parte. Nem falaram nada sobre a arrumação dos quartos – simplesmente estão fazendo todos os dias, não foi uma opção. E tem álcool gel à disposição. Fizemos um passeio de barco e não era necessário usar máscara. Todo mundo diz que o turismo está bem sossegado este ano comparando com anos anteriores – a empresa de passeios de barco, por exemplo, está operando com a metade da frota; e os restaurantes, que os guias de viagem dizem ser lotados e recomendarem reservas, estão normais. O clima está tranquilo – até demais, às vezes…”

Por fim, Mariana alerta. Ou: moral da história

“Viajar neste período é um risco – um risco que a gente tem que assumir e que todo mundo tem que saber. É um risco financeiro, dependendo da política de cancelamento dos hotéis (a maioria pede 50% de pagamento até uma semana antes da viagem) e das aéreas também (a maioria oferece remarcação gratuita pelo menos uma vez). É um risco não conseguir voltar quando você quiser (quem teve contato com casos confirmados no mesmo voo, por exemplo, identificados nos testes da chegada, pode ter que cumprir uma quarentena de 14 dias lá). E é um risco de saúde, pois há pessoas assintomáticas e você acaba se expondo mais. Não existe viajar sem risco agora. A viagem já começa muito diferente das outras, pois tanto os países quanto as empresas estão tentando se proteger.”

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