Europa em duas rodas

Viajar com cadeira de rodas: nosso repórter percorreu na Europa algumas das mais bacanas cidades do Velho Mundo de uma maneira bastante especial

Estavam certos aqueles que me disseram que viajar (bem) acompanhado é melhor do que sozinho. Recomendo muito andar a sós pela Europa, mas dividir esses momentos com alguém vai além. Na minha condição especial de piloto de cadeira de rodas, eu agora conheço as duas “modalidades” de viagem – sozinho e acompanhado. Com Rebeca, minha mulher, que não é cadeirante, percorri Amsterdã, Berlim, Milão, Sicília (Palermo, Corleone e Cefalù), Londres e Lisboa. Uma trip que qualquer cadeirante pode fazer sozinho, com exceção, talvez, da acidentada Corleone, onde carro é imperativo. Não dá para reclamar da estrutura do Velho Mundo: calçadas bem asfaltadas e com guia rebaixada, transporte coletivo acessível e, o melhor de tudo, banheiros que contemplam a largura da cadeira, cômodo raro no Brasil.

Van Gogh e Ramones

O avião mal pousa em Amsterdã e já é possível notar que a Holanda vive sobre rodas. As bicicletas são o veículo preferido, ainda que os meios de transporte de massa não deixem a desejar. Do aeroporto Schiphol, você embarca, sem dificuldade, num trem direto para a Estação Central. Mas, para um cadeirante, a opção não é boa, já que há degraus entre a plataforma e o trem e é preciso solicitar a ajuda de um funcionário e sua rampa móvel. E, já que a rampa é inevitável, agende essa ajuda também para o dia do retorno. Cadeirante, como se vê, precisa se programar.

Mas a viagem não começou bem. Vivi um contratempo no hotel Trianon (Jan Willem Brouwersstraat, 3, 0800-8913841, www.trianonhotel.com; diárias desde € 69). Mal-educado, o chinês da recepção, depois de cobrar, gritou: “Não temos mais como receber deficientes. Não dá”. Apesar dessa saudação, eu e Rebeca decidimos ficar. No elevador subi meio esmagado, mas o problema era o banheiro. Para usar o vaso sanitário, tive de me arrastar do lado de fora e fazer uma espécie de rapel. A cama, por outro lado, era extremamente macia.

Se os museus de Amsterdã já são bem conhecidos – e indispensáveis -, é interessante saber como eles estão estruturados para o cadeirante. Para ver os retratos de Rembrandt, Vermeer e outras pratas da casa, no Rijksmuseum, ou as cenas de Van Gogh, no vizinho Museu Van Gogh, não há problema algum, com seus elevadores e banheiros adequados e ingresso free. Já na Casa de Anne Frank não é possível chegar ao ponto exato onde a menina judia escrevia suas cartas, escondida durante a ocupação alemã, na Segunda Guerra Mundial, pois há escadas. No Museu do Sexo também não consegui atingir, digamos, o clímax. Lá é impossível conferir o segundo e o terceiro andares. Pelo menos não me cobraram os € 3 da entrada.

A Holanda vai agora ficando para trás, e é hora de curtir a hospitalidade alemã. Ao chegar a Berlim, de gente educadíssima, metrôs e trens perfeitos, banheiros largos e calçadas irrepreensíveis (e uísque a € 2, mas isso é outra história), não foi necessário pedir ajuda a ninguém. Fiquei no Pirate Hostel (Proskauerstrasse, 20, 49030/2180-7162, www.pirathostel.de; diárias desde € 10), amplo e adaptado. Experimente o restô-bar italiano Vapiano (Mittelstrasse 51, 49030/5015-4100, www.vapiano.com), com uma pizza de fazer inveja às casas do querido bairro paulistano da Mooca. Há um endereço perto do Portão de Brandemburgo e do Memorial do Holocausto, com seu labirinto de quase 3 mil pilares de concreto que arrepia qualquer um. O legal – e sinistro – é que a cadeira passa pelos corredores.

