Tupi or not tupi

Leia o relato de Eduardo Merli como hóspede do Botanique, um dos hotéis mais luxuosos do Brasil

Por Eduardo Merli Atualizado em 16 dez 2016, 08h05 - Publicado em 11 mar 2013, 17h18

Sentado em um maciço de ardósia, a mais de 60 graus de temperatura, aperto um interruptor e espero. Em instantes, uma chuva torrencial e morna cai sobre mim. Depois, o que cai é o silêncio. Havia 12 horas que eu estava no Botanique Hotel & Spa, em Campos do Jordão, e a água despencando sobre minha cabeça na sauna úmida do hotel – que tenta, como dizem ali, “simular um temporal no meio da Mata Atlântica” – foi a minha experiência mais barulhenta.

O silêncio é um bem precioso nesse lugar que se propõe a oferecer o que os hoteleiros chamam de pós-luxo: não basta ter caviar no menu ou o New York Times na porta do quarto; agora é preciso propiciar ao hóspede algum tipo de vivência emocional. Algo que pode vir de uma imersão na natureza, de uma refeição com produtos cultivados localmente, do silêncio tão raro de encontrar nas metrópoles e, no caso aqui, da descoberta de um país.

Apesar do nome, quase tudo é brasileiro no Botanique. Do mobiliário às obras de arte, da carta de vinhos às amenities, dos objetos de artesanato aos mais de 400 livros da biblioteca, da música de fundo às cervejas servidas no bar. A busca obsessiva da brasilidade foi feita por “curadores” comissionados exclusivamente para esse fim. Assim, em vez das tradicionais San Pellegrino e Perrier, o hóspede vai deparar com sete tipos de águas minerais brasileiras – indico a Lebrinha, da Chapada dos Guimarães; no lugar de azeites mediterrâneos, há um extravirgem produzido na mineira Maria da Fé; e, se é verdade que existe uma carta de vinhos de regiões produtoras tradicionais – Borgonha, Toscana, Douro –, os garçons sempre oferecem primeiro o garimpo nacional, do qual participam 15 rótulos, entre eles Bettú Malvasia di Candia 2011, de Garibaldi, e Luiz Argenta Syrah Jovem 2011, de Flores da Cunha, ambos gaúchos.

Ocupando uma área de 1,2 milhão de metros quadrados em meio à Mata Atlântica no Vale dos Mellos, o Botanique abriu suas portas no fim de 2012 com o título de hotel mais caro do Brasil: na época, as diárias se iniciavam com R$ 2773,90, somados às taxas e impostos e regime de pensão completa. Atualmente, as opções aumentaram para atender à demanda de hóspedes que procuram outras opções: com café da manhã incluso, os valores se iniciam a R$ 1776. Para reservas realizadas durante a semana, o spa oferece opções de planos detox, com cardápios enxutos, tratamentos faciais e banhos isotônicos – entre outras amenidades. O Botanique tem seis suítes (de 60 a 90 metros quadrados) e 11 villas (de 100 a 300 metros quadrados) que, distantes umas das outras, somem no meio da mata.

Na minha suíte destacava-se uma cama king-size coberta por um edredom de algodão branco ultramacio e uma banheira no meio do quarto com vista para o verde – a janela, com quase 10 metros de comprimento, se abria para uma varanda, de onde eu podia observar os pássaros com um binóculo. Deitado na cama, minha visão era para o telhado de madeira itaúba, todo encaixado como um jogo de montar. A madeira utilizada é de demolição, e boa parte da mobília foi desenhada para o hotel.

Sala do spa do hotel Botanique

Sala do spa do hotel Botanique – Foto: Leo Feltran

O restaurante Mina, de corte contemporâneo, comandado pelo jovem e apaixonado chef Gabriel Broide (ex-Dois Cozinha Contemporânea, de São Paulo), também deixa, como é de esperar, a brasilidade vir à tona. Mais do que isso, trabalha com produtos que saem da horta do próprio Botanique – cerca de 300 caixas plantadas com hortaliças e ervas dão as boas-vindas aos hóspedes no caminho que leva ao hotel. O que não vem de lá, Broide e sua equipe buscam em um raio de no máximo 100 quilômetros, com raras exceções, a exemplo do tucupi e dos peixes pintado e tambaqui. “Com o passar do tempo, a ideia é aumentar cada vez mais a relação com os pequenos produtores vizinhos”, disse o chef. Na minha estada, comi um bom ravióli de palmito pupunha recheado com cogumelos, acompanhado de uma redução de tucupi. E achei sensacional a releitura da rabada: quase sem gordura, servida com um nhoque suave de agrião feito com araruta. Há mais surpresas no Mina: as paredes de vidro enormes que deixam ver a mata impactante; o cardápio à La carte vem sem preços (para quem opta por todas as refeições inclusas na diária, mas quem não é hóspede também pode frequentar o local); por fim, a presença de um jovem time de garçons que evidencia o jeito de receber do hotel, pouco convencional e nada ostentatório.

