Egito: simplesmente um Luxor

Ainda em ressaca dos dias de luta de 2011, o Egito é nada menos que exuberante: dos templos de Luxor e Karnak às Pirâmides de Gizé, milênios de uma história fascinante se exibem para o turista. Mari Campos encontrou uma Praça Tahrir vazia e um país pedindo para ser visto, tocado, amado

“Bem-vinda! Você quer falar em inglês, espanhol ou português?”, perguntou- me Mahmoud Ali, funcionário da agência de receptivo que foi me buscar no aeroporto do Cairo, no Egito. Era um antídoto à tensão do momento: além de desembarcar à noite sozinha na gigantesca capital egípcia – 14 milhões de habitantes em sua região metropolitana –, eu chegava a um lugar que não saía do noticiário por causa de sua turbulência. Amigos haviam chamado de “maluquice” essa viagem. Por isso, encontrar um guia local disposto a falar minha própria língua era reconfortante.

Com Ali atravessei incólume o exército de taxistas e guias que ficam todos os dias na área de desembarque do aeroporto. Intrusivos, eles parecem ter se multiplicado na proporção inversa do sumiço dos visitantes – em 2011, segundo dados oficiais, um terço dos quase 15 milhões de estrangeiros que foram ao Egito no ano anterior evaporou. Em 2012 houve leve recuperação. Mas, mesmo em tempos bicudos, o Egito recebe o dobro dos visitantes do Brasil. A diminuição do fluxo turístico melhorou os preços dos hotéis, cruzeiros e pacotes. E, quanto a se vir arrastado para o meio de uma praça de guerra, isso parece pouco provável. Encontrei a Praça Tahrir, o local onde milhões acamparam para derrubar o ditador Hosni Mubarak em 2011, em mood “manhã de domingo”. A política segue dominando as conversas, dadas as dificuldades do presidente eleito Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana. Os egípcios, como é justo, se preocupam muito mais com seu presente do que com seus 5 mil anos de história.

Vizinha à Praça Tahrir está uma das atrações mais visitadas do Cairo, o Museu Egípcio, famoso pelas múmias e pelos objetos encontrados na tumba de Tutancâmon, o faraó que subiu ao trono com 9 anos. Apesar da fiscalização na entrada, cumpre dizer que o lugar está meio ao Alá dará. Muitos objetos de sua centena de salas não são legendados, o ar-condicionado não funciona nem tampouco há funcionários para impedir que os visitantes toquem nas peças. Segundo o governo egípcio, um novo prédio deve sair até 2016. O museu abriu em 1902, antes mesmo da chegada de alguns dos maiores tesouros do acervo, como a tumba do faraó-menino Tut. Já a sala das múmias reais não surpreende tanto quem já esteve nas alas egípcias do Louvre e do British Museum, ainda mais com a cobrança suplementar de EGP (libras egípcias) 100 (cerca de R$ 30).

As buzinas e o Nilo

Se a Praça Tahrir não tem mais agitação revolucionária, o Cairo todo me pareceu vibrante, cosmopolita, sedutor. E, claro, congestionado. Buzina-se a toda hora, como se as ruas tivessem sido invadidas por taxistas limenhos. Ir de uma margem à outra do Nilo pode durar uma eternidade. A capital egípcia avança a leste e a oeste, tendo o grande rio como eixo central. Não é injusto imaginá-lo como um Sena ou um Tâmisa alargado, ainda que sem o ornato das belas pontes de Paris e Londres. Bem, você pode estar pensando o que fazia uma estrangeira sozinha em um país no qual 90% da população é muçulmana. Mas não me senti insegura. Planejei minhas saídas noturnas e andei com guias. No Egito, conheci uma gente festeira e bem-humorada. Gente que adora o Brasil, a mulher brasileira, nosso futebol e “Lula da Silva”, que eles têm na conta de grande líder.

