Louvre, o maior dos museus

Ao se visitar o Louvre, em Paris, menos é mais. Ele vai sempre continuar lá, com seu acervo de 300 mil obras

Você pode ir ao Louvre por diversas razões. Em seu livro Paris É uma Festa, Hemingway conta que foi com Fitzgerald ao museu nos anos 1920 para que o autor de O Grande Gatsby pudesse checar, diante das estátuas da Antiguidade, se suas medidas masculinas eram adequadas. Fitzgerald saiu tão confuso quanto entrou. Você também pode ir ao Louvre porque se sentirá culpado se, em Paris, decidir não prestar um tributo à arte. Nesse caso, mesmo sem entrar no museu mais visitado do mundo (8,4 milhões de ingressos em 2010), dá para tirar uma foto externa e mandá-la aos amigos. Um fotógrafo mediano fará com que você pareça segurar a pirâmide pelo topo.

Se parece fácil repetir a brincadeira dos turistas do lado de fora, dentro você poderá lembrar o personagem de Stendhal em A Cartuxa de Parma, que viu a batalha de Waterloo sem entender do que se tratava. Fui assim algumas vezes ao Louvre e encontrei brasileiros na mesma situação – um clássico, já que somos o segundo maior público estrangeiro do museu, atrás dos americanos.

Mas dessa vez finalmente decidi fazer uma visita planejada. Estudada. Livros, Google, experiências pessoais – juntei tudo, coloquei num liquidificador e extraí um suco lógico, que pode ser tomado antes de pegar a fila quase inevitável que vai dar na pirâmide invertida do subsolo. Compartilho essa visita aqui.

Uma boa ida ao Louvre deve se amparar em história. O museu, como o conhecemos, é obra dos revolucionários que derrubaram a monarquia em 1789. Erguida a partir do século 13, a construção era inicialmente uma fortaleza. “Louvre”, ninguém sabe ao certo a origem da palavra, derivaria de “Lou”, que remete a Louis, o nome de 18 reis fanceses. Com o tempo, o palácio passou a ser utilizado pela realeza, sobretudo para festas. Depois da revolução, em 1793, os novos líderes decidiram que aquele era o lugar ideal para montar um museu – gratuito – que proporcionasse conhecimento ao povo. Já havia um número considerável de obras ali. A Mona Lisa, por exemplo, fora dada de presente no início do século 16 por Leonardo da Vinci ao rei Francisco, em cuja corte fora trabalhar. Foi, por isso, um ato de ignorância histórica e patriotismo tresloucado o perpetrado pelo italiano Vincenzo Peruggia, que em 1911 roubou a Mona Lisa e a levou à Itália.

Ladrão que rouba ladrão

Peruggia era um fabricante de vidros e conhecia bem o museu. Certo dia, ele se escondeu dentro do prédio durante a visita dominical e permaneceu ali até a manhã da segunda-feira, dia em que o Louvre fechava naquele tempo (hoje é às terças). Então, tirou o quadro da parede do Salão Carré, colocou-o debaixo do sobretudo e o levou para a Itália. Tratava-se de uma repatriação, segundo ele. A Mona Lisa chegou a ser exibida em cidades italianas, mas logo as autoridades fancesas a tomaram de volta. Peruggia foi tratado como ladrão na França, mas virou herói nacional para os italianos. O roubo da obra-prima obrigou os responsáveis pelo Louvre a investir em segurança, deixando para trás os dias em que o visitante segurava o quadro na mão para apreciá-lo de perto.

Se o Louvre era proprietário de direito da Mona Lisa, vale dizer que muito do que está em suas galerias advém de pilhagem. Napoleão tinha um apreço especial por surrupiar obras de arte em suas campanhas militares. Um quadro ilustra bem sua admiração por esse universo: no próprio Louvre, orgulhoso, ele mostra a um grupo de pessoas o Apolo Belvedere, uma escultura grega que representou por séculos a beleza masculina. Napoleão pegou-a da coleção do Vaticano, depois de conquistar Roma e impor seu poder ao papa. Com a queda de Napoleão, Apolo e outras obras retornaram aos donos. Não todas. Os egípcios, por exemplo, jamais reouveram o que lhes foi tirado.

