Miami Nice

Welcome to Miami dos hotéis cinematográficos, do centro renovado, das lojas de design, dos artistas contemporâneos, dos preços sem igual

Por Paulo Vieira Atualizado em 13 out 2021, 18h23 - Publicado em 1 jan 2010, 00h00

O vendedor de automóveis Edgard Sanseverino teve uma vida curta e intensa. Amou sua mulher, bebeu e fumou no atacado, teve carros, colar e relógios, jogou tênis nos dias úteis, viu Roberto Carlos, conheceu Acapulco e Cancún, Buenos Aires e Bariloche, comeu mexilhão nas barracas da Praia do Perequê, no Guarujá. Mas pode-se dizer que Miami, assim como a Lapa em São Paulo, foi sua hometown. Edgard era o que se chamava de sacoleiro – batia pernas pela Flagler Street e transversais para trazer ao Brasil placas-mãe e periféricos de computador. E aproveitava para curtir a cidade, que adorava, antes de enfrentar o avião de volta, de que tinha paúra.

Se pudesse voltar a Miami, Edgard não a reconheceria. Miami mudou muito nos últimos anos. Downtown perdeu – ou está perdendo – sua cara de centro remediado para dar luz a uma centena de prédios inteligentes, metálicos, que, juntos, formam um skyline digno de Nova York. Muitos deles de uso residencial ou misto, o que leva vida ao centro mesmo após o expediente. Alguns dos mais impressionantes hotéis que estrearam não só nos Estados Unidos mas no mundo nos dois últimos anos – os anos da crise – estão aí. É o caso do Viceroy, com suas colunas que emulam os moais da Ilha de Páscoa e sua piscina de 90 metros de comprimento, e do vizinho Epic, com sua marina cheia de iates e escunas. Em 2010 deve estrear o Marquis, do grupo Marriott, com 42 andares – três deles dedicados a outro hotel dentro do hotel, o mais exclusivo Beaux Arts. Parques à beira-mar, como o Bayfront, também ganharam features. Irá para lá o novo Miami Art Museum, com projeto dos arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, os mesmos do intrincado e lindo Estádio Ninho de Pássaro, em Pequim. Na avenida ao lado, no Biscayne Boulevard, calçadas com desenhos de Burle Marx estrearam em novembro. Uma “Sala São Paulo” vitaminada, o Adrienne Arsht Center, também ajudou a mudar a região. O lugar mantém uma companhia de ópera, recebe concertos internacionais e espetáculos da Broadway – neste janeiro, de 101 Dálmatas à filarmônica de Israel, passando pelo balé Cinderella e o cantor Tony Bennett. E o Rio Miami, entre a 4th e a 5th Street, castigado por anos de poluição severa, já é um postal da cidade, com suas pontes móveis, seus restaurantes e edifícios residenciais às margens. A ornar tudo isso, uma rede elevada do veículo leve sobre trilhos (VLT), que dá uma cara futurista à cidade, especialmente quando o carrinho azul conduzido por um computador passa defronte aos tais prédios metálicos – o VLT é gratuito, aliás. Alyce Robertson, diretora executiva da agência de desenvolvimento da região, calcula que 13 bilhões de dólares foram investidos em Downtown por empresas privadas. “O comércio aqui era muito focado em malas de viagem e eletrônicos”, disse à VT. “Mas muita gente sentiu que algo de especial acontecia na região e veio conosco.”

Tudo isso poderia ser apenas demonstração estéril de pujança, uma força estranha de uma cidade numa época em que seu país fraqueja, imagens bonitas que poderiam não dizer nada aos 450 mil viajantes brasileiros que desembarcam lá, anualmente. Mas Miami está mesmo mais agradável, mais desfrutável, mais bacana. Melhor que nunca. Sai Miami Vice, entra Miami Nice.