Um Cairo sem caos, no Egito Um Cairo sem caos, no Egito

Um Cairo sem caos, no Egito (/)

Um Cairo sem caos – Foto: @GlowimaGes/Hilgert Michael

Ofuscada pelas atrações da Antiguidade, a Cairo islâmica é programa para vários dias. A profusão de minaretes, todos da mesma cor de areia, emociona. A Mesquita de Salah al-Din, no topo de uma das raras colinas da cidade, proporciona também uma das vistas mais bonitas da capital. Delimitada por uma cidadela, serviu como fortaleza contra os cruzados no século 12 e, até o século 19, como residência real. Já a Mesquita do Sultan Hassan, datada do século 14, é considerada uma das obras-primas da arquitetura islâmica e funcionou como escola (madrassa). E a Mesquita de Mohammed Ali é, sem dúvida, um dos postais do Cairo, com suas cúpulas e seus grandes minaretes visíveis desde grande parte da cidade. Por dentro, tem lindos detalhes, incluindo um púlpito duplo, uma raridade. Ali as visitas turísticas são comuns (custam cerca de R$ 12) e, no dia da minha, nem sequer me pediram para cobrir a cabeça. Mas tirar os sapatos e usar roupas que cubram braços e pernas é compulsório. Ali, meu tímido guia Sayed Mahmoud sentou-se sobre o tapete e falou sobre a “etiqueta” local: para ele, faz sentido a separação entre homens e mulheres nas mesquitas. Assim, os cavalheiros não ficam “desconcertados”. Depois disso, partimos para algo mais secular: a visita ao labiríntico souk de Khan el-Khalili. Um dos maiores do mundo, esse bazar do século 14 também sofe com a crise política que afastou os estrangeiros. A parte mais movimentada e colorida, que vende de pães (dispostos sobre uma toalha no chão) a enxoval para noivas, é restrita aos locais, mas a companhia de um guia menos ortodoxo abre portas. Para os turistas, há uma ala com suvenires…

Um programa emblemático de quem visita Khan el-Khalili é ir ao café El Fishawy, que ficou famoso por ser o preferido do escritor egípcio Naguib Mahfouz, prêmio Nobel de literatura de 1988 e autor da Trilogia do Cairo. Ali se toma chai, o típico chá de menta local, ou café, na companhia, neste caso, de tabaco, fumado na shisha (narguilé). A decoração do lugar é cativante, com muita madeira trabalhada, espelhos e bordados. Os garçons andam para lá e para cá arrastando narguilés imensos e gritando, estranhamente em inglês, os sabores pedidos (“apple”, “apricot”…). Nunca vi uma dessas corridas de garçons, mas imagino que a dificuldade aumentaria sobremaneira se ainda tivessem de carregar narguilés. Ali, ao contrário dos demais cafés, mulheres, as egípcias inclusive, são bem-vindas para se sentar, fumar e bater papo, mesmo com outros homens.

Ê, faraó!

O Cairo muçulmano e fumacento daria lugar novamente ao Egito dos faraós na manhã seguinte. Eu ia visitar o Parque das Pirâmides, em Gizé, no lado oeste do Nilo – o lado do Sol poente, ou da morte, onde estão as tumbas dos faraós (a leste ficam templos e prédios administrativos). “Quem vem agora tira as melhores fotos, não é?”, disse Marwan, um condutor de camelo, ao me ver empolgada com aquele cenário surpreendentemente vazio, para felicidade da minha objetiva. Havia ali, gravitando em torno da única das Sete Maravilhas da Antiguidade ainda em bom estado, mais oferta (guias, vendedores) do que demanda (turistas). Com meu fiel guia Sayed, caminhei pelo parque, expressão máxima da primeira fase da civilização egípcia, o Antigo Império. A principal pirâmide, a de Quéops, finalizada 25 séculos antes de Cristo, chegou a ter 146 metros de altura (um edifício de 48 andares), o que fez dela a estrutura mais alta criada pelo homem durante quase quatro milênios. Não havia fila para entrar na pirâmide nem muvuca nos corredores baixos e estreitos de seu interior nada indicado para claustrofóbicos. Do outro lado do parque, a Esfinge impressionou pelo tamanhinho: comparados a Quéops, seus 20 metros de altura são quase nada – apesar de a Esfinge ser a maior escultura já feita em um único bloco de pedra. Eu havia me preparado, mas não precisei responder charadas à cabeça leonina, que naquele dia dava sombra para adolescentes que, como disse Sayed, estavam ali para “namorar escondido”. “As coisas estão mudando rápido aqui no Egito”, arrematou Sayed, como se seguisse o diálogo escrito por um roteirista de filme B.