É difícil não associar esse estilo de serviço ao idealizador do Botanique, o empresário Ricardo Semler. Principal acionista do grupo Semco, Semler é também autor de Virando a Própria Mesa, best-seller dos anos 1980 baseado na experiência que ele teve ao assumir a empresa do pai e multiplicar seu faturamento com métodos heterodoxos. A própria história do Botanique é pouco ortodoxa. No início, havia 16 sócios e uma proposta: fazer um hotel à Relais & Châteaux, em que hóspedes e sócios teriam afinidades comuns – charutos, por exemplo –, quase como uma confraria. Mas, em 2007, três anos após o início das obras, tudo parou. O empreendimento chegou a ser colocado à venda, e, ao final, Ricardo, Fernanda Semler, sua mulher, e investidores remanescentes assumiram o Botanique, agora com a “brasilidade” aflorada. “Concluímos que precisávamos exibir aqui no hotel o melhor Brasil, o Brasil que quer se mostrar ao mundo, o Brasil que precisa se mostrar ao mundo”, disse à VT Fernanda Semler, dias após minha estada.

Continua após a publicidade
O restaurante Mina, de inspiração caipira e corte contemporâneo

O restaurante Mina, de inspiração caipira e corte contemporâneo – Foto: Leo Feltrin

No Botanique não há uma recepção física, convencional. Quem nos recebe é uma espécie de faz-tudo, ou “âncora”, para usar o jargão local. O meu era o Rafael. Ele e os demais 49 funcionários do hotel buscam criar uma atmosfera de intimidade com o hóspede. Em vez de senhor Merli, eu fui chamado de Eduardo ou, no máximo, de senhor Eduardo. Logo eu já os tratava pelo nome. Além da informalidade, o Botanique preza a privacidade. É difícil ver muitos hóspedes mesmo nas áreas comuns. Contribui para isso o fato de crianças e adolescentes com menos de 16 anos não serem aceitos e alguns passeios e atrações serem exclusivos para desfrute a dois (como a flutuação em banheira com sal e os dois únicos cavalos da propriedade).

Mas nem tudo funcionou em minha estada. Como não fui avisado de que o spa fechava às 19 horas, peguei as salas de massagem e piscina do local ocupadas e só pude usá-las na manhã seguinte. Ao reservar uma sessão de cinema – a sala, muito confortável, fica em um prédio separado do hotel –, escolhi um dos horários disponíveis, mas sem sucesso: o casal que reservara a sessão anterior havia se atrasado e, para não criar atrasos em cascata, sugeriram-me que eu visse o filme no quarto.

Também tive problemas com a comunicação. Nos quartos da sede e das villas, o contato é feito por um desses sistemas touchscreen. Supostamente, bastaria deslizar o dedo na tela do smartphone, colocado na mesinha ao lado da cama, para chamar o âncora. Não consegui nem pelo smartphone nem pelo telefone normal, mudo durante toda a minha permanência. Resultado: precisei descer duas vezes ao bar para agendar massagens no spa. Outro serviço inusitado do Botanique é fazer com que o hóspede não coloque as mãos em suas próprias malas. Elas seriam retiradas em sua residência e, no check-out, levadas de volta, com as roupas lavadas e passadas. Pois o serviço nem sequer me foi oferecido – apenas a mala foi desfeita no quarto.

Apesar dos contratempos, são notáveis e bem-vindos seus acertos (brasilidade, privacidade, contato com a natureza, conforto). Ficar lá é uma experiência luxuosa no sentido de fazer o hóspede ter uma vivência nova, quem sabe um aprendizado, e ao mesmo tempo se desligar de sua rotina. Ajuda nisso a possibilidade de fazer ligações telefônicas, pegar itens do frigobar e usar a internet sem pagar nada por isso. Não fazer contas é, afinal, uma das propostas do “pós-luxo”. É muito melhor mesmo deixar para pensar depois nos estragos no cartão de crédito.

Leia mais:

Check-in ##– Veja outras reportagens da edição de MARÇO de 2013 da VT

Hospedagem ao estilo “casa na árvore” tem desde suítes luxuosas até opções quebra-galho

Sheraton de Salvador abre as portas só com a casca do antigo Hotel da Bahia

Continua após a publicidade
Publicidade