As capitais do capital

Moscou, a cidade com mais bilionários do planeta, e São Petersburgo, rica desde os tempos imperiais, mostram como o dinheiro – e o que ele traz – vem mudando a Rússia

Moscou e São Petersburgo, as maiores cidades russas, já foram sombrias, cheias de construções decadentes e vitrines vazias. Era assim em 1989, quando fui para lá pela primeira vez, ainda em tempos da perestroika de Mikhail Gorbachev. Comer era um martírio. Não se achavam lugares refinados, e o atendimento era sempre mal-humorado. Os hotéis seguiam a toada: anacrônicos, enormes, unfriendly no último. Como eram estatais e vigiar estrangeiros era importante para o Estado, cada andar tinha uma funcionária que controlava os hóspedes daquele piso. Se hoje o presidente Vladimir Putin tem pendores bastante controladores, os russos, felizmente, estão em outra. O país virou um destino em que as coisas acontecem no ritmo veloz do Ocidente – e da internet. Quase metade dos 143 milhões de habitantes da Rússia usa a rede. Mídias sociais “autóctones” são um sucesso, caso da VKontakte, da Moi Mir e da Odnoklassni.

Moscou é hoje a cidade com o maior número de bilionários do planeta segundo estudo publicado neste ano pela revista Forbes. A capital russa conta 84 ricaços, donos de um patrimônio somado de US$ 366 bilhões. Ficaram no chinelo Nova York (62 bilionários), Londres e Hong Kong (43 cada uma) e Istambul (37). É de imaginar que, para dar conta dessa clientela, um comércio de luxo tenha se estruturado. Os quarteirões próximos da Praça Vermelha, entre os centros comerciais GUM e TsUM e a ulitsa (rua) Tverskaya, sempre cheia de carros Rolls-Royce e Bentley, têm vitrines de marcas sofisticadas. Há shoppings enormes e grifes hoteleiras internacionais. Na Tverskaya está, por exemplo, o hotel Ritz-Carlton, em cujo topo fica o 02 Lounge, bar badalado com uma das grandes vistas da cidade – a fulgurante Praça Vermelha e os prédios do Kremlin ali embaixo. Mas pistas de dança animadas prescindem de vistas panorâmicas. O problema é passar pelo face control do brucutu que fica na porta – você precisa ser estiloso ou virar subitamente amigo do dono para entrar. Na Soho Rooms, vencido esse obstáculo, esteja preparado para uma dose de mojito a US$ 15 e para uma garrafa transparente do champanhe Cristal, marca francesa criada sob encomenda do czar russo Alexandre II, a US$ 1 000.

A praça vermelha, em Moscou, Rússia A praça vermelha, em Moscou, Rússia

A praça vermelha, em Moscou, Rússia (/)

A praça vermelha – Foto: Tim Makins

É fácil achar em Moscou ícones soviéticos transformados pelo capitalismo sem freios. A 7 quilômetros da Praça Vermelha, o velho e grandioso Centro de Exibição das Conquistas Econômicas Soviéticas, com pavilhões de explícita arquitetura Guerra Fria, hoje exibe novas conquistas: uma miríade de lojas de eletrônicos, roupas e quinquilharias made in China. Marcas muito simbólicas do capitalismo mundial também vão se multiplicando pela capital. A Starbucks tem 32 lojas, o McDonald’s, 10. Mas seria injusto dizer que só os templos do consumo bombam. A religião, proscrita nos tempos de Stálin, revive nas igrejas russas. Na Catedral do Cristo, o Salvador, construída para celebrar a vitória sobre Napoleão e posta ao chão em 1933, quando Stálin preferiu fazer ali a maior piscina do mundo, as missas ortodoxas são uma sensação. A igreja voltou a ter seus propósitos originais nos anos 1990 e recentemente serviu de cenário para um show polêmico da banda Pussy Riot, quando três integrantes do grupo cantaram “Nossa Senhora, livrai-nos de Putin”, frase que lhes valeu detenção sumária e dois anos de prisão após o julgamento.

