Que tal rodar a mítica Rota Romântica alemã de ônibus?

Entre castelos e vilarejos, vinhos e cervejas, salsichas e batatas, nosso repórter percorreu a mais apaixonante das rotas alemãs

Por Da Redação Atualizado em 1 nov 2017, 16h24 - Publicado em 14 nov 2012, 16h30

Arrasada pela Segunda Guerra, a Alemanha do final da década de 1940 agonizava.

Sem dinheiro para se reerguer, um conjunto de cidades da Baviera se uniu e criou algo que ficou tão famoso quanto a Oktoberfest: a Rota Romântica.

A ideia era cândida: atrair turistas, principalmente os soldados americanos ainda presentes no país.

Hoje a Rota recebe quase 2 milhões de visitantes por ano, que percorrem 380 quilômetros de estradas secundárias entre 28 cidades de sonho.

A maior parte dos visitantes faz a Rota de carro. E, como as estradas e os autos alemães são tudo aquilo que gostaríamos que fossem os do Brasil, considere você também essa opção. Para os menos sedentários, há uma bela ciclovia – mas, aí, com um bônus de 110 quilômetros.

  • Eu me decidi por uma terceira via, o Romantic Road Coach, um ônibus que dá reembarques livres em todas as paradas da Rota com um só bilhete. De Frankfurt a Füssen, rodei o percurso em cinco dias.

    E voltei feliz para o Japão, onde moro – aliás, na viagem descobri que Alemanha, Brasil e Japão têm cada um sua Rota Romântica (a brasileira, na Serra Gaúcha, de São Leopoldo a São Francisco de Paula). Na Rota alemã, muitos começam a viagem em Munique, visitam os castelos e seguem até Frankfurt.

    Eu fiz o inverso, deixando os Alpes para o fim – certamente o chantilly do Apfelstrudel.

    De Frankfurt a Würzburg – barroco alemão

    Frankfurt não faz parte da rota, mas é a principal porta de entrada alemã para os brasileiros. Importante centro empresarial, a cidade preserva sua história a despeito da face business.

    Com o dia livre, comprei um cartão de transporte integrado e um city tour em ônibus double deck, parando em lugares como a Casa Goethe, onde nasceu o poeta alemão, o Römerberg, bairro com a típica arquitetura germânica, e Schaumainkai, reduto de museus ao lado do Rio Main.

    No dia seguinte, acordei cedo para embarcar no ônibus em fente à estação central. O motorista me deu um mapa da Rota em japonês, que eu troquei por outro em inglês. Maioria entre os turistas, os japoneses chegam a reservar hotéis inteiros na região.

    Pouco mais de 1h30 depois chegávamos a Würzburg, já na Baviera. A primeira imagem da cidade fez um casal de idosos – japoneses – suspirar alto: “Como é romântica!” Até eu me enlevei, esquecendo que fazia a viagem so-zi-nho!

    Würzburg é um charme. Cercada por parreirais, a capital vinícola da Franconia produz bons vinhos brancos da uva silvaner, envasados nas Bocksbeutel (“saco de bode”, referência ao bojo redondo das garrafas). O Rio Main corta a cidade, e é às suas margens que estão os melhores bares e restaurantes para apreciar o far niente alemão.

    Dá para dizer que esta é uma Alemanha bachiana: há igrejas góticas e barrocas, a Fortaleza de Marienberg, o Palácio Residenz, obra-prima de Balthasar Neumann, o Beckenbauer do barroco germânico. Patrimônio Mundial, o palácio derrubou meu queixo logo no teto da escadaria, adornado com um monumental afesco de Tiepolo.

    Não parece, mas quase tudo o que se vê de antigo em Würzburg, inclusive o Residenz, é reconstrução do que sobrou da Segunda Guerra. Para ver quão bom ficou o trabalho, suba o morro ao lado do forte e visite a Käppele, pérola rococó de Neumann com rica decoração e uma vista poética do casario cingido pelo Main.

  • Rothenburg ob der Tauber – cidade de a(r)mar

    Próxima parada: Rothenburg ob der Tauber, eleita pelos passageiros do “coach” a cidade mais simpática, misteriosa e, sim, romântica da Rota Romântica. Uma verdadeira joia. Houve um pequeno prólogo, uma parada de meia hora na minúscula Weikersheim, onde as grandes atrações são seu castelo e o jardim à Versailles que o cerca.

    Então, atravessamos as muralhas de Rothenburg sob a sensação de adentrar um set de filmagens. Erguida há mais de mil anos, a cidadela preserva o clima medieval em suas torres, nos canteiros floridos e nas imponentes fontes, outrora essenciais para proteger a vila dos incêndios.

