Caminho de Santiago de Compostela, novo livro da Viagem e Turismo

"Se eu Quiser Falar com Deus – Diário de um Peregrino Rumo a Santiago de Compostela", do executivo e psicanalista Dimas Mietto, está nas bancas e livrarias

Leia agora o capítulo Primeiros Passos e o primeiro dia de peregrinação do autor:

Existe uma curiosidade mística sobre o Caminho de Santiago de Compostela, e quando voltei da peregrinação recebi uma avalanche de perguntas. Geralmente convido as pessoas a se sentarem ao meu lado para que eu possa contar e mostrar essa história que mudou minha vida. Ao longo de 675 km, fui passando por experiências únicas e tirei desses momentos 28 lições que agrupei  em cinco grandes tópicos: O Divino Está Presente, Tristeza É Como Sujeira, Relacionamentos São Difíceis, O Corpo É Frágil e Maturidade Requer Aceitação.

Fiquei interessado pela peregrinação há 15 anos, quando estive na cidade de Santiago de Compostela, na Espanha. Ao visitar sua catedral, notei uma peregrina que, sentada no chão, chorava sem parar. Quando passei, ela levantou a cabeça e me olhou bem no fundo da alma. Foi desconcertante e nunca mais esqueci aquele chamado.

Sou engenheiro, psicanalista e trabalho em uma grande empresa. Certo dia fui intimado a tirar 30 dias de férias. Confesso que fiquei aborrecido; tantos dias longe dos meus pacientes e da correria do escritório não seria bom, mas, certo do inevitável, resolvi viajar. Sentia vontade de ficar perto da natureza e de fazer trilhas. Andar por um mês? Isso é uma longa caminhada, até parece uma peregrinação. Por que não vou para Santiago? Foi assim que o velho chamado voltou.”

Uma fileira de tulipas se estende da base ao centro da foto, com uma estrada de terra à direita e um riacho e grama à esquerda Tulipas vermelhas marcam o caminho

Tulipas vermelhas marcam o caminho (Dimas Mietto/Viagem e Turismo)

Logo de cara, descobri que existem muitos caminhos, talvez mais de 100. O mais famoso é o francês, saindo de Saint-Jean-Pied-de-Port, mas também tem o primitivo, o do norte, o do leste, o inglês e o de Portugal, que tem pelo menos oito rotas distintas. Escolhi o lusitano, pois, além da facilidade da língua, sempre gostei da cultura, do povo e da gastronomia portuguesa. Essa rota, longa e com poucos peregrinos, se mostrou bem mais difícil do que eu imaginava nos primeiros dez dias.

A segunda decisão importante foi a data de partida. Como adoro flores, fui na primavera: simples assim. Cada época tem sua beleza e sua dificuldade. Conheci um peregrino que escolheu o inverno e me contou que a sensação de passar frio todos os dias fora horrível, mas fizera com que deixasse de ser um resmungão.

O que levar foi uma preocupação. Escolhi o mínimo de roupa: cinco camisetas, três pares de meias, três cuecas, duas calças-bermudas, uma toalha minúscula de alpinista, um boné legionário (aquele que tem uma aba que cobre o pescoço), uma blusa fleece, uma calça e capa de chuva. Minha mochila começou com 6 kg e ao longo do mês ainda consegui me livrar de algumas coisas.

Duas fatias de pão, uma lata de sardinhas e uma roda de queijo do tamanho da lata, sobre um fundo de papel plástico Almoço à base de pão, queijo e sardinha

Almoço à base de pão, queijo e sardinha (Dimas Mietto/Viagem e Turismo)

A escolha do calçado foi crucial. Escolhi botas impermeáveis. Tiro certo, pois se mostraram úteis e confortáveis. Em um dia de chuva, andei com um inglês que usava tênis de corrida. Bem, ele ficou com os pés encharcados por horas e era visível seu desconforto e frustração.

Antes de embarcar, me preparei fisicamente. Fiz aikido três vezes por semana e andei em média 15 km todos os sábados por três meses. Isso me ajudou, mas realmente só fiquei em forma após o quinto dia de caminhada.

Além do físico, de algum modo me preparei espiritualmente. Em uma rua do bairro onde moro havia uma árvore seca e de lá retirei um galho. A partir desse pedaço de madeira, esculpi com meu canivete suíço um pequeno crucifixo. Foram semanas de trabalho, e durante as horas de concentração pensava na peregrinação. Esse símbolo católico me acompanhou durante todos os dias.

Fiz uma lista no Spotify com as 100 músicas de que mais gosto e foi uma delícia ouvi-las enquanto caminhava.

Levei € 1.500 em espécie e um cartão de crédito guardados em um money belt. Foi mais do que o suficiente, pois gastei entre estada e refeições menos que € 40 por dia. Não há onde gastar na peregrinação.

Três portas vistas de um ângulo lateral. Sobre a porta central, uma placa com os dizeres "Albergue-Portela" está posicionada, e há dois brasões pintados nos muros entre as portas. O penúltimo albergue antes de Santiago

O penúltimo albergue antes de Santiago (Dimas Mietto/Viagem e Turismo)

Cheguei a Lisboa no sábado pela manhã e aproveitei esse dia e o domingo para andar pela cidade e visitar alguns pontos turísticos. Esse tempo foi importante para me recuperar da viagem e me acostumar ao novo fuso horário.