Dinheiro, religião, internet. Para fazer frente a qualquer paraíso capitalista, só faltavam desigualdade social e sexo. Na Rússia, o kit veio completo. A capital vermelha não faria feio como uma hipotética capital da Luz Vermelha. Há pela cidade muitos bares de striptease e até um museu do sexo, o Tochka G (“Ponto G”, em russo), cujo signature dish são esculturas dos presidentes russo e americano, Vladimir Putin e Barack Obama, ambos alados e ambos nus, com “armas” em riste. Alexander Donskoy, curador e dono do espaço, disse à VT que seu museu é uma forma de protesto político. Ex-prefeito de Arkhangelsk, 1 000 quilômetros ao norte da capital russa, o candidato à Presidência em 2008 acabou condenado sob a acusação de falsificar documentos. “Tudo conspiração”, completou Donskoy. Para continuar atuando politicamente, decidiu fundar o Partido do Amor e seu museu. Além das obras de arte eróticas, uma sala de projeção exibe filmes sobre sexo e ao lado há uma sex shop variadíssima.

Uma das salas do Tochka G, o museu do sexo, em Moscou, Rússia Uma das salas do Tochka G, o museu do sexo, em Moscou, Rússia

Uma das salas do Tochka G, o museu do sexo, em Moscou, Rússia (/)

Uma das salas do Tochka G, o museu do sexo – Foto: Fernando Valeika

Outro problema comum a países emergentes – ou reemergentes, no caso–, o trânsito russo piorou sobremaneira nesses novos tempos. O metrô moscovita, contudo, dá conta do recado. Ele na verdade nem precisava ser tão eficiente e extenso para atrair passageiros. A julgar por algumas de suas 180 estações, como a Komsomolskaya, a Mayakovskaya, a Kievskaya, a Arbatskaya, a Ploshad Revolutsi e a Park Kultury, é de longe o mais bonito do mundo. As estações são verdadeiras galerias de arte informais, com suas esculturas, seus baixos-relevos e seus tetos decorados. O bilhete simples de metrô custa 30 rublos (R$ 2, em julho). Faça uma colinha, já que as placas são sinalizadas em alfabeto cirílico. Entre suas idas e vindas, por cima ou por baixo da terra, será inevitável passar pelo Kremlin, a fortaleza dos czares. Com suas muralhas e seus prédios pintados de vermelho, é uma das raras paisagens da capital que continuam como nos velhos tempos, com seus museus riquíssimos, cheios de ícones (a pintura sacra russa), pedras preciosas e os famosos ovos de Fabergé. Prepare um extra se quiser usar a câmera: é prática comum dos museus russos cobrar de quem filma ou fotografa. O Kremlin está emuma das laterais da Praça Vermelha, que tem em uma das pontas a espetacular Catedral de São Basílio, a das cúpulas coloridas. A câmera não tem serventia– é proibida – em outra atração local, o famoso mausoléu de Lênin. O corpo preservado quimicamente do revolucionário Vladimir Ilitch, apesar das reiteradas conversas de que finalmente seria enterrado, ali permanece, quase 90 anos após sua morte, com seu ar de boneco de cera. Siga as regras de conduta – a mais complicada delas é não colocar as mãos nos bolsos.

A estação de metrô Kievskaya, em Moscou, Rússia A estação de metrô Kievskaya, em Moscou, Rússia

A estação de metrô Kievskaya, em Moscou, Rússia (/)

A estação de metrô Kievskaya – Foto: Dag Sundberg

A carta imperial

Lênin está em Moscou, mas gostaria mesmo de ter sido enterrado ao lado do túmulo da mãe, em São Petersburgo, a cidade onde carimbou seu passaporte para a história após o famoso desembarque na estação de trem Finlândia, em 1917. Imponente como Paris, suntuosa como Viena, bem preservada como Praga, a antiga capital russa é um must see europeu. Se Moscou pulsa – para o bem e para o mal – no ritmo da história contemporânea, São Petersburgo segue na cadência de seu passado imperial. Restaurados, seus palacetes barrocos e neoclássicos, assinados pelos italianos Bartolomeo Rastrelli e Carlo Rossi, estão tinindo. Com seus 2,5 quilômetros muito bem-cuidados, a Nevsky Prospekt segue como a avenida mais bonita da Rússia. E, para dar um colorido ainda maior às lindas construções da Nevksi, como, por exemplo, a Catedral Kazan e a Igreja do Sangue Derramado, os russos, hoje uma das nacionalidades que mais gastam no exterior, vestem grifes internacionais e locais, como Jana Sagetti, Ilya Chelyshev e Christova & Endeurova.

