Ao escritor, com carinho

Uma viagem a bordo de um navio pelo Amazonas sem internet ou celular, mas na companhia de grandes autores

O editor da Viagem e Turismo embarcou e repetiria a dose, ainda que tenha sentido a falta do chileno Alejandro Zambra, a quem esta reportagem é dedicada

Caro Alejandro Zambra,

Você não me conhece, mas eu acho que o conheço. Sou seu fã, e bastaram duas horas para ter me tornado. Li a sua novela Bonsai de uma tacada no voo entre São Paulo e Manaus a caminho do Navegar É Preciso, cruzeiro literário de que você participaria. Aquele primeiro parágrafo que abre com “No final ela morre e ele fica sozinho”, e termina com “o resto é literatura” foi uma das melhores aberturas que eu já li. Estava ansioso por dizer isso em viva voz, mas aí, quando embarcamos no pequeno navio Iberostar, em Manaus, rumo ao Arquipélago das Anavilhanas, soube que você passou mal e não conseguiu sair do Chile. Uma pena. Tomei a liberdade de te escrever pra contar como foi. Sei que a fase mais antipática que pode existir nesta hora é “Perdeu, papito”, mas eu não consigo achar outra.

Olha, essa ideia do Samuel, dono da Livraria da Vila, aqui de São Paulo, de reunir escritores e seus leitores e entocá-los dentro de um barco no Rio Negro para discutir literatura é muito boa, ainda que eu tivesse alguns temores (já falarei deles). Se na Flip, de que você participou no ano passado, a interação com autores já é grande porque a gente topa com muitos de vocês pelas ruas, no caso de um navio na Amazônia isso se radicaliza, ou melhor, se confina.Eu fiz alguns cruzeiros na vida, mas nunca como aquele. Primeiro porque o barco é pequeno, são 75 cabines, e éramos 80 pessoas. E segundo porque não rolou aquela chatice de sentarmos sempre na mesma mesa e com as mesmas pessoas na hora das refeições, o que é tão comum em cruzeiros. Os grupos fluíam, se intercambiavam, grazie a Dio. E, quando a interação era muita, era só tomar o rumo da cabine, todas com varanda, vista para o Rio Negro e brisa. Sem internet e sem sinal de celular.

A Praia do Tupe A Praia do Tupe

Não sei qual é sua familiaridade com os autores que estiveram no barco, mas admito que senti algum temor quando vi a escalação: Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna, Frei Betto, Xico Sá, você (o mais jovem da trupe) e Cadão Volpato, que fez a mediação das mesas. Eram gerações e propostas literárias tão diferentes, algo assim como o encontro do Negro e do Solimões, os rios que formam o Amazonas: eles se encostam, mas não se misturam por terem densidades diferentes. Mas eu estava enganado, e a camaradagem rolou solta durante os cinco dias.

Marina e Affonso são casados há 42 anos. Ela foi uma das primeiras vozes do feminismo no Brasil, tem mais de 40 livros publicados, de poemas a contos de fadas; Affonso é poeta, ensaísta e foi diretor da Biblioteca Nacional. O mais importante: eles são a tampa e a panela, como Simone e Sartre, Tarzan e Jane. Fiquei com a impressão de que o casamento dos dois não é nada monótono.E digo mais: acho que ainda hoje tem o mesmo fescor, se você me permite tal palavra, o mesmo frescor daqueles primeiros encontros entre Julio e Emilia, personagens do teu Bonsai. E a semelhança ainda vai um pouco além, porque Affonso, Marina, Julio e Emilia construíram suas relações em torno da literatura (suponho que Affonso, diferentemente do Julio, jamais tenha mentido para a Marina dizendo que leu Marcel Proust só para impressioná-la). A Marina contou que nas viagens de carro que eles fazem ela vai o tempo inteiro desenrolando as ideias dela de livros. Não é bacana? Deslize um pouco esta página e dê uma olhada na foto deles. Aquele foi o momento em que o navio partiu de Manaus e estava prestes a cruzar a ponte de 2 quilômetros sobre o Rio Negro. Lá pelas tantas ele se apoiou com os cotovelos no parapeito e ela o abraçou por trás.

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Marina Colasanti e Affonso Romano na partida do navio Marina Colasanti e Affonso Romano na partida do navio

Na programação houve também um plus, ou melhor, dois. O Frei Betto, que de primeira pediu para ser chamado de Betto, conduziu aulas de meditação todas as manhãs; e a atriz Clarice Niskier, que não estava na programação oficial e foi como passageira junto com o marido e o filho, fez a leitura do monólogo A Lista, da canadense Jennifer Trembley, que ela está ensaiando. No ano passado, Clarice encenou a bordo do Iberostar A Alma Imoral, peça que está há oito anos em cartaz e a que eu assisti duas vezes – e me emocionei nas duas. No café da manhã do segundo dia, Clarice sentou ao meu lado. Eu sempre fui ruim pra puxar papo, não me vinha na cabeça nenhum assunto que não fosse banal (aliás, qual não é?), até que eu disse que havia visto a peça duas vezes, ela quis saber onde, e o papo enveredou para café com muito leite, pouco leite, um pingo de leite; outra garota falou em rinoplastia, Clarice disse que jamais operaria o nariz, e por aí foi.

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A leitura do monólogo que ela fez no dia seguinte deixou muita gente com os olhos marejados, fato que se repetiu no bate-papo entre Marina e Cadão. Marina declamou de última hora um conto emocionante seu, inspirado numa cena que ela havia testemunhado em Tânger: mulheres marroquinas no topo de um rochedo a esperar a volta dos amados que as haviam deixado para tentar a sorte na Espanha. Na saída do auditório, o Xico Sá, trovador, bebum e observador da alma feminina, disse em uma rodinha que chorar em público revela a mulher superior e que as verdadeiras são aquelas que mesmo “na firma e de terninho” não têm medo de desabar. Mas, olha, não vi marmanjo que tenha economizado nas lágrimas nas duas ocasiões.

Aliás, acho que você e o Xico teriam figurinhas pra trocar, tanto no campo futebolístico – você com o seu Colo-Colo e ele com o Icasa, de Juazeiro do Norte – quanto sobre relacionamentos. As noites no deque do navio foram bastante instrutivas nesse quesito, muito por culpa do open bar. Se tiver algum dia a chance de conhecer o Xico, peça para ele te contar sobre como um ovo poché é capaz de arruinar um casamento.

Cadão Volpato e Xico Sá em uma das mesas do evento Cadão Volpato e Xico Sá em uma das mesas do evento

Houve também os passeios, claro. Não sei se você sabe, eu não sabia, mas nessa época do ano o Rio Negro sobe cerca de 10 metros e inunda a floresta, deixando em muitos pontos só as copas das árvores de fora. Surreal. E nas margens dos rios se formam igarapés, canais estreitos cercados por árvores por onde só dá para passar em barcos pequenos. Bom, estávamos em um desses barcos prestes a adentrar um igarapé quando o nosso guia, o figuraça do Piro, pediu silêncio. “A gente vai entrar num lugar sagrado”, falou. Dito isso, ele se agachou na proa da lancha como quem faz uma reverência, fechou os olhos, e ninguém mais deu um pio. Dali em diante foi como se a realidade tivesse sido suspensa, uma coisa meio Avatar. Escutávamos apenas o gorgolejar da hélice do barco enquanto passávamos rente a tantas árvores. Foi aí que eu lembrei das histórias que o Julián inventa para a enteada dormir no teu último livro