Roteiro no Peru: Lima, Paracas, linhas de Nazca e Machu Picchu

As pimentas, os ceviches, a história, a grandiosidade, a natureza e os mistérios do Peru, um destino intenso, imenso, inesquecível

Há cidades que, por não terem vocação turística clara, servem apenas de trampolim para outras. Até pouco tempo atrás, o brasileiro que fosse para Machu Picchu, se pudesse, voaria direto para Cusco e nem colocaria os pés em Lima. Hoje as razões para ficar na capital do Peru são muitas, a principal delas a gastronomia, cujo maior divulgador é o chef Gastón Acurio. Ele é dono de um conglomerado que abrange 33 restaurantes próprios e franqueados em 12 países, Brasil inclusive, com a cevicheria La Mar, em São Paulo.

A esta altura muita gente já ouviu falar do Astrid & Gastón, restaurante de Acurio que figura na lista dos 50 melhores do mundo da revista Restaurant. E também do Maido e do Central, outros pesos pesados da cidade (clique aqui para saber mais sobre a gastronomia premiada de Lima).

Gastón Acurio em ação Gastón Acurio em ação

Para entender melhor o fenômeno gastronômico do país, vale dar um pulo no Centro Histórico, junto à Plaza de Armas, para conhecer a Casa de la Gastronomía Peruana. O acervo não chega a impressionar, mas é útil para entender como o povo andino cultivava seus alimentos e outras curiosidades (uma delas: no Peru, crescem nada menos que 3 mil variedades de batatas). Bacana no museu é a ala com fotografias de pratos. Pena não haver guias no lugar. Mas, se você tiver a sorte de topar com Ivonne, uma segurança que é a miss simpatia, é só perguntar que ela explica. Ivonne praticamente preparou um almoço para mim, tamanha a vivacidade com que descrevia ingredientes e pratos. Ela me falou muito do ají, pimenta que está para a culinária peruana assim como o tomate está para a italiana. “Prove o ají de galinha. Vai ali no Tanta, na rua de pedestres aqui em frente. É do Gastón Acurio”, recomendou. O Tanta é uma cafeteria que serve alguns pratos quentes com preços de ocasião. Meu ají de galinha tinha um molho aveludado, divino.

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Praça de Miraflores, à beira do Pacífico Praça de Miraflores, à beira do Pacífico

De barriga cheia e versado em batatas e pimentas, hora de explorar a Plaza de Armas. Construída a mando de Francisco Pizarro no início de século 16, o lugar foi o coração do império espanhol na América do período colonial. A edificação mais imponente ali é o Palácio do Governo, a mais impactante é o Palácio Arcebispal, por seus lindos balcões de madeira, e a mais improvável, por ficar quase escondida e guardar uma preciosidade, é a Casa de Aliaga. A casa não fica exatamente na mítica praça, mas na rua lateral do Palácio do Governo, e é preciso tocar uma campainha. A mansão de 1535 é habitada há 17 gerações pela mesma família. Fui recebido por um guia, mas os porta-retratos com fotos recentes indicam que há vida cotidiana ali. Salas com espelhos dourados, lustres de cristal, móveis rococó, louças centenárias, um verdadeiro cenário de época. Não se tem acesso à parte da residência que ainda é habitada, mas senti cheiro de comida (sempre isso), ouvi vozes e por um momento imaginei que toparia com uma mucama. Dali fui conhecer as catacumbas subterrâneas do Igreja e Convento de São Francisco. Com naturalidade comovente, a guia me conduziu por corredores claustrofóbicos e apontou para alguns milhares de crânios e fêmures de pessoas que eram ali enterradas no século 18.

Até aqui não falei do trânsito caótico nem da variedade e da quantidade dos táxis, duas características de Lima. Isso não mudou, mas há uma bem-vinda novidade nas ruas. Agora existe um corredor de ônibus moderníssimo ao longo da Avenida Paseo de La Republica que conecta rapidinho tudo o que interessa: o Centro Histórico, Miraflores e Barranco, o bairro boêmio. Em Barranco, aliás, foi inaugurado em 2012 o museu MATE, do célebre fotógrafo de moda peruano Mario Testino.

Em Lima, a Plaza das Armas, que foi o coração do império espanhol Em Lima, a Plaza das Armas, que foi o coração do império espanhol

Dos museus históricos, o must see é o Larco, no bairro de Pueblo Libre. Vale ir também para comer no impecável restaurante. Dedique um tempo para ler os didáticos painéis que contam cronologicamente como ocorreu a ocupação humana do território andino há mais de 3 mil anos. O acervo traz cerâmica, joias, artefatos têxteis, armas e tem ainda as salas de reserva técnica, com acesso livre. Uma ala inteira é dedicada à arte erótica, com objetos dos séculos 1 ao 9. Menos secular e muito divertido é sair dali e fazer uma visita ao Parque de la Reserva, que está no Guinness como o maior parque de fontes dançantes do mundo. É imperdível, principalmente o comprido túnel formado por jatos de água e o labirinto de fontes em que a criançada adora se molhar.

Patuá ianque

Subir em um avião não é a melhor coisa do mundo para mim. Sempre que estou prestes a decolar, eu me pergunto o que estou fazendo ali. Essa noia que me acompanhou nas três horas da viagem de ônibus de Lima a Paracas, a 235 quilômetros da capital, onde eu pegaria um bimotor para sobrevoar as famosas linhas de Nazca. Mas a curiosidade de ver os desenhos, chamados geóglifos, espalhados por uma área de 500 metros quadrados, era maior. Eu havia visto em livros de história aquelas figuras que intrigam a humanidade desde que foram descobertas, em 1920. Estima-se que a civilização nazca tenha vivido ali entre 100 a.C. e 1000 d.C e que os desenhos tenham sido feitos como uma espécie de tributo aos deuses para que a água, recurso escasso, não desaparecesse.