    Sabe aquelas pecinhas de madeira com as quais você brincava para criar vilarejos? Pois Rothenburg é uma cidadezinha de armar. Embaixo da torre do relógio há um portão arcado – parece que estamos juntando a peça da ponte vazada com a do tijolinho com relógio.

    Dois museus chamam atenção: o do Crime, que expõe objetos utilizados para castigar infatores no passado, e do Natal, com os primeiros cartões e enfeites natalinos, alguns do século 15. Mas é a loja do museu, recheada com tudo o que se imagina para decorar a casa, que causa furor. “Parece um sonho”, exultava a turista brasileira Maria Julia Fonseca.

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    Museu do Natal, em Rothernburg, na Alemanha
    No Museu do Natal, Papai Noel dá expediente 365 dias por ano Imagebroker RM

    Se um alemão em Rothenburg mandar você para o inferno (“Fahr zur Hölle!”), não tome como xingamento. O Zur Höll é uma taverna tradicional com boas pedidas de slow food (salsichas, costelinha, kebab) para acompanhar os vinhos locais.

    Na cidade, não deixe de saborear ainda o Schneeballe, bolota de massa fita coberta com chocolate, nozes ou açúcar.

  • Augsburg a Füssen – reino da fantasia

    Seguindo viagem, dei uma rápida parada em Dinkelsbühl e Nördlingen, duas cidadezinhas adoráveis. Se você quiser fazer um único trecho de bike em toda a Rota, escolha os 30 quilômetros que as separam, mais planos.

    Augsburg, fundada em 15 a.C. em tributo a Augusto, o primeiro imperador romano, é a maior cidade do percurso e deu à luz figuras como o violinista e compositor Leopold Mozart, pai do Mozart mais famoso, e o escritor Bertolt Brecht, cuja casa virou museu.

    Repleta de imigrantes italianos, Augsburg estimula os visitantes a deixar as batatas e as salsichas de lado e se deliciar com uma autêntica pasta.

    No trecho final da Rota, os Alpes surgem no horizonte e o cenário se transforma. Antes de chegar a Schwangau, o ônibus para na minúscula Steingaden, colocada no mapa graças à Igreja de Wieskirche, outra gema do rococó alemão. Havia tempos eu não entrava em tantas igrejas, não rezava nem agradecia tanto, deslumbrado com a paisagem.

    Minha última noite na Rota Romântica foi em um hotel próximo aos castelos de Hohenschwangau e Neuschwanstein, cartões-postais por excelência do itinerário. Naquela noite estrelada, fiquei horas apreciando o Hohenschwangau, todo iluminado. A meu lado, outros turistas não escondiam o encanto.

    “Mas que triste fazer essa viagem sozinho!”, lembrou-me uma japonesa acocorada nos braços do marido. Hipnotizado pelo cenário, eu havia me esquecido desse detalhe…

    No dia seguinte, fui direto buscar os meus ingressos para os castelos, já reservados pela internet. As entradas têm hora marcada; por isso, é bom ficar atento: da bilheteria até o Hohenschwangau são 20 minutos de caminhada ladeira acima.

    Para o Neuschwanstein, o tempo dobra, mas pelo menos ali dá para ir de charrete ou, ainda melhor, de ônibus, que deixa você na Ponte Marienbrüke, onde há uma vista espetacular para a construção. Última extravagância do rei Ludwig 2º, o Neuschwanstein é conhecido como “Castelo da Cinderela” por ter inspirado o da Disney, erguido em 1955 na Califórnia.

    Ludwig morreu antes de ver o Neuschwanstein pronto. Considerado louco, foi destronado em 1886 e, no mesmo ano, encontrado morto. Também produtos de sua excentricidade, o Castelo de Linderhof e o Palácio de Herrenchiemsee, ambos a leste da Rota Romântica, teriam levado o reino à falência.

    Ironicamente, o espólio do rei é hoje a principal fonte de renda da Baviera. Outro devaneio de Ludwig, o Castelo de Neuschwanstein parece um transatlântico ancorado nos Alpes, mas é dentro que se tem a noção de sua preciosidade. Mármore, porcelanas, pedrarias, ouro e pinturas baseadas nas óperas de Wagner decoram as salas.

    Fiquei emocionado com tamanha beleza. O rei era louco, mas não bobo. Em estado de leveza, desci a pé, peguei minha mala no hotel e, antes de embarcar para Füssen, parei em uma cafeteria cheia de turistas no centro histórico. A cena me fez perceber que a guerra pode ter devastado a Baviera, mas não fez um arranhão no legado de seus monarcas sonhadores.

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