Ninguém teve um papel tão marcante na história do Louvre quanto Napoleão. Por isso, é justo que você demore alguns minutos para vê-lo numa situação gloriosa, como em A Coroação de Bonaparte, de Jacques-Louis David, o grande pintor da corte napoleônica. David, um jacobino que se atirara à vida de revolucionário, escolheu um momento simbólico da cerimônia para registrar em sua obra. Nela, Napoleão está prestes a depositar a coroa em sua mulher, Josefina, um gesto que caberia ao papa Pio VII. Assim, ficava claro de quem era o poder na nova ordem, como prova a situação embaraçosa e a expressão contrariada do papa, captada espetacularmente por David.

De David, no Louvre, também é altamente recomendável ver um instante dramático na saga jacobina, A Morte de Marat. Um dos líderes revolucionários mais amados pelo povo, Marat foi assassinado por uma jovem que se dizia partidária de suas ideias. Ela o esfaqueou na banheira em que ele mitigava as dores terríveis que sentia por causa de uma doença na pele. O crime precipitaria uma onda de terror na qual a guilhotina trabalharia feneticamente.

A etapa revolucionária pode ser enriquecida com a contemplação de A Maldição Paterna, de Jean-Baptiste Greuze. Ele foi o pintor favorito de Diderot, o intelectual iluminista que contribuiu como poucos para abrir caminho para a Revolução de 1789. Diderot admirava a arte de Greuze pelo seu conteúdo moral – moral no sentido de educar, construir um caráter. A Maldição Paterna mostra um filho desesperado no quarto em que seu pai agoniza sob as vistas da família. O filho contrariara o pai e por isso é reprovado enfaticamente. Greuze reproduziu com seu pincel um pensamento fundamental de Confúcio, o filósofo de 2 500 anos atrás que até hoje influencia fortemente os chineses: a obediência aos pais é vital na personalidade de homens e mulheres.

Nossas preferências também devem ser levadas em consideração numa visita ao Louvre. Para mim, A Morte de Sêneca, de Peter Paul Rubens, é obrigatória. Rubens homenageou a bravura de Sêneca, que cortou os pulsos por ordem de Nero, o imperador de quem fora preceptor. Autor de ensaios notáveis sobre a arte de viver e de morrer, Sêneca cuidou de Nero antes que este degenerasse. Depois, acusado de conspiração pelo antigo pupilo, foi obrigado a se matar. A exemplo de Sócrates ao tomar a cicuta, Sêneca, como mostra a tela de Rubens, consolou os discípulos em vez de ser consolado por eles.

Mulheres peladas

“Artistas medíocres imitam”, disse Picasso. “Grandes artistas roubam as ideias dos mestres.” É instrutivo, a esse respeito, ver o Concerto Campestre, de Ticiano. Cercados de árvores e arbustos, dois homens estão absolutamente entretidos um com o outro, a despeito da nudez de duas mulheres que os acompanham. Esse quadro enigmático – o que estão fazendo as duas moças peladas num local público, e por que são alvo da brutal indiferença dos cavalheiros? – inspiraria séculos depois Edouard Manet num quadro que entraria para a história da pintura. Em Desjejum no Gramado, obra-prima do impressionismo, Manet retrata exatamente dois homens vestidos e duas mulheres nuas. Em comum, os homens das pinturas parecem não notar a deslumbrante presença feminina. Se você encontrar sentido nisso, me avise. O Desjejum está em outro museu de Paris, o D’Orsay, repleto de obras de impressionistas. O Louvre, numa decisão tomada há cerca de 40 anos, exibe obras apenas de artistas antigos. Não que o impressionismo – que floresceu na segunda metade do século 19 – seja novo. Mas não é antigo o bastante para estar representado ali.

