O elo perdido de Yosemite

No meio do caminho tinha uma pedra. Não uma, várias. E também uns riachos, umas cachoeiras, uns bosques, uns prados...

Por Fernando Souza Atualizado em 15 jul 2021, 14h57 - Publicado em 12 jul 2021, 18h23

A começar pela pronúncia (“Ioze-MÍ-te”? “Ioze-MÁI-te”?), o Parque Nacional de Yosemite era uma incógnita. Informações desencontradas, orientações para ficar dias, trilhas sabe-se lá a dificuldade. Por que não ir de Napa Valley a Los Angeles pela Highway 1, ladeando os penhascos à beira-mar da Big Sur, com opções de pernoite em cidades de verdade? Mas a “questão Yosemite” exigia respostas, e o desvio de 302 quilômetros a leste, de Napa ao coração do parque, me daria todas elas. “Io-SSÊ-m’ri”, assim que se pronuncia, é um escândalo de rochas descomunais como o Pão de Açúcar, margeadas por estradas em bom estado numa área irrigada por riachos à Visconde de Mauá, forrada de prados com pinheiros altíssimos e dotada de uma infraestrutura invejável. Para quem gosta de natureza, é um parque para pelo menos dois dias de trilhas. Yosemite, agora eu sei, é o elo que faltava para uma viagem perfeita entre San Francisco (ou Napa) e Los Angeles.

Eram três da tarde quando encostei na guarita da Arch Rock, na El Portal Road, a entrada mais a sudoeste e uma das cinco de Yosemite. A guarda-parque com chapéu me deu o mapa, e eu segui pelo asfalto de pista simples. Um riozinho quase seco passou a acompanhar a via, agora sombreada por um bosque de pinheiros que se perdiam na penumbra. De repente surge um descampado com amplas campinas. Abrindo a passagem, à frente, irrompem El Capitan, uma rocha com absurdos 900 metros de face vertical, à esquerda, e Catedral, uma copiosa cordilheira calcária, à direita. O acostamento generoso faz cada recém-chegado sair do carro e clicar a paisagem compulsivamente. Estou na parte baixa do parque, já em Yosemite Valley, e, conforme a estrada avança, multiplicam-se as tendas ao estilo glamping do Housekeeping Camp e as barracas de camping de Curry Village.

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Os bolsões de estacionamento, bem parecidos, são ótimos para você perder o carro. Já se passaram 18 quilômetros da entrada, e a via faz um looping para voltar, margeando o centro de visitantes, o museu (temporariamente fechado), um mercado com ATM e tudo, a ótima Degnan’s Deli e os hotéis Yosemite Lodge at the Falls, rústico e decente, e o aristocrático The Ahwahnee. Nas bordas do parque há ainda um hotel antes de Arch Rock, o Yosemite View Lodge e, ao sul, mas dentro da reserva, o histórico Wawona Hotel.

Para chegar às atrações da parte baixa, você deixa o carro no estacionamento e pega um ônibus circular até o início da trilha desejada. É possível também alugar bikes e cavalos, ficar caminhando entre os bosques ou escalar as gigantescas massas rochosas, como o El Capitan – se for um alpinista experiente. Para chegar à parte alta de Yosemite há um longo caminho de carro – de Arch Rock, são 105 quilômetros até a extremidade leste, onde está a entrada Tioga Pass. No trajeto, em Crane Flat, fica um dos dois postos de combustíveis (o outro se localiza em Wawona, ao sul). Apesar da infra toda, 95% da área é selvagem, e como são 3 027 quilômetros quadrados de reserva, o dobro da Chapada Diamantina, não rola muvuca nem nos trekkings mais óbvios.

Urso farejador

Das placas aos copos de refri, não faltam avisos da presença de ursos-negros em Yosemite, mas o mais provável é que você só encontre esquilos. Menos agressivo que o pardo, o urso-negro tem olfato sete vezes mais apurado que o de um cão farejador. Por isso, no Yosemite Lodge at the Falls, a recepção insiste em saber se há comida no carro dos hóspedes, mesmo que esteja dentro de uma mochila no porta-malas. Além de fariscadores, os ursos são espertos e fortes, capazes de estourar os vidros e entortar as portas do veículo. E, se você topasse com um deles, se fingiria de morto ou correria? Nada disso: bata palmas, grite, faça barulho – pareça mais ameaçador que o próprio bicho.

Petrificado

Eu dediquei meio dia à parte baixa e um dia à alta do parque, explorando as trilhas fáceis. Foi o suficiente para, além de ter um panorama, exercitar o corpo dentro dos limites do meu sedentarismo. Comecei pela trilha da Cachoeira Vernal, perto de Curry Village, mas precisei interrompê-la na metade, porque escurecia. O visual: de um lado, a queda-d’água lambendo o paredão; do outro, um profundo vale com escarpas em semicírculo e a base inundada de pinheiros. No dia seguinte, parti para uma trilha vizinha à Vernal, a de Mirror Lake, que em meia hora culmina numa imensa clareira cercada de montanhas e coníferas, cenário todo refletido num espelho-d’água. A imagem é quase brega de tão perfeita, como aquelas paisagens de quebra-cabeça.

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Ao sair da El Portal Road e entrar na Big Oak Flat Road, a caminho da parte alta do parque, a estrada fica espremida entre a encosta e os penhascos bestiais. Entrei à direita na Tioga Road, a artéria da parte alta (fechada no inverno), até a trilha de May Lake. Os caminhos de Yosemite, quando não sinalizados, são intuitivos, e em 25 minutos cheguei ao lago, cercado de pinheiros e montanhas calcárias, como sempre, mas também de um punhado de campistas. De volta à estrada, avistei o Tenaya Lake, o maior lago do parque e parada usada tanto como praia lacustre quanto como área de piquenique. Fiz um pit stop sem pressa para o lanche, comprado antes na déli de Yosemite Valley, embora ali perto houvesse um restaurante e uma conveniência, abertos só no verão. A seguir, a estrada conduz a uma enorme pradaria, Tuolumne Meadows, cingida, ao fundo, por rochas imensas e uma floresta de clima subalpino, já que a altitude ali passa dos 2 600 metros. Ao lado da pista, Pothole Dome, uma gigantesca pedra solitária em forma de domo convexo, convida a ser escalada na perna, em dez minutos, para escancarar uma panorâmica do relvado e de seu entorno. Pela mesma Tioga Road segui até Tioga Pass, de onde sai a trilha íngreme para Gaylor Lakes. O percurso me levou a uma várzea com um lago bem negro, mas não tão belo quanto os outros cenários que eu havia visto. Com mais tempo, eu a trocaria pela trilha de seis quilômetros para Cathedral Lakes, que sai de Tuolumne Meadows.

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Tênis e roupas confortáveis, protetor solar e labial, boné, óculos de sol e água são tudo de que você precisa nesse circuito de Yosemite. Para conhecê-lo, espere dirigir por mais de 200 quilômetros, mas tudo é recompensador. Sem precisar caminhar, é possível encostar em mirantes obscenos, como o Tunnel View, na Wawona Road, de onde se avista a pedra Half Dome. Essa estrada sai de Yosemite Valley para o sul, já na direção de Los Aangeles. Muito antes disso, você saberá que fez o melhor caminho.

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