Utopia americana: o legado das missões dos jesuítas

Na região de fronteira do Brasil, argentina e Paraguai, as missões são o legado de pedra da sociedade avançada dos jesuítas

Nos idos de 1600, um enorme território que se estendia a noroeste dos pampas, hoje distribuído entre o Brasil, a Argentina, o Paraguai e a Bolívia, era uma verdadeira pátria guarani – para os europeus, a última fronteira da catequização indígena no Cone Sul. Localizada na parte espanhola do Tratado de Tordesilhas, a região recebeu a primeira missão evangelizadora da Companhia de Jesus (a mesma ordem do papa Francisco) em 1609, depois replicada em dezenas de reduções, como eram chamadas as missões. Em que pesem os interesses dos colonizadores – facilitar a navegação do Prata e disseminar o catolicismo e o poder das metrópoles –, seus métodos eram humanitários. Com o uso de mão de obra indígena, a arquitetura colonial materializou aldeias autossustentáveis nas quais os nativos cultivavam alimentos, criavam gado, produziam arte sacra e tinham acesso à religião, à educação e ao comércio. Bônus: estavam livres da escravidão bandeirante. O fato de terem aprendido os idiomas indígenas e codificado seus vocabulários e gramáticas também mostram quão ilustrados eram os jesuítas.

A QUEDA

Dotadas de uma eficiente estrutura econômica, as missões começaram a incomodar a Coroa espanhola, que nelas enxergava uma tentativa de criação de império independente. Em 1750, com a assinatura do Tratado de Madri, os chamados Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul, passaram às mãos portuguesas, que, em troca, cederam aos espanhóis a uruguaia Colônia del Sacramento. No Brasil, os lusitanos se apoderaram da terra e, para expulsar os missioneiros, derramaram muito sangue durante a Guerra Guaranítica, de 1753 a 1756. Vítima de campanha difamatória na Europa, a Companhia de Jesus, criada em 1534 por Santo Ignácio de Loyola e reconhecida pelo alto nível intelectual de seus membros, foi banida da América em 1767. O “mais revolucionário estado teocrático dos tempos modernos” vivia seus últimos dias.

PATRIMÔNIO MUNDIAL

Hoje, nove antigas reduções da América do Sul são listadas como Patrimônio da Unesco, uma delas no Brasil, outra na Bolívia, cinco na Argentina e duas no Paraguai. A 485 quilômetros de Porto Alegre, a pacata São Miguel das Missões abriga um dos maiores sítios sul-americanos, as ruínas de São Miguel Arcanjo, de 1687. No gramado do grande descampado, a fachada da igreja permanece intacta, assim como a torre do sino e algumas paredes da nave. O silêncio convida à introspecção, fazendo o visitante refletir sobre como um ideal de sociedade foi erguido e destruído sob o julgo do colonizador. À noite, o Espetáculo de Som e Luz colore as ruínas de São Miguel enquanto a voz de Lima Duarte e de Fernanda Montenegro narra a ascensão e a queda do aldeamento. “Com a escolha do primeiro papa jesuíta, a gente espera que as pessoas se interessem mais por esse período da história”, diz a guia turística Lúcia Engel.

TERRA DE FRANCISCO

Na Argentina de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, é a minúscula cidade de San Ignacio Miní, com menos de 10 mil habitantes, que guarda os maiores testemunhos da saga missioneira dos séculos 17 e 18. a 250 quilômetros de Foz do Iguaçu, a redução de 1611 mudou duas vezes de lugar para se estabelecer no sítio atual, em 1696. Ali também as paredes da antiga igreja continuam de pé, e o espetáculo Luz y Sonido inclui fontes de água no cenário das projeções.

As ruínas de San Ignacio Miní

As ruínas de San Ignacio Miní 

Natural de Buenos Aires, Bergoglio uniu-se à Companhia de Jesus em 1958 e foi diretor espiritual da ordem em Córdoba, a 700 quilômetros de Buenos Aires. Patrimônio da Unesco, a arquitetura jesuítica da cidade traduz a fusão das culturas europeia e indígena na fase seminal da América. Dono do Che Salguero Hostel, Santiago Bazán explica que a influência dos jesuítas ainda é muito presente – foram eles os fundadores da universidade de Córdoba, hoje espalhada pelo país.

Igreja de Alta Gracia, em Córdoba

Igreja de Alta Gracia, em Córdoba

Para chegar a São Miguel, há um voo de Porto Alegre para Santo Ângelo pela Brava Linhas Aéreas, a 60 quilômetros do destino final, e outro de São Paulo até Passo Fundo pela Avianca, a 250 quilômetros. Para ir a San Ignacio Miní, basta pegar a Ruta 12, que sai de Foz do Iguaçu, ou contratar um passeio na própria São Miguel.

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