O que os viajantes perdem ao não visitar um onsen no Japão

Nudez obrigatória e as tatuagens ainda são obstáculos para muitos ocidentais

Por Mirela Mazzola Atualizado em 29 Maio 2021, 10h13 - Publicado em 21 jan 2021, 12h48

Era fevereiro e o termômetro marcava temperaturas negativas em Takayama, cidade na província montanhosa de Gifu, região central do Japão. Coloquei meu yukata, um tipo de vestimenta mais simples que o quimono, e desci do quarto rumo ao principal atrativo do hotel: o onsen, como são chamadas as incontáveis fontes termais japonesas.  

Os chinelos são deixados na entrada que precede uma sala de descanso e uma recepção, lugar onde recebi uma chave de armário. Dali, um corredor se divide em áreas separadas por gênero. No vestiário, havia chegado a hora: ficar nua em pelo na frente de desconhecidas – e agir naturalmente com minhas formas e feições nada asiáticas. 

Graças à intensa atividade tectônica, o Japão tem milhares de fontes termais com propriedades terapêuticas espalhadas por todo o arquipélago. “O onsen é uma forma de relaxar de jornadas exaustivas e ressignificar a relação dos japoneses com a força da natureza, tão relacionada aos desastres naturais”, diz o carioca Roberto Maxwell, jornalista e guia de viagem que vive no Japão há 15 anos, conduzindo principalmente brasileiros.

Os onsens podem ser públicos, onde normalmente se paga uma taxa para usar, ou estar dentro de hotéis e de ryokans, as hospedarias japonesas (algo que pode ser comparado, em termos de porte e serviço, a uma pousada brasileira). Há ainda os rotenburo, ao ar livre e com vista para a natureza – uma experiência especial principalmente com neve. Em locais remotos e com difícil acesso a turistas, ainda existem onsens mistos, mas são raríssimos – os banhos com homens e mulheres no mesmo ambiente caíram em desuso depois que o Japão se abriu para o ocidente, no fim do século 19. Em comum a todos, só uma coisa: a obrigatoriedade de entrar (e permanecer) nu.

De volta à minha experiência: antes de entrar na água, é de lei sentar-se em uma banqueta e tomar banho, não importa se você acabou de fazer isso no conforto de um lugar reservado. Uma toalhinha pode ser usada para esconder as partes no trajeto entre o vestiário e as piscinas, mas nunca deve encostar na água – o correto é colocá-la sobre a cabeça e manter o cabelo preso.

Vencidas todas as etapas, lá estava eu e meu corpo ocidental em meio a japonesas de todas as silhuetas e idades (crianças, inclusive). Como não troquei olhares com ninguém, não saberia dizer se minha presença chamou a atenção. Primeira lição: apesar de ser um ambiente de socialização entre pessoas conhecidas e até para discutir negócios, o onsen não é lugar para fazer novas amizades. Depois de alguns minutos transitando entre as fontes e usando a sauna, fui tomar uma última ducha antes de voltar para o quarto – é comum haver áreas de massagem e penteadeiras com bons cosméticos e secador de cabelo potente no vestiário. 

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Vale avisar que não se pode nadar: a ideia é sentar e relaxar, aproveitando a imersão quentinha (às vezes quentíssima) e as propriedades terapêuticas da água que brota do solo. A paixão dos japoneses pelas termas é tamanha que existem fontes de água mineral aquecidas artificialmente em regiões com baixa atividade vulcânica, como Kyoto, onde eu moro. Passei meu aniversário em uma delas, o Kurama Onsen (que, em tese, não poderia ser chamado de onsen). Quando estava lá meu coração quase saiu pela boca quando, prestes a entrar no movimentado rotenburo cercado pelas montanhas, vi de canto de olho uma senhora sentada na borda com cabelo curtinho e pernas bem fechadas. Por um segundo, pensei que fosse um homem. “Pronto, entrei na ala masculina e nesse momento só quero me enfiar na primeira fissura tectônica.”

O onsen e os viajantes 

Turistas são aceitos nos onsens tranquilamente, desde que sigam a etiqueta, mas dois fatores costumam interferir: a moral ocidental em torno da nudez e a proibição de tatuagens, ainda hoje relacionadas à máfia japonesa. A situação vem mudando aos poucos: desenhos pequenos cobertos com band-aid costumam ser tolerados e já há onsens em lugares mais turísticos que permitem a entrada de pessoas tatuadas, veja aqui uma lista de lugares.

“No Brasil, a nudez é muito sexualizada ou as pessoas sentem vergonha. Entre os raros clientes meus que demonstraram interesse, a maioria tinha tatuagem”, diz Maxwell. Uma solução para os dois empecilhos são os banhos privados (tanto nos onsens municipais quanto em hospedagens), que podem ser alugados por hora para casais e famílias. A experiência pode ser válida, mas talvez não seja tão completa. “A cultura do onsen é algo muito real no dia a dia japonês, não só algo para turista ver. Trata-se de uma experiência relaxante e enriquecedora. Seria ótimo se os brasileiros tivessem mais interesse”, completa o jornalista. 

Em uma primeira visita ao país, a dica de Maxwell para um batismo no onsen (ainda que nos privativos) é a cidade de Hakone. “Além de estar perto de Tóquio, o lugar reúne em um mesmo pacote beleza natural, vista para o Monte Fuji, ótimos museus e crateras vulcânicas. Um passeio completo”, sugere. Lá, o parque Yunessun é uma alternativa para quem não se hospeda em ryokan com onsen – apesar de se parecer com um clube familiar, existe uma área mais charmosa, a Mori no Yu, que tem banhos privativos. 

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