Cortesia à parisiense

Ele achava que conhecia Paris como a palma da mão até o dia em que se perdeu. Mas pior do que se descobrir perdido foi pedir ajuda a um local

Conheço Paris como a palma da minha mão. Talvez por ter passado uma boa temporada lá nos anos de chumbo cá. Talvez porque era apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem amigos importantes, vindo do interior e que andava muito a pé.

Modéstia à parte, sou capaz de ver uma simples foto e identificar se é a Rue du Bac, onde numa esquina fica o mercado Grande Épicerie, ou se é a Rue Vieille-Du-Temple, lá no Marais. É só eu bater os olhos num pedacinho de parede de madeira e palha para reconhecer o restaurante Blue Elephant, na Rue de La Roquete, pertinho da Bastilha.

Mas, da última vez que fui a Paris, confesso que me perdi. Estava indo até a Avenida Champs Élysées para ver a iluminação de Natal. Atravessei a Ponte l’alma e fui andando. Passei pelo Hotel Montaigne e peguei a François I. Quando cheguei à esquina da Pierre Charron, pronto, estava completamente perdido. Sabia que não estava longe do meu destino, mas me senti perdidinho da silva.

Sorte que o sinal fechou e ao meu lado estava um simpático cavalheiro. ele olhava sério e fixo para a frente quando eu, ali ao seu lado, perguntei:

– Por favor, uma informação. Em que direção fica a Avenida Champs Élysées?

– Champs Élysées? Ulalá! Você está do outro lado da cidade, muito… muito longe de lá.

– Não é possível. Sei que é por aqui. Tenho certeza absoluta.

– O senhor está enganado. Vai ter de pegar um táxi porque nem metrô tem aqui.

Entrei meio em pânico: era tarde, e eu ali, pobre filho de Deus naquele frio, completamente perdido em Paris.

Foi quando o barulhinho do sinal parou e o verde abriu para os pedestres atravessarem. O simpático cavalheiro desdobrou sua bengala, que estava dobrada em três, e saiu batendo com ela pelo asfalto até sumir de vista.

Sem graça, olhei para os dois lados e segui reto. Dei alguns passos e, quando vi, estava na esquina da Champs Élysées. Pensei com os meus botões: ou ele estava brincando comigo ou achou que eu estava brincando com ele.

Perplexo, lembrei-me imediatamente daquele velho ditado do Millôr: em terra de olho, quem tem um cego… errei.

→ Alberto Villas* vai andar com uma bússola no bolso na próxima vez, just in case

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