Exceto pela chatice da Imigração e da Alfândega do aeroporto de Miami, que me seguraram por duas horas, tudo anda pra cima. O táxi amarelo dirigido pelo brasileiro César Silva, que emigrou nos anos Collor, me deixa numa manhã de céu azul e 30 graus – temperatura de fim de outono na cidade – na famosa Ocean Drive, em South Beach, lugar tantas vezes aclamado como souless (“sem alma”), pega-turista, frívolo. Seja como for, seus hotéis de 100 dólares têm muito mais conforto que os de 200 reais mal recauchutados de Copacabana. Fiquei, por exemplo, no Clevelander, que tem um bar com piscina sempre cheio, DJ e desfile de mulheres de short aos sábados. Nenhum decibel dessa balbúrdia chegava a meu quarto, com duas camas grandes e confortáveis, no 3° andar. Fora isso, como é default em Miami, há internet em todo o prédio, zilhões de canais a cabo (muitos desprezíveis, é verdade) na TV de LCD e um toque de decoração moderna, sem excessos. Para não falar do charme art déco de seu predinho baixo, commodity naquele distrito. Os bares e restaurantes da Ocean disputam o passante desde a manhãzinha, quando servem o café que os hotéis ignoram, até a madrugada, com música ao vivo de qualidade – rock aqui, salsa ali, pop argentino acolá. Ou com DJs. Ou com mulheres sobre os balcões, como no Mangos. E há a praia, que, claro, não tem a beleza de tantas do Brasil mas é bacana o suficiente para se deixar estar com prazer. A faixa de areia é larga, meio sem graça e dura, mas a água do Atlântico é morna e o topless e os biquínis sumários estão longe de ser aberrações. E o calçadão da Ocean é perfeito: ciclovia, rede de vôlei, coqueiros, brinquedos para crianças e, a intervalos regulares, duchas e torneiras para os pés.

Hotel Gansevoort, em South Beach, Miami Hotel Gansevoort, em South Beach, Miami

Cobertura do hotel Gansevoort, em South Beach – Foto: Michael Grimm/Getty Images

O conjunto todo fica bem na foto, de dia ou de noite. À beira da praia nos fins de semana ocorrem ainda as pool parties, festas em torno de piscinas de hotéis e bares onde há também cabanas privês e colchões brancos, inspiração clara dos paradores de Jurerê e Punta del Este. A cerveja é cara, 7 dólares para cima; o champanhe, mais ainda. Mas é redentor para o bolso saber que basta atravessar a rua para comprar, digamos, um Ray-Ban aviador na loja Sunglass Hut por 140 dólares. Certamente tudo isso contou na hora de o leitor do Prêmio VT 2009/2010 cravar Miami como o segundo melhor destino internacional e praia, atrás apenas de Cancún.

Diante dos avanços de Downtown, do outro lado da ponte, isso é “mais do mesmo”, você diria. Mas South Beach também andou algumas casas. Quando a Ocean morre, o cruzamento com a 15th, e a Collins Avenue vira a via litorânea, surgem new kids na paisagem. Como o W, da rede de hotéis-butique que é referência internacional. O lobby tem uma coleção de arte contemporânea distribuída por todos os cantos. O nomão ali é o inglês Damien Hirst, o artista vivo mais caro do mundo, famoso por exibir nos anos 1990 um aquário com um tubarão preservado em formol. Uma tela colorida e decorativa do artista indica a entrada do restaurante chinês Mr. Chow, onde é servido pato laqueado. O W, assim como vários de seus concorrentes, busca ser um centro completo e upscale de entretenimento com disco, spa, piscinas gigantes, bares pré-balada, restaurantes estrelados.

Damien Hirst está no lobby do W, mas é o hotel vizinho, o Gansevoort, que exibe um pequeno tubarão no aquário de seu saguão. Parece provocação, mas o trunfo do hotel está, na verdade, um andar acima, na enorme academia de ginástica da franquia do americano David Barton. Falar que ela tem 15 mil metros quadrados ou mais de uma centena de máquinas high-tech diz pouco. Tente lembrar uma das mais bonitas casas noturnas em que você já esteve e a transporte para uma academia. Adicione vestiários com decoração pesada à marroquina, muito vermelho e madeira, e amenities como xampus e condicionadores à disposição dos usuários nos chuveiros. Para quem não é hóspede, há day use por 50 dólares.

Um pouco mais ao norte, no trecho conhecido por Mid Beach, Miami assistiu ao renascimento de um gigante, o Fontainebleau, que surgiu na década de 1950 como o hotel mais cinematográfico da cidade – e de fato aparece em Scarface (a versão com Al Pacino), O Mensageiro Trapalhão, de Jerry Lewis, A Máfia no Divã e uma dezena de outros filmes. Uma reforma de alegado 1 bilhão de dólares – o PIB médio de uma cidade de 60 mil habitantes no interior paulista – fez surgir mais dois edifícios, somou outros 846 quartos aos 658 já existentes e mudou tudo em ambientes e atrações. Ali está o restaurante chinês Hakkasan, que em Londres é estrelado pelo Guia Michelin, piscinas, spas e a discoteca mais falada do momento em Miami, a Liv (com doorman não muito rigoroso, mas, lá dentro, seguranças guardando salas vazias). De volta ao lobby, os elevadores dourados e as gravatas-borboleta do chão, marca registrada do arquiteto Morris Lapidus nos anos 1950, agora contracenam com os candelabros do artista Ai Weiwei, o “Picasso chinês”. É um hotel impactante, à Las Vegas – e você de fato fica se perguntando onde é a saída para o cassino.