A caminhada oficialmente começou quando comprei por € 2 na Catedral de Lisboa o passaporte do peregrino e recebi meu primeiro carimbo. Esse documento, além de dar acesso aos albergues, serviu para registrar o trajeto e o ritmo na peregrinação. Geralmente coletava dois carimbos por dia: um no local onde dormia e o outro onde almoçava. O passaporte tinha espaço para 48 registros. Em Santiago, ele é obrigatório para requerer no Centro Internacional do Peregrino a Compostela, um tipo de diploma da peregrinação.

Com o passaporte em mãos, resolvi ficar e assistir à missa de domingo. Ainda bem que me sentei em uma das últimas fileiras. Tranquilo, admirava a beleza interna e escutava sem grandes pretensões a liturgia, quando o padre falou: “Você não precisa explicar Deus, basta senti-Lo”. Aquela frase me tocou de tal maneira que tive um acesso incontrolável de choro. Soluçava tão alto que pus a mão na boca para tentar abafar o som e diminuir minha vergonha. Aos poucos, segurando meu crucifixo fortemente, me acalmei. Deixei a catedral perplexo com a minha reação e voltei meio sem rumo para o hostel.

Fui dormir com um sentimento estranho e, para não esquecer o que ouvira na catedral, resolvi escrever a frase em uma folha de papel. No dia seguinte, compraria um bloquinho, que daria origem a um pequeno diário. À noite, pensei:

“Você não precisa explicar Deus, basta senti-Lo”.

Uma concha esculpida no chão, com a palavra "Caminho" acima e "de Santiago" abaixo. Em frente à concha estão duas botas, com os bicos apontando em sua direção. Botas a caminho de Santiago

Botas a caminho de Santiago (Dimas Mietto/Viagem e Turismo)

1º dia

De Lisboa a Alhandra

Distância: 40 km

Acordei cedo e parti. No Caminho se anda por cidades, vilas, estradas e matas sempre procurando e seguindo as setas amarelas. Elas aparecem pintadas em muros, postes, árvores e até no chão. Em alguns lugares é possível encontrá-las a cada 30 metros, em outros a cada quilômetro. Pois bem, quando se caminha por apenas 15 minutos sem avistá-las é provável que se esteja perdido. Parece pouco tempo, mas isso representa 2 km fora da rota.

Depois de já ter andado 18 km, me perdi. Nessa hora encontrei Luigi, um peregrino que dizia conhecer o trajeto. Fé no italiano, resolvi segui-lo, mas logo descobri que ele estava mais confuso do que eu. Aborrecido, decidi regressar até a última seta avistada. Ele, contrariado, seguiu em frente.

Depois de voltar por uma hora, finalmente achei o Caminho. Ele cruzava um campo colorido por flores brancas, amarelas e rosa e no final desse trecho, percorridos 28 km debaixo de um calor do Senegal, notei que estava mais uma vez perdido. Desta vez fiquei angustiado, eu me sentia exausto.

Mais uma hora e minhas pernas travaram. Olhei para os lados e não vi o menor sinal de gente. Foi assustador o sentimento de desamparo e solidão. Comecei a chorar silenciosamente e, cabisbaixo, vi lágrimas caindo nos meus pés. O que fazer? Fechei os olhos e lá do fundo saiu um pedido aflito e sincero: “Pai, hoje não preciso da sua ajuda, preciso que me carregue!” O que é isso, companheiro? Nem eu acreditei no que havia dito. Mas algo inexplicável aconteceu, meus pés destravaram, me senti entusiasmado e voltei a andar plenamente.

Interior de uma catedral, com tetos altos, pisos de ladrilho de diferentes padrões e grupos de pequenas colunas suportando a estrutura, assim como pinturas e estátuas de santos e madonas, grande parte em ouro. A belíssima Catedral de Santiago de Compostela, o ponto de chegada

A belíssima Catedral de Santiago de Compostela, o ponto de chegada (Dimas Mietto/Viagem e Turismo)

Após 10 km, comecei a achar que vivera uma alucinação. Passava ao lado de um pequeno canal e, como bravata, pedi: “Pai, se você está realmente ao meu lado, me mostre um peixe nesse rio”. Não deu tempo para me arrepender da súplica infantil, um peixe enorme apareceu, veio na minha direção, nadou em círculos e afundou vagarosamente.

Caminhei atordoado até chegar a uma pequena cidade e fui ao Corpo de Bombeiros. Uma jovem brigadista me explicou que ali não era mais um abrigo para peregrinos. Incrédulo, sentei, fechei os olhos e me lembrei do que havia pedido ao Pai, quando uma mão tocou meu ombro esquerdo. A jovem sorridente disse que um carro vermelhinho dos bombeiros viria me buscar e me levaria para outro alojamento, também dos bombeiros, em outra cidade, distante 4 km. No trajeto, dentro do veículo, pensei: se isso não é ser carregado, o que poderia ser? Tudo ganhou sentido nesse momento. O Caminho serviria para acordar uma fé adormecida há anos. Finalmente havia entendido o porquê da peregrinação.

Nesse dia, deitado em um colchão, iniciei meu diário com a mensagem:

“Às vezes precisamos ser carregados”.

O livro Se eu quiser falar com Deus – diário de um peregrino rumo a Santiago de Compostela, de Dimas Mietto, está à venda em livrarias, bancas de revista, na Amazon e na Saraiva.

A Viagem e Turismo também acaba de lançar Portugal e seus Sabores, à venda nas livrarias, bancas de revistas e na Amazon.

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