Na rodoviária improvisada na beira da estrada, uma van aguardava para me levar até Pisco, onde fica o aeroporto. Entrei e dei de cara com Kristen, uma americana de Michigan com rosto maternal. “Estou acostumada a voar em aviões de quatro lugares. O nosso é de 12, relaxe”, disse ela. Kristen, meu talismã americano.

A foto clássica da cidade inca, com a escalável Montanha Huayna Picchu ao fundo A foto clássica da cidade inca, com suas pedras de encaixe perfeito

No avião, ela se sentou ao meu lado. “Nem tem saquinho de enjoo no meu banco, sinal de que eu não vou precisar”, ria ela. No meu banco, por sorte, havia. O avião decolou, voamos meia hora até Nazca, e o copiloto começou com os rasantes. Cada figura era sobrevoada duas vezes para que os passageiros dos lados esquerdo e direito as vissem. “Vejam a baleia!” Eu não vi. Só consegui ver da terceira figura em diante, o colibri, o astronauta, o macaco. De repente, quando eu olho para Kristen, vejo que meu patuá ianque está com uma mão na boca e a outra indicando para o bolsão do meu assento: “The bag”, grunhiu, antes de ser tarde demais. Ó, céus. Daí em diante, congelei e não olhei para nenhum lado até que o avião aterrissasse no aeroporto.

O dia seguinte foi menos turbulento. Era o dia da visita à Reserva Nacional de Paracas, península cheia de animais como pinguins, tartarugas, leões-marinhos e pelicanos. Ali se veem conchas fossilizadas e uma impressionante formação rochosa em parte submersa chamada Catedral. Outro lugar bacana é uma praia de areias vermelhas. Uma pena que na sequência o mar bravo tenha impedido meu passeio de barco para ver leões-marinhos e pinguins nas Islas Ballestas.

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Museu Casa Concha

Eu fiz a única coisa que não se deve fazer logo que se chega a Cusco: saí a andar. Eu havia pego um voo em Lima, ao nível do mar, e aterrissei a 3 400 metros de altitude. Falta de ar, cabeça pesada – era o soroche, o mal de altura, dando as caras. Deixei as coisas no hotel e fui me arrastando conhecer Sacsayhuamán, a impressionante arena no alto de um dos morros da cidade, repleta de pedras imensas com encaixes perfeitos nas quais os incas realizavam rituais religiosos. Resolvi desacelerar e voltei para a Plaza de Armas, sentei-me em um degrau da catedral e fiquei contemplando os balcões, vendo a gente passar e meditando sobre aquelas igrejas e arcadas que os espanhóis, chegados em 1534, ergueram sobre antigos templos. Sorte que a engenhosidade inca manteve de pé toneladas de outras pedras que podem ser vistas em muitos muros e igrejas da cidade. A melhor arquitetura antiterremoto de que a América já teve notícia.

Encaixes perfeitos nos muros de Sacsayhuamán, em Cusco Encaixes perfeitos nos muros de Sacsayhuamán, em Cusco

Dormi cedo e, no dia seguinte, mais disposto, visitei o Museu Casa Concha, que desde 2011 exibe os artefatos encontrados em Machu Picchu que estavam em poder da Universidade Yale. Utensílios, vasos, potes, ferramentas e até o esqueleto de um inca estão expostos na antiga casa colonial. Ainda naquele dia um guia me levou ao sítio arqueológico de Moray, a cerca de 50 quilômetros de Cusco. Ao chegar a Moray, o visual impressiona. Do alto se veem terraços dispostos em degraus que formam círculos concêntricos. A hipótese mais provável é que os incas faziam ali experimentações agrícolas, aproveitando a amplitude térmica do local.

A nova fronteira

No dia seguinte foi a vez de ver mais dois sítios históricos no Vale Sagrado antes de tomar o trem para a estão esperada Machu Picchu. Em Pisac, no alto de um desfiladeiro, mais terraços. Mas tentador é o mercado de artesanato, principalmente a prataria. Depois, Ollantaytambo, fortaleza alta e muito íngreme em que os espanhóis perderam uma das poucas batalhas contra os incas.

As boas compras no mercado de Pisac As boas compras no mercado de Pisac

Trem, hotel, jantar e cama. Machu Picchu estava chegando. Se você não vai fazer a trilha inca (de abril a novembro são os melhores meses) e pretende conhecer Machu Picchu em um único dia, recomendo o upgrade de subir a montanha Huayna Picchu. Ficar só com Machu Picchu é meio passeio. A cada dia, 400 pessoas têm permissão para subi-la, sendo 200 entre 7 e 8 horas e outras 200 entre 10 e 11 horas (ao comprar o ingresso pela internet, é preciso selecionar a opção Huayna Picchu e escolher o horário). Recomendo estar no primeiro grupo por dois motivos: de manhã cedo, o sol ainda está fraco e quem sobe às 11 horas precisa negociar passagem com quem subiu às 7 e está descendo. A trilha é estreita e bastante íngreme, e é preciso se agarrar em cordas em alguns pontos, mas vi gente de 70 anos encarando. E, lá no alto, você vê as mesmas construções de pedra com janelas e pedras trapezoidais que vê lá embaixo e que serviam de celeiros para estocagem da colheita. Por ser um lugar alto, ventilado, os alimentos se conservavam por mais tempo. Ver Machu Picchu inteira de cima e a estradinha ziguezague que sobe a montanha junto com outras montanhas é… isso mesmo que você pensou. Considero-me materialista, intranscendente, filho do asfalto, mas atingir o topo da montanha me trouxe uma sensação de plenitude (pois é, escrevi isso). É daqueles sentimentos inesquecíveis da vida.

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