A agitação fashion indica também uma noite agitada. Bebi alguns dos 213 rótulos de vodca do Russian Vodka Room, ouvi ritmos indianos e hip hop no Zoccolo, rock progressivo no Fishfabrique, tecno no Club Griboedov. Em todas as casas vi mulheres lindíssimas e ouvi, assim que me identifiquei como brasileiro, conversas entusiasmadas sobre o Hulk, não o fortão esverdeado, mas o atacante da seleção brasileira campeã da Copa das Confederações. Apesar de sempre vaiado por alguns torcedores ultranacionalistas, Hulk é ídolo do Zenit, o time mais popular da cidade, que, como outros clubes russos, agora importa craques (ou cabeças de bagre) do futebol mundial a peso de ouro: pelo brasileiro, o Zenit pagou R$ 100 milhões ao Porto. Mas o sujeito mais popular da cidade, justiça seja feita, é Pavel Durov, 29 anos, fundador do VKontakte, a principal rede social russa, com design escarrado do Facebook. O sujeito parece ser bem mais carismático do que Mark Zuckerberg: em um dia ordinário, Durov decidiu brincar com aviões de papel. E jogou da janela de seu escritório aviõezinhos feitos com notas de 5 000 rublos (R$ 340), as mais valiosas hoje em circulação no país.

A igreja do Sangue Derramado, em São Petersburgo, Rússia A igreja do Sangue Derramado, em São Petersburgo, Rússia

A igreja do Sangue Derramado, em São Petersburgo, Rússia (/)

A igreja do Sangue Derramado – Foto: Jon Hicks

Se há uma Rússia nova a se exibir em São Petersburgo, é preciso também reverenciar o que é eterno. Caso do Hermitage, o museu que surgiu no século 18 como coleção privada da czarina Catarina, a Grande, e hoje ocupa 1 057 salas abertas ao público. Como é impossível ver tudo, uma escolha viável é ficar com as 87 pinturas do período impressionista e pós-impressionista, um conjunto tomado dos alemães no fim da Segunda Guerra. Estão lá obras-primas como Place de la Concorde, do francês Edgar Degas, a famosa versão “Hermitage” de A Dança, de Henri Matisse, e quadros de Renoir, Toulouse-Lautrec e seus contemporâneos. A meia hora de caminhada dali fica outra atração estelar: o novo Teatro Mariinsky, anexo ao antigo prédio, de 1860. Foi inaugurado em maio, a um custo de US$ 700 milhões. Projeto do arquiteto canadense Jack Diamond e feito de vidro e calcário, abriu suas portas reacendendo a eterna rivalidade com o moscovita Bolshoi, que também acaba de passar por uma reforma monstro. No Mariinsky em que pisaram Anna Pavlova, Vaslav Nijinsky, Rudolf Nureyev e Mikhail Baryshnikov, quem me hipnotizou foi a ruiva Ulyana Lopatkina. Ela quase levitava no palco durante uma apresentação do balé O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky.

São Petersburgo, que é chamada de Veneza do Norte por causa de seus canais, está para muitos em seu melhor momento: nos dias de verão de julho e agosto, o Sol se põe muito tarde, lá pelas 11 da noite. Passear pelos canais ou pela beira do Rio Neva é sempre uma delícia. Cuidado no metrô, contudo. Eu fui atacado por pickpockets na estação Nevsky Prospekt e só não perdi passaporte e cartões porque eles estavam em bolsos internos. Mas esse contratempo não foi grande o suficiente para me parar, e fui conhecer Petrodvorets (a antiga Peterhof), a cidadezinha a 35 quilômetros (ou a 45 minutos de barco) onde o czar Pedro, o Grande, mandou construir sua segunda residência. Com palácios e jardins bem-cuidados e 173 fontes, é a tradução russa da grandeza do Palácio de Versalhes. Na volta a São Petersburgo, fiz questão de parar diante da estátua equestre do czar, espetacular monumento de bronze, encomendado por Catarina, a Grande, que retrata o homem que sonhou com esse incrível cenário. Pedro foi o primeiro a pensar na Rússia como um país enorme, fabuloso e pujante. Um país que vive a dar voltas na história.

 

 

Leia mais:

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Rússia pátria-mãe ##— Um guia da Rússia para os franceses

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Maravilhas subterrâneas ##— Conheça as belas estações de metrô de Moscou, que mais parecem galerias de arte

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