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O brasileiro que visita Miami talvez passe batido por esses luxos, numa corrida contra o relógio em shoppings onde produtos como um Wii ou um Moon Sand (uma massinha que dissolve como areia) custam um quarto do nosso preço. Mas talvez seja a hora de levar toda essa nova Miami superdesfrutável em consideração. Quem faz bem a “leitura do jogo” do que querem – ou queriam – os brasileiros em Miami é Jota Abussafi, o Jota, concierge de Ronaldinho Gaúcho, Faustão e outros famosos – e ele mesmo famoso depois de se tornar personagem da novela América, de Glória Perez. Num almoço pouco memorável no restaurante DeVito, do ator Danny DeVito, na Ocean Drive, ele cunha a frase de antologia: “Brasileiro gosta de vir para cá para poder usar Rolex na praia ou andar em carro conversível”. Ele me conta de gente que, no Brasil, jamais andou em carro que não fosse blindado e se fascina com a possibilidade de levantar uma capota. Jota, que começou em Miami lavando pratos nos anos Collor (com quem conviveu lá), publicou no ano passado um guia de turismo da cidade. Ele também tem uma frota de carros de aluguel. São cerca de 30, um deles um lindo Mini Cooper conversível que usei por algumas horas – num dia de chuva.

Há outras marcas brasileiras na paisagem de Miami, da escultura gigantesca de Romero Britto, na 5th Street, em South Beach, à feijoada do novo Botequim Carioca, em Downtown. O pernambucano Britto, o Paulo Coelho das artes visuais, presente nas paredes de Bush, Madonna, Schwarzenneger e do Louvre e cada vez mais comissionado para mostrar obras públicas pelo mundo (uma pirâmide no Hyde Park, a fachada de um castelo na Áustria, colunas em Cingapura), me recebe numa manhã de segunda-feira no calçadão da Lincoln Road, onde tem seu showroom. E revela que “talvez 50% das cores vivas que definem seu trabalho tenham relação com sua opção por viver em Miami”. E Miami, em sua exuberância solar, cálida, nas cores berrantes de seus carros barulhentos, também pode se sentir muito bem representada pelo artista. O sol é um player na cidade, e é atrás dele que chegam os “snow birds”, os americanos dos estados mais frios, justamente nesta época. E aposentados, o tempo inteiro. O sol é algo tão avassalador em Miami que não deve ser casual a minissérie CSI Miami mostrar aqueles tiras sempre ofuscados, no limite da vertigem, da alteração sensorial e da queda de pressão, como que prontos para matar o primeiro árabe que aparecer.

Há Brasil, mas muito mais Cuba, Porto Rico, Haiti, República Dominicana e outros rincões da América Central, em Miami. A canadense Susan Houde, gerente de projetos da Microsoft, que conheço no restaurante Casa Tua, um daqueles que faz a linha tentamos-não-divulgar-nosso-endereço, tem garçons que se vestem como chefs e um sommelier cuja peroração sobre “italianos obscuros” – ele deve ter citado 50 marcas em 150 palavras – poderia ter sido escrita por Jerry Seinfeld, define: “Miami é como visitar muitos países das Américas Central e do Sul de uma vez só”. “E”, segue ela, “por ter muitos expatriados e turistas, é um lugar fácil de fazer amigos.”

Cuba é o país que está mais intrincado no dia a dia de Miami. Para ter ideia, Tomás Regalado, o prefeito republicano eleito em novembro, nasceu em Havana. Irá substituir Manny Diaz (2001-2009), seu conterrâneo. Outros dois ex-prefeitos da cidade são cubanos. Não é preciso, portanto, ir à Calle Ocho, a famosa South 8th Street, em Downtown, a rua principal do bairro Little Havana, para comer frijoles pretos ou ouvir Celia Cruz. (A propósito: Celia Cruz eu não ouvi lá e sim Amigo, do Rei, em espanhol.) Melhor negócio faz quem rumar ao Garcia’s, restaurante e peixaria à beira do Rio Miami, a uns dez quarteirões da costa.