Do Cairo, voei para Assuã, 982 quilômetros ao sul, para embarcar no clássico cruzeiro pelo Nilo. Subiria o rio até Luxor, seguindo a correnteza. Meu barco comportava 80 passageiros, mas éramos só 16 a bordo. Se tiver tempo, procure chegar um dia antes a Assuã para esticar até Abu Simbel (a 3h30 de ônibus), quase na fronteira com o Sudão, onde estão o Grande Templo de Ramsés 2º e o bem menor Templo de Hator, com as estátuas de Ramsés e Nefertari. De volta a Assuã, um chá no imponente Sofitel Old Cataract, onde Agatha Christie escreveu seu célebre Morte no Nilo, dá argumentos para encarar essa viagem ao Egito da maneira mais slow travel possível.

Simetrias da pirâmide de Quéops, no Egito Simetrias da pirâmide de Quéops, no Egito

Simetrias da pirâmide de Quéops, no Egito (/)

Simetrias da pirâmide de Quéops, no Egito – Foto: Richard I’anson/Getty

O Nilo, como se sabe, corre por mais de 6 mil quilômetros, fertilizando regiões desérticas – todo o Egito, grosso modo. Daí tantos monumentos às suas margens. Vimos o Obelisco Inacabado, de 42 metros de altura, que jamais esteve de pé, pois não suportou o próprio peso; o adorável Templo de Philae, dedicado a Osíris e cheio de colunas e paredes tomadas por hieróglifos, testemunhas das invasões helênicas e romanas; Kom Ombo, o único templo egípcio dedicado a duas divindades, Sobek (representado por um crocodilo) e Haroéris (falcão). O local guarda até hoje um “nilômetro”, poço cuja escadaria leva ao lençol feático do Nilo – servia para medir as oscilações do rio e prever inundações.

Depois paramos em Edfu, onde fica o imenso Templo de Hórus, construído entre 237 e 57 a.C. Sua posição o salvou de muitas inundações do Nilo. Hoje conta com iluminação especial. Ehab, o ótimo guia do cruzeiro, explicou que a construção chegou a ficar soterrada por mais de 12 metros e que casas foram edificadas exatamente sobre o templo, descoberto no século 19.

Dito assim, parece que a única coisa que fazíamos no cruzeiro era descer do barco, conhecer mais um sítio arqueológico, subir a bordo de novo e parar outra vez logo depois. Mas muita coisa acontecia no barco. Havia aulas de culinária egípcia, festa a fantasia com show de dervixes, jantares típicos, palhaçadas da tripulação 100% masculina (os números de dança do ventre eram engraçadíssimos). Cardápio notável para muito mais que os três dias regulamentares.

E então chegamos a Luxor, a antiga Tebas, capital religiosa do Egito desde 2000 a.C. Ali está um dos maiores complexos religiosos do mundo, Karnak, que ocupa 2 quilômetros quadrados e abriga o Templo de Amon. Hoje com direito a espetáculo de luz e som noturno, é um dos monumentos mais visitados do país e, apesar de muito saqueado, ainda impressiona, sobretudo no grande eixo do templo formado por pátios e colunas colossais em forma de papiro. A chamada Avenida das Esfinges, com esfinges em suas duas margens por quase 3 quilômetros de extensão, serve como ligação entre Karnak e o Templo de Luxor.

Luxor, construído a mando de Ramsés 2º, colige referências de épocas e culturas diferentes (egípcia, greco-romana, copta, islâmica). Menor do que Karnak, impressiona pela diversidade de seus elementos. Chegar lá com o sol vermelho do crepúsculo foi totalmente demais: tive a impressão de ver três templos diferentes. A viagem não acabava ali, mas a partir daquele momento tudo que viesse era lucro, tudo que viesse era luxor.

Só na revista impressa e na versão digital do iba: dicas de quando ir, como chegar e quem leva para o Egito

 

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