Os fãs de punk têm uma surpresa: um museu dos Ramones. Dá para fotografar manuscritos de letras, ver singles de nacionalidades estranhas, examinar as baquetas de Richie Ramone. Deficiente também paga ingresso, € 3,50, e tem acesso a todo o acervo, mas não encontra nenhum banheiro que preste. Para quem gosta de design, existe o museu da Escola Bauhaus, que criou muitos dos móveis que usamos hoje. A entrada também é cobrada (€ 6), mas há total estrutura para a cadeira. Nem poderia ser diferente no lugar em que, afinal, “forma é função”. Mas o melhor é descer no metrô Alexanderplatz e rumar para o acessível (e gratuito) Museu da DDR. Já estamos no domínio da ostalgie, a nostalgia pelos tempos duros da Alemanha comunista. O museu mostra símbolos como o carro Trabant e fotos. Berlim é um lugar onde sempre vamos dizer danke (obrigado), cadeirantes ou não. E ver cachorros sem coleira na rua.

E Don Corleone?

Na Itália, terra de meus ancestrais, meu ponto de partida era Milão, já que não havia como ir a Palermo num voo budget desde a Alemanha. E, já que a cidade era inevitável, fomos ver um Milan x Napoli. O placar de 1 a 1, com atuação fraca de “Dinho” Gaúcho, ficou em segundo plano, já que o que me espantou foi a organização com que 50 mil pessoas deixaram o Estádio San Siro. O ingresso é grátis para o deficiente – e também para o acompanhante. Basta se cadastrar no site acmilan.com e imprimir uma requisição para o jogo. Os lugares são maravilhosos, pertinho do gramado, bem diferente dos estádios e cinemas brasileiros, onde mal se consegue enxergar o espetáculo.

Por causa do jogo, preferimos ficar na região do estádio, no Piero Rotta (Via Salmoiraghi, 1, 3902/3926-7095; diárias desde € 19), albergue ao lado do metrô QT8. Na hora de pegar o ônibus, perrengue: o motorista blasfemou para fazer a rampa descer. Ele só precisava apertar um botão, mas foi extremamente mal-educado. Mau agouro que um jantar atrás do Duomo resolveu.

No avião para Palermo, vi sicilianos vibrarem e gritarem “Bravo!” na decolagem, no pouso e, depois, quando as malas chegaram à esteira. Do aeroporto de Palermo, embarca-se no trem até o centro. As ruínas e o Mar Mediterrâneo impressionam da janela. Quando se chega à Centrale, a Estação Central, não há nenhum fã de O Poderoso Chefão 3 que não se lembre dos personagens de Al Pacino e Sofia Coppola indo buscar Diane Keaton. Lá, outra curiosidade: um McDonald’s que vende pizza num combo que contém refrigerante e croquetes ou supli (bolinho de arroz recheado com queijo).

No Hotel Concordia (Via Roma, 72, 3991/623-0635, www.concordiahotel.info; diárias desde € 70), uma construção do século 18, problema com a reserva pelo www.hostelworld.com. O site não emitiu aviso de que eu uso cadeira de rodas; portanto, não reservou o cômodo adequado, e havia ainda escadas a enfrentar. Mas Enzo, o dono, e seu incansável faz-tudo Maurizio trataram de trocar nosso quarto assim que o acessível foi desocupado, de colocar uma rampa no térreo e de alargar, no braço, a porta do elevador. Até presente eles nos deram. Palermo é linda, as pessoas são muito gentis, mas o lixo se acumula em algumas ruas por pressão da Máfia. Um problema sério para mim, tanto que o pneu da minha cadeira de rodas furou. Por sorte havia uma bicicletaria ao lado, e por € 5 eu já estava rodando de novo. No geral, ruas e calçadas são bem melhores que em São Paulo, pois são planas, bem asfaltadas e com guias rebaixadas.

Pizzas, pães gigantes, queijos adocicados frescos, doces nada canônicos. Por ser uma cidade portuária, frutos do mar estão por todos os lados. Na tradicional e barata Trattoria Torremuzza (Via Torremuzza, ao lado da Igreja de Santa Maria della Pietà) ou no Gli Amanti (Piazzetta Colonna), dá para ser feliz misturando massa e peixe. A estrutura para cadeiras de rodas em Palermo me surpreendeu, pois não há um café sequer em que não se encontre um banheiro com a placa indicativa.