Miami - South Beach Miami – South Beach

Posto de salva-vidas em South Beach: cartão-postal – Foto: Bia Parreiras

A família proprietária tem barcos e traz peixes sempre frescos à casa. Vá sem medo ao ceviche ou ao caranguejo. Para os apreciadores de cerveja, é uma ótima surpresa descobrir a encorpada Presidente, da República Dominicana. Mas a grande figura de Cuba que conheci foi Delfin Gonzáles, tio-avô de Elian Gonzáles, o menino que sobreviveu a uma travessia marítima numa câmara de pneu, em 2000, para se tornar símbolo da maior contenda cubano-americana dos últimos tempos. Elian morou na casa onde agora estou por cerca de cinco meses e teve de voltar à Cuba, numa operação cinematográfica e violenta que contou com policiais da unidade SWAT. Delfin preserva os brinquedos do garoto, uma imagem da Virgem de Fátima que teria ajudado Elian na travessia, fotos e mais fotos, inclusive aquela da rendição do menino. Na frente da casa, onde o velho vive sozinho, bandeiras de Cuba, Estados Unidos e Honduras, que, no domingo da minha visita, vivia polêmicas eleições. Quase dez anos após a volta de Elian, Delfin, ex-preso político cubano, diz não ter notícias dele. E me pede, na despedida, para dizer a Silba (Lula) que “no se aproxime de Chávez“.

A casa de Delfin está numa área residencial de transição entre a renovada Downtown e o badalado Design District, o lugar mais chique de Miami. Da recém-inaugurada butique de sapatos do francês Christian Louboutin, cuja garota-propaganda oficiosa é Angelina Jolie, à loja de móveis italianos Kartell, tudo ali é voltado para um consumidor mais refinado. Predinhos semi-industriais do passado, como o Moore Building, tiveram a fachada preservada e o interior “desconstruído”. Este último, pela badalada arquiteta iraquiana Zaha Hadid, que lhe acrescentou formas de ameba (o brasileiro Ernesto Neto, que adora pendurar essas formas pelo teto das galerias em que expõe, poderia lhe cobrar royalties). O movimento se completou com a chegada de restaurantes de chefs badalados e galerias de arte contemporânea. Michelle Bernstein, famosa na TV americana, abriu ali seu hypado espanhol Señora Martinez, especializado em tapas de mais forma que conteúdo. É bem verdade que as brussels a la plancha (couves-de-bruxelas) e o tenríssimo rabo de boi estavam uma coisa.

Em dezembro surgiu na região a De la Cruz Collection, museu dedicado a mostrar a coleção privada do casal cubano Rosa e Carlos de la Cruz, grande mecenas de Miami. São eles que dão a festa inaugural aos galeristas e artistas da Miami Art Basel, uma das principais feiras de arte contemporânea do mundo. O casal De la Cruz seguiu outras famílias que já haviam aberto os próprios museus, como a Rubell e a Cisneros, da Venezuela. É o que a imprensa americana chama de “Miami model”: colecionadores abrindo instituições mais importantes que os museus públicos. Estive na exposição temporária da Rubell Family, que segue até maio. Beg Borrow and Steal ocupa todas as 28 salas do prédio e mostra obras de dezenas de artistas que, de alguma forma, como diz o título, emprestaram ou roubaram ideias de outros artistas. Andy Warhol, o Picasso chinês dos lustres do Fontainebleau e o local Bert Rodriguez são alguns participantes. Fiel ao espírito, perguntei a um funcionário se podia roubar o catálogo, vendido por cerca de 50 dólares. O sujeito não achou graça.

Com toda opulência de seus novos hotéis e as lojas caras do Design District, pode parecer que Miami Nice soterrou aquela velha Miami do Edgard do começo desta reportagem e de tantos brasileiros que vão lá para se divertir sem gastar muito. É uma meia verdade. Miami pode, por exemplo, ser curtida de bicicleta, como eu fiz, por 15 dólares ao dia. A cidade é plana e há lugares lindos com ciclovias, como a Venetian Way, que liga Miami Beach a Miami, na altura da North 15th Street. Os motoristas também respeitam os ciclistas e ninguém estranha se, por exemplo, você sair com uma caixa enorme de Playstation na mão esquerda enquanto segura o guidão com a direita. Bem, pelo menos não estranharam quando fiz isso. Se achar as diárias dos hotéis caras, há ainda a opção de alugar partamento, bom para famílias. E Miami sempre vai sobreviver aos próprios modismos e funcionar para quem não está nem aí para arte contemporânea, lobbies maravilhosos, sofás brancos em cima da areia ou o aroma delicioso do capim-cidreira, onipresente nos banheiros dos restaurantes. Para esses, a velha Miami das promoções dos shoppings, a Miami dos golfinhos fofos do Seaquarium, a Miami da Heineken no gargalo no bar Tobacco Road estará sempre lá, ano após ano, década após década, a oferecer-lhes o delicioso conforto de sua atemporalidade.

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