Ilhas da simpatia

Todos são só sorrisos em Fiji, e a natureza tem tudo a ver com isso neste arquipélago no meio do Pacífico Sul

Se Fiji fosse uma cor, seria azul, tom horizonte, aquele da fusão entre céu e mar. Se palavra, seria “bula”, fijiano para “bem-vindo”. E, se fosse uma obra de arte, seria uma tela de Gauguin, que retratou o cotidiano alegre e colorido dos habitantes do Taiti, não muito distante dali.

Mas nada disso dá conta da beleza do cenário fijiano. Por cenário entenda-se o conjunto natureza-povo-cultura-gastronomia. Quem viaja para esse arquipélago a quatro horas de voo de Melbourne, na Austrália, procura pela água morna, pelas areias fofas e pela sombra das palmeiras. O cenário sofreu avarias com o ciclone que atingiu o arquipélago em dezembro, o mais potente em 20 anos, que derrubou árvores e destelhou casas, mas nada que governo e população não deem conta de recuperar. Em Fiji, o visitante ganha também paisagens quase selvagens, estrelas-do-mar azuis, algas, conchas e corais gigantescos. Fiji, a “capital dos corais” da Terra, é uma Fernando de Noronha que se multiplica em três centenas de ilhas (das quais 110 habitadas pela população de 900 mil pessoas). Quem vai a Fiji acaba intoxicado pela beleza, hipnotizado pelo balanço do mar, tem dissipada qualquer preocupação com o cotidiano que porventura tenha ficado na bagagem.

Cheguei a Fiji de madrugada, e já no aeroporto de Nadi suspeitei que adentrava um lugar encantado. Em meio à bruma que circundava a pista notavam-se montanhas e muita vegetação. À luz do sol nascente, centenas de pássaros que lembravam o nosso sabiá, pousados nos corrimãos do rústico terminal, piavam a plenos pulmões. No saguão, um trio de violeiros, usando saias e com flores nos cabelos, cantava graciosamente baladas de Elvis Presley.

Não só no aeroporto, mas em toda Fiji, vi homens e mulheres com saias longas. Parecem ter sempre um sorriso de plantão, como que orgulhosos de sua cultura. Ao avistar um estrangeiro, gritam “Bula!”, o sorriso de orelha a orelha que desarma qualquer um. Logo entendi que, mais do que uma saudação, essa é uma expressão de contentamento pela presença do outro. Mais formal é dizer “Ni sa bula vinaka!”, algo como “Desejo-lhe boa saúde e felicidade!” Retribua com um “Bula vinaka!” Os nativos adoram puxar conversa em inglês, uma das línguas oficiais, assim como o fijiano e o hindustâni (quase 40% dos fijianos têm origem indiana).

Embora pontilhado de ilhas, ficar em Viti Levu, a principal do arquipélago, já significa desfrutar do cenário que se espera de um lugar remoto do Pacífico Sul. Mas troque a capital, Suva, por Nadi, no oeste da ilha. Nadi serve de base para passeios bate e volta para as Mamanucas (em uma dessas ilhas foi rodado o filme Náufrago, com Tom Hanks) e está ao lado da Coral Coast, região montanhosa cheia de florestas, praias e resorts que estão longe de ser os mais caros de Fiji. Um pacote de cinco noites com pensão completa sai a cerca de US$ 1 500 por pessoa, muito mais em conta do que em outras ilhas como Vanua Levu (onde está o resort de Jean- Michel Cousteau, filho do Cousteau famoso, o documentarista). Eu fiquei no Warwick Fiji e não senti falta nenhuma do isolamento de uma ilha privativa. A sensação já era um pouco essa.

