Como sobreviver a um voo de 24 horas

Crônica (e dicas) de uma viagem ao outro lado do mundo

A gente nasce sabendo que a Austrália é longe. Mas é voando até lá que a distância fica tão palpável quanto os tornozelos inchados de quem habita a classe econômica. Para preencher o tempo neste voo interminável (7h Barcelona-Abu Dhabi + 3h conexão + 14h Abu Dhabi-Sydney = 24h ), fiz um diário de bordo com dicas que podem ser úteis para voar longe, muito longe:

24 horas antes…

Garantir um lugar decente (ou seja, janela ou corredor, longe do banheiro, sempre dando aquela espiada no SeatGuru para escapar de pegadinhas) é questão de sobrevivência – temo que literalmente – em um voo que dura uma vida. Portanto, fazer check-in on-line o quanto antes possível é a dica mais óbvia neste sentido. Como sempre, coloquei alarme no celular para entrar no sistema 24 horas antes do voo, quando começa a ser possível reservar assento grátis na Etihad, companhia com a qual voei. O que restava era pura xepa: meu marido e eu garimpamos as últimas janelas e corredores disponíveis, separados.

O que aprendemos? Recentemente, a Etihad começou a cobrar pela reserva dos assentos antes das 24h clássicas. Dá raiva pagar quase US$ 50 por trecho em um assento normal (ainda que escolhido a dedo). Mas, em um voo interminável, pode ser um bom investimento. Ainda mais tendo comprado o bilhete por uma tarifa tão atrativa (€1064 de Barcelona a Sydney).

DIA 1

8h (horário de Barcelona)

Não conseguimos concluir o check-in on-line – culpa do sistema, sempre ele – e precisamos encarar a longa fila do lentíssimo atendimento no aeroporto para pegar os cartões de embarque. Esperava mais da Etihad, considerada 5 estrelas pelo Skytrax e posicionada em 15o no World Airline Awards. Mas acabei de acordar, estou indo para a Austrália e a vida é bela.

O que aprendemos? Bons tempos aqueles em que as companhias do golfo (Emirates, Etihad e Qatar) funcionavam como uma vitrine do ego de seus respectivos emires, ao invés de empresas em busca do lucro. Esbanjando conforto, elas faturaram diversos prêmios e conseguiram atrair milhões de passageiros para os aeroportos de Dubai, Abu Dhabi e Doha. Mas, nos últimos anos, caíram na real e tiveram que cortar gastos. Se nota. Principalmente na Etihad.

10h10

O arsenal de lazer em um voo longuíssimo precisa ser potente. Ao constatar que a seleção de filmes da Etihad era fraquíssima (a menos que você curta cinema árabe e Bollywood), valorizei cada minuto que investi baixando séries do Netflix no Ipad – caso você ainda não saiba, é possível ver grande parte do acervo off-line em tablets e celulares. Mas, ao tentar abrir o aplicativo… PÂNICO. Mesmo com o conteúdo descarregado, não dava para acessar a minha conta sem conexão. Com a rapidez de um ninja, já com o avião taxiando, acionei o 3G do celular e consegui entrar. UFA.

O que aprendemos? Para não precisar usar o wi-fi do avião (desde US$ 4,95 por míseros 30MB), deixe o aplicativo Netflix já aberto no seu dispositivo móvel para acessar o conteúdo off-line.

14h

Minha série está tão boa que nem invejo os 80% dos seres humanos ao meu redor, capazes de dormir em um voo diurno em plena classe econômica. Onde vivem? Como se reproduzem? Do que se alimentam? Quatro horas de voo já se foram. Tudo lindo, com exceção da minha barriga, que ficou estufada e dura depois da primeira refeição no avião. E ainda tenho 20 horas pela frente.

O que aprendemos? A massa é sempre a opção mais segura. Mas não estava mais disponível quando chegou a minha vez.

17h

Sério que o desembarque no aeroporto de Abu Dhabi vai ser na base do busão? Em construção atualmente, o novo terminal deste Emirado será um dos maiores do mundo (como tudo no país da megalomania) e dobrará a capacidade do aeroporto. Mas, enquanto isso não acontece, tive a sensação de que quase todos os 26 milhões de passageiros (incluindo metade da torcida do River) que circulam por este hub do Oriente Médio atualmente estavam lá no mesmo dia que eu, espremidos em corredores estreitos com teto baixo, entre Toblerones gigantes e bolsas Louis Vuitton.

