Hotéis de luxo do Rajastão, na Índia, fascinam até mochileiros mais roots

Um respiro hedonista nos palácios do estado mais colorido da Índia

É até reducionista chamar o Rajastão de estado – aquilo é um mundo. Com 342 quilômetros quadrados, o lugar é um adorável clichê que ocupa o imaginário dos viajantes com seus palácios nababescos, elefantes ornamentados, encantadores de serpentes, bazares de tecidos.

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Ao longo dos 265 quilômetros que ligam Délhi a Jaipur, a capital rajastani, o cenário vai ficando desértico e os turbantes, mais ofuscantes. Para fazer o roteiro, fechei um pacote de cinco dias com carro e motorista por US$ 525 com a Cox & Kings, agência de Délhi.

O tour percorre a tríade das cores: Jaipur, a cidade rosa, Jodhpur, a cidade azul, e Udaipur, a cidade dos lagos que poderia ser a cidade branca, o tom dominante de suas casinhas. Cada uma delas fica a uma média de cinco horas de estrada poeirenta. Além de visitá-las, eu queria me hospedar nos absurdamente lindos palácios dos marajás. Quem? Ah, os marajás.

Corta. Um terço da Índia colonial era subdividido em 562 principados, boa parte no território do Rajastão. Cada pedaço ficava sob a tutela de um príncipe indiano, o maharaja. No livro Paixão Índia, o autor espanhol Javier Moro diz que “alguns eram cultos, outros sedutores, outros cruéis ou ascéticos, outros um pouco loucos, e quase todos excêntricos”.

E dá-lhe excentricidade. Há o que mandou fazer um trem elétrico para circular em torno da mesa de jantar, outro comprou 270 automóveis de uma vez. A festa deles acabou com o colapso da colônia, em 1947. Alguns venderam suas mansões para grandes redes de hotéis, como Taj e Oberoi. O preço é salgado (a partir de US$ 250 a diária), mas até os mochileiros mais roots costumam “se dar a esse luxo” – eu conheci três. É a chance de viver in loco a vibe Mil e Uma Noites.

Jaipur, a cidade rosa

Jaipur, a primeira cidade do meu roteiro, tem um desses palácios esplendorosos e um Centro onde todos os edifícios são pintados de rosa – vibe monocromática que se alastrou depois que os prédios públicos foram cobertos com a tonalidade.

É um labirinto de vendedores de seda, engraxates e limpadores de orelha (!), estranho ofício local. Paguei US$ 3 por um pano de 6 metros, o sári, cujas mil utilidades foram explicadas pelo guia Sorab: vira um vestido sem precisar de alfinete, cobre a cabeça, protege do vento e ainda serve de toalha para enxugar os filhos.

Depois de zanzar o dia todo, aterrissar no Rambagh Palace, antiga moradia do marajá Bawhani Singh, é um estrondo. Mobília de madeira, porcelanas pintadas a mão, papéis de parede com mandalas. Nada soa kitsch. É um genuíno palacete indiano, esteticamente fascinante para quem vem do Ocidente.

Hotel Rambagh Palace, em Jaipur, no Rajastão, Índia Hotel Rambagh Palace, em Jaipur, no Rajastão, Índia

Hotel Rambagh Palace, em Jaipur, no Rajastão, Índia (/)

A sala de jantar dourada do Rambagh Palace, em Jaipur

Lá jantei cogumelos ao curry num prato folheado a ouro e descobri um bom vinho local, o Sula. O garçom contou que a trupe da novela Caminho das Índias ficou hospedada ali, em 2009. Passaram bem. Considerada por muitos uma extensão de Jaipur, de tão perto, a cidade de Amber tem um forte estonteante, o Amber Fort, com espelhinhos encravados nas paredes.

Jodhpur, a cidade azul

Na parada seguinte, Jodhpur, é obrigatório ir ao forte Mehrangarh, com salas medievais restauradas de onde se vê a cidadela azul, cor usada para marcar as residências dos brâmanes, a mais elevada casta da hierarquia hindu.

Mas os dois principais hotéis-palácios estavam lotados, e Sorab me carregou para a pensão Riddhi Siddhi, a US$ 8, com café. Claro, era de um parente dele. Desci uns patamares na escala hoteleira, mas dormi embaixo de um pôster holográfco de Ganesha. O último pit stop era Udaipur, a cidade dos três lagos.

Ranakpur, o templo jainista

No caminho entre Jodhpur e Udaipur, em Ranakpur, está um templo imperdível do século 15, o Adinath. Por fora, nada de mais. Por dentro, um esplendor. São impressionantes 1 444 pilares de mármore. Ele foi erguido por seguidores do jainismo, uma religião contemporânea do budismo, do século 6 a.C., mas bem mais radical. Os jainistas não comem nada de origem animal e arrancam os fios dos cabelos, um por um, num ritual doloroso. E pregam: “O que vale é o nosso interior”.

Udaipur, a cidade branca

Udaipur. Se eu tivesse de escolher uma só parada no Rajastão, seria ela, a Veneza do Oriente. O centrinho é gostoso de explorar, e há um complexo de palácios e museus de 20 mil metros quadrados. Quem se hospeda no Lake Palace, recorde no quesito beleza-de-hotel, tem acesso livre aos acervos.

Majestoso, o Lake foi erguido no século 18 pelo marajá Jagar Singh II para flutuar estático no meio do lago Pichola. Só se chega de barco (a boa é ir no pôr do sol), e, uma vez ali, tudo é mágico: o jardim repleto de pássaros, o quarto com ofurô e óleos aromáticos, os funcionários que parecem adivinhar o que você quer da vida.

Hotel Lake Palace, em Udaipur, Rajastão, Índia Hotel Lake Palace, em Udaipur, Rajastão, Índia

Hotel Lake Palace, em Udaipur, Rajastão, Índia (/)

Lake Palace, em Udaipur: vencedor hors concours de beleza-de-hotel

No spa, testei a maravilhosa shirodhara, um óleo quente que cai por 40 minutos no meio da nossa testa. No último dia, folheei os livros do quarto e achei uma boa pensata do poeta inglês Rudyard Kipling: “A providência criou os marajás para oferecer um espetáculo ao mundo”.

Revista Viagem e Turismo — julho de 2014 — edição 225

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