Cabana luxuosa do resort de Jean-Michel Cousteau, em Fiji Cabana luxuosa do resort de Jean-Michel Cousteau, em Fiji

Cabana luxuosa do resort de Jean-Michel Cousteau, em Fiji (/)

Cabana luxuosa – Foto: Greg Taylor/Divulgação

Munidos de pés de pato e máscaras de mergulho, turistas passam o dia admirando conchas, peixes, corais estranhos. Fora da água morna e transparente, pode-se explorar cavernas, fazer rafing e rapel em cachoeiras. Ou, num corte mais sociológico, visitar comunidades nativas que sofrem com a pobreza e a instabilidade política do país.

A uma curta travessia desde o norte de Viti Levu fica Nananu-i-Ra, outra ilhota digna de nota por causa de uma de suas praias, Oni Beach, que seria selvagem não fossem os mergulhadores, os praticantes de windsurfe e algumas pousadas sem eletricidade – que, aliás, não faz falta. De volta a Viti Levu, veja o Monte Tomanivi, um vulcão extinto com 1 324 metros de altura, a montanha mais alta de Fiji. Desde o vilarejo de Navai, uma trilha de três horas conduz ao cume da montanha. Mas é preciso ter excelente preparo físico. Adictos em adrenalina piram, ainda em Viti Levu, com o Koroyanitu National Heritage Park. A reserva tem diversas cachoeiras e é berço de aves raras e sítios arqueológicos; dá para explorá-la a pé, sobre bicicletas, a cavalo, ou em veículos 4×4.

É difícil o turista vir a Fiji e não experimentar a kava, infusão feita com a raiz de uma planta comum na região – a yaqona. No passado, só líderes e chefes tribais tinham o privilégio de bebê-la. Ficou o ritual, em que é preciso observar certas regras de conduta. Os degustadores devem ficar em silêncio, em posição de índio, até que lhes chegue às mãos a bebida em um bilo, a metade do coco transformada em copo. Aí, em vez de erguer o bilo como num brinde, bata palmas antes e depois de beber (não é preciso equilibrar o coco na testa nessa hora). Tome tudo de um só gole e diga “maca”. O formigamento na língua e o efeito calmante que tomam conta do corpo chegam a empolgar, mas não dá para dizer o mesmo do gosto de terra da bebida.

No retorno para casa, aproveite o dia em Nadi ou em Suva, a capital, para bater pernas pelas lojas – o artesanato é um capítulo à parte. Dá para encontrar máscaras cerimoniais e até pequenas canoas. Sempre que eu olho os regalos que trouxe de Fiji voltam os cheiros, os sabores, as cores – o Pacífico, enfim.

E, dentre as recordações, a mais forte é a do casamento tradicional a que eu assisti. A noiva, descalça, chegou de canoa à ilha onde o noivo a esperava. No percurso, um homem com trajes tribais soprou uma concha gigantesca. Depois disse algumas palavras e acendeu a tocha que iluminaria o altar. Tudo isso ao pôr do sol.

Viajar a Fiji dá a chance de nos banharmos de autoestima. A beleza do lugar e a simpatia do povo fazem bem.

Peixe gourmet do resort de Jean-Michel Cousteau, em Fiji Peixe gourmet do resort de Jean-Michel Cousteau, em Fiji

Peixe gourmet do resort de Jean-Michel Cousteau, em Fiji (/)