O que aprendemos? Etihad não é Emirates e Abu Dhabi não é Dubai. Ainda.

20h

O embarque de um A380, o maior avião comercial do mundo, é sempre um desafio logístico. Mas tudo aconteceu rapidíssimo, a despeito da revista das malas na beira do finger (tem coisas que só a Austrália, Israel e os Estados Unidos podem fazer por você). Uma vez dentro, nossa senhora do upgrade ouviu as minhas preces! E não é que aqueles assentos que a Etihad me selecionou ao acaso, e que não consegui mudar, eram na Economy Space?

O que aprendemos? Em dezembro de 2018, a Etihad acabou de reestruturar 10 de seus A380 para aumentar a quantidade de poltronas Economy Space de 20 para 80 por aeronave. Quem ocupa esses assentos não tem os mimos de uma Economy Premium, mas conta com 13 centímetros a mais para esticar as pernas. O preço dessa dádiva é cerca de US$ 150. Ou seja, US$ 11,5 por centímetro.

21h

Máscara de dormir, escova de dente ou qualquer tipo de nécessaire são coisas do passado na Etihad, mesmo no seu avião flagship, o A380, em um voo de 14 horas. Mais um sinal dos tempos.

O que aprendemos? Levar uma nécessaire com os itens básicos em qualquer voo é sempre uma boa. Além de escova de dentes, pasta e máscara de dormir, também vale ter toalhinhas refrescantes, hidratante, protetor labial, colírio (que esqueci desta vez!) e alguns remédios básicos (para dor de cabeça, enjoo etc). Tudo o que parece frescura em um voo curto se torna essencial em um voo longo.

DIA 2

2h

Não acredito que ainda faltam 8 horas de voo. Bateu o primeiro desespero. Estou sentada na janela e a menina do meu lado capotou umas três horas atrás. Não tenho coragem de acordá-la para levantar. Talvez a minha perna apodreça. Ou o meu rim. Oremos.

O que aprendemos? Assentos na janela para voos de 14 horas são para tutankamóns aéreos, o tipo que apaga e só sai do sarcófago depois da aterrissagem. E nem a Economy Space ajuda numa hora dessas.

Dia 2, 5h

Considerando que Abu Dhabi é mais um hub do que um destino em si, diria que 90% das pessoas ao meu redor estão voando há tanto tempo quanto eu – ou mais. Faltam 5 horas de viagem e uma atmosfera de bafo paira sobre nós. O ar está viscoso. A menina do meu lado cai em cima de mim a cada três minutos como um boneco de pano. Tenho minhas dúvidas se ela ainda está respirando. Nada mais é capaz de prender a minha atenção.

O que aprendemos? Talvez a minha relutância em tomar remédios para dormir precise ser revista.

Dia 2, 7h

Faltam três horas para chegar a Sydney e meu corpo está tão rígido quanto a carcaça de um caranguejo. Minha pele parece uma película gelatinosa. Entrei no avião com 42 anos mas vou sair com 58. Toda a areia de Abu Dhabi parece estar dentro dos meus olhos, cercados de rugas e calombos inchados. Que falta está me fazendo aquele maldito colírio. Desculpa fofa, mas agora eu preciso ir ao banheiro. Como uma ginasta, dei uma pirueta por cima dela e cheguei no corredor pisando nos encostos de braço.

Dia 2, 10h

Chegamos. Chove torrencialmente. A fila para a imigração é surreal porque há dois agentes para todos os passageiros estrangeiros do A380. Passei. Vem o aviso: as malas vão demorar devido ao clima indócil em Sydney. Uma hora na frente da esteira vazia até a bagagem chegar. E ainda falta a fila da alfândega porque preciso declarar que trouxe tâmaras de Abu Dhabi, uma vez que entrar com certos alimentos na Austrália pode render multas. Mas a vida é bela e eu finalmente estou do outro lado do mundo.

O que aprendemos? Existe um mecanismo que faz com que automaticamente esqueçamos o perrengue que vivemos nessas viagens longas quando chegamos ao destino. Só isso explica a nossa coragem de continuar atravessando oceanos. Acho que não vou reler este post antes da minha volta.

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