Para saber mais sobre alguns dos cenários de O Poderoso Chefão, meu filme favorito, resolvemos ir a Corleone, a menos de 60 quilômetros. Alugamos, por três dias, um Smart Eco – ele se desliga quando para no semáforo e volta com um toque no acelerador. Para minha surpresa, coubemos eu e Rebeca, a cadeira, duas malas e duas bolsas. Dirijo carros adaptados no Brasil, mas infelizmente não encontrei automóveis assim para locar nas cidades que visitei. Ainda bem que Rebeca dirige.

A cidade, cheia de vielas e mirantes, é bela e antiga. Como ficamos por apenas quatro horas, não precisei enfrentar as ruas estreitas fora do carro. Mas não se deve querer almoçar por ali às 15 horas, quando não há mais comida e é cedo para a pizza, que começa a ser servida duas ou três horas depois. Quem espera referências ao filme se decepciona, a não ser por uma foto ao lado de uma loja e pelo nome do vinho local.

De volta a Palermo, o ponto alto. Eu iria levar Rebeca à igreja e pedi-la em casamento. Fomos a dez e nenhuma me ‘‘queria’’: eram cheias de escadas. Até que soubemos da acessível Chiesa della Magione. Era uma sexta, 18h30. Chegamos lá logo depois de um casório. Noivos e família saíam enquanto entrávamos. Dissemos palavras bonitas um ao outro e nos casamos com aliança, mas sem padre. E nossa lua de mel informal foi a 70 quilômetros dali, em Cefalù, bela cidade colonizada por gregos e cartagineses. As praias são lindas, mas não há rampas para chegar à areia. Coma um penne alla arrabiata nos restaurantes que ficam de frente para o mar, todos com mesas nas calçadas. E veja a Catedral de Cefalù, de 1131, repleta de sarcófagos e mosaicos no estilo bizantino.

The Clash e bacalhau

Em Londres, a garoa jogou contra. Mas a favor jogaram os ônibus vermelhos, todos com rampa. Quando chegamos ao Clink Hostel (78, King Cross Rd., 44-20/7183 9400, www.clinkhostel.com; diárias desde £ 20), em plena madrugada, o russo da recepção só queria nos abrigar às 14 horas. Precisou outro funcionário liberar o check-in. Então fomos para nossa… cela. É que, até 1997, lá funcionava o Tribunal Clerkenwell, onde até dois músicos da banda The Clash foram julgados por matar pombos de um adestrador. O quarto, minúsculo, tinha uma pequena e alta janela, um beliche e uma torneira. E um banheiro adequado, mas sem chuveiro. O jeito foi usar o toalete coletivo: descer da cadeira e me arrastar para dentro do boxe sobre o assoalho áspero, o que ralou meus joelhos. Pior: a água do chuveiro parava de cair a cada meio minuto, e era preciso ficar apertando o botão.

A facilidade do transporte e as calçadas nos incentivaram a fazer programas de turista. Pubs mil, sebos em Notting Hill, compras na Oxford Street, o rock de Camden Town… E, numa manhã, levei um tombo por causa de um buraco no chão. Bati meu joelho e minha perna. Antes que eu tentasse me reerguer, dois ingleses me colocaram na cadeira. Mau momento que foi esquecido com uma ida à British Music Experience, na O2 Arena, em Greenwich. Inaugurado em 2009, o lugar tem tudo da música britânica. O mais legal são as aulas de guitarra, bateria e teclado em vídeo. Até um leigo toca. Dá para gravar o som e, com o código do seu ingresso, ouvir tudo no site depois.

Londres foi demais, o que já não dá para dizer de Lisboa. De Londres, troquei e-mails com o filho do dono do Hotel Portuense, que me garantiu que o lugar era acessível. Mentira. Sem falar dos degraus, o banheiro era inviável. As ruas de Lisboa são bonitas mas nada amigáveis. Pelo menos me dei bem com o bacalhau. Com batatas e legumes, custou € 7 no restaurante Casa do Alentejo (Rua Portas de Santo Antão, 58, www.casadoalentejo.pt). E não deu para deixar de ficar de bobeira vendo o Tejo, após a visita à linda Torre de Belém.

Leia mais:

Europa em duas rodas – O essencial

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