Se grandes pintores como Ticiano e Manet se curvaram escancaradamente à nudez feminina, não há razão para que homens comuns se constranjam em admirá-la. Dois quadros são especialmente interessantes nesse quesito no Louvre. Um é O Banho Turco, de Jean-Auguste Domenique Ingres, em que mulheres jovens e lindas se esfregam umas nas outras. Contemplando-as, você vai lamentar o triunfo da estética anoréxica entre as mulheres. O segundo é de autor ignorado, da célebre Escola de Fontainebleau, cujo estilo foi inspirado no maneirismo italiano. O nome é Gabrielle d’Estrès e uma de suas irmãs. Favorita do rei Henrique IV, Gabrielle, ninguém nunca soube o porquê, aperta com a mão esquerda o mamilo direito da irmã.

Pelos meus cálculos, ver direito as obras citadas vai demandar umas duas horas. É o tempo justo. Mais que isso, bate um cansaço que pode levar você a odiar o que bem poderia venerar. São 35 mil obras em exposição, apenas 12% de todo o acervo. Melhor se encaminhar para a saída e dizer a esse grande museu não adieu, mas até breve.

OUTROS CAMINHOS

O Louvre tem três roteiros distintos

Os clássicos

Indicado pelo próprio museu em seu site www.louvre.fr, este roteiro, de cerca de 1h30, passa pelas obras mais populares do museu, como a Vênus de Milo, que está na ala Sully. Mas há mais. Das pinturas do século 19, é sugerida, entre outras, a Balsa da Medusa, em que Théodore Géricault registra um naufrágio na costa africana, episódio embaraçoso para a recém-restaurada monarquia francesa. Mais famosa é A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix. Do século 16, a gigantesca tela As Bodas de Caná, de Paolo Veronese, ilustra o milagre da transformação da água em vinho, mas, perto da Mona Lisa, não recebe grande atenção. A Vitória de Samotrácia fica na ala Denon.

Esculturas

Fazer um roteiro que privilegie parte das esculturas do museu. Essa é a ideia que o professor Denis Molino, curador-assistente do Masp e professor de história da arte da escola do museu, indica ao viajante. Ele sugere comparar as peças feitas em homenagem ao escritor e filósofo francês Voltaire, como o Voltaire nu feito por Pigalle em 1776, ‘‘obra que causou polêmica na época”, e o busto de Houdon, de 1778, em que “sobressai o sorriso irônico do escritor”. Também sugere contemplar O Escravo, de Michelangelo, e a estátua gótica de Maria Madalena, de Gregor Erhart, o bronze do século 16 Mercúrio Carregando Psiqué, de Adriaan de Vries, e depois, na ala helenista, o mármore romano Hemafrodita Dormindo, que “surpreende pela ambiguidade.”

Retratos

A professora Elaine Caramella, coordenadora do curso Arte: História, Crítica e Curadoria, da PUC-SP, sugere um corte que contemple os retratos. “Dá para fazer um belo passeio pelo Louvre assim.” Ela sugere diversas obras, como São Luís, Rei da França, de El Greco, Madame Récamier, de Jacques-Louis David, e um autorretrato de Albrecht Dürer. Além desses, Retrato de Baldassare Castiglione, de Rafael, Retrato de um Velho com o Neto, de Domenico Ghirlandaio, Erasmo, por Hans Holbein, o Jovem, Mulher com Espelho, de Ticiano, Palhaço com Aláude, de Frans Hals, estão em sua seleção.

LOUVRE 33-1/4020-5050, www.louvre.fr; 2ª, 5ª, sáb/dom 9h/18h; 4ª e 6ª 9h/22h; € 10 (coleção permanente) a € 14 (acesso também às exposições temporárias). Grátis no primeiro domingo do mês.

Leia mais:

Julho de 2011 – Edição 189

Destino – França

Destino – Paris

O que fazer – Museu do Louvre

Fotos de Paris

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