Peixe gourmet do resort de Jean-Michel Cousteau – Foto: James Walshe/Divulgação

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O DDI das Ilhas Fiji é +679

  • FICAR

O Warwick Fiji Resort & Spa (653-0555, warwickfijihotel.com; diárias desde US$ 369; Cc: A, M, V) fica na Coral Coast, a 1h30 do aeroporto de Nadi. Em frente a uma baía com ilha privativa protegida por barreira de corais, o resort oferece gratuitamente equipamentos para snorkel e canoagem. Para pagar menos, o Wayalailai Resort (603-0215, wayalailairesortfiji.com; diárias desde US$ 112; Cc: A, M, V) é uma espécie de albergue que oferece uma estada no estilo autêntico de Fiji, em cabanas de bambu com teto de sapé. Ideal para quem quer unir natureza a badalação, o Beachcomber Island Resort (666-1500, beachcomberfiji.com; diárias desde US$ 127, US$ 25 em quartos coletivos; Cc: A, M, V) está situado em um santuário de vida marinha das Ilhas Mamanucas e é famoso por suas festas e shows noturnos. Para dias de rei, escolha um dos 25 bangalôs exclusivos do Jean-Michel Cousteau Resort (885-0188, fijiresort.com; diárias desde US$ 830, Cc: A, M, V), um cinco- estrelas com piscina e spa de propriedade do filho do documentarista francês Jacques Cousteau, na ilha vizinha de Vanua Levu.

  • COMER

O requintado Chefs, the Restaurant (Sangayam Road, 670-3131) é um dos melhores de Nadi, com frutos do mar, saladas, massas, pizzas e sanduíches até pratos afegãos e iguarias da Índia e da Tailândia. Em Suva, o Malt House Brewery & Restaurant (88 Jerusalem Road Vatuwaqa, 337-1515), sempre cheio, serve cerveja caseira, pizzas e pratos criativos com carnes e peixes. Na capital também está a Old Mill Cottage (49 Carnarvon Steet, 331-2134), a melhor pedida para se aventurar pelos sabores típicos de Fiji, com pratos como moluscos ao curry.

  • PASSEAR

Não deixe de conhecer a capital Suva para entrar em contato com a confluência de culturas e etnias que compõem Fiji. Nadi serve de base para passeios bate e volta para as Ilhas Mamanucas e está a apenas 100 quilômetros da Coral Coast, uma região montanhosa cheia de florestas e praias. Em Viti Levu, veja o Monte Tomanivi, um vulcão extinto com 1 324 metros de altura. Lá também está o Koroyanitu National Heritage Park, uma reserva com aves raras e sítios arqueológicos. A cerca de 100 quilômetros está Kadavu, que é um dos melhores locais para mergulho. Vale conhecer também Nananu-i-Ra, ilhota onde muitas pousadas não têm luz – detalhe diante da beleza do cenário –, e as Yasawas, grupo de 20 ilhas com um landscape vulcânico e praias idílicas.

  • COMO CHEGAR

Não há voos diretos do Brasil para Fiji. A American Airlines (11/4502-4000, aa.com.br) voa para Nadi com conexão em Miami e em Los Angeles desde US$ 2 702. Outra opção é pegar um voo direto da Korean (11/3525-6700, koreanair.com) para Los Angeles (desde US$ 1 939) e depois um da Air Pacific (airpacific.com) direto até Nadi, desde US$ 1 415. Pode-se ainda voar com a LAN (0300-7880045, lan.com) em codeshare com a Qantas (qantas.com.au) até Auckland, na Nova Zelândia, com conexão em Santiago (desde US$ 3 621), e de lá voar com a Air Pacific ou a Qantas até Nadi, desde US$ 615.

  • QUEM LEVA

A Kangaroo (11/3509-3800, kangarootours.com.br) tem pacote com sete noites no Shangri-la’s Fijian Resort & Spa (shangri-la.com), na Ilha Yanuca, região da Coral Coast, desde US$ 3 813. Pela Nivana (11/3138-8282, nivana.com.br), sete noites na Ilha Tavarua, no Tavarua Island Resort (tavarua.com), custam desde US$ 5 435. De luxo, o roteiro da Designer Tours (11/2181- 2900, designertours.com.br) tem uma noite em Nadi, no Radisson Blu Resort Fiji (radissonblu.com/resort-fiji), e quatro com pensão completa no Likuliku Lagoon Resort Fiji (likulikulagoon.com), desde US$ 3 858 (sem aéreo). A Intravel (11/3206-9000, intravel.com.br) tem quatro noites no hotel Outrigger on the Lagoon (outrigger.com), com passeios, desde US$ 1 261 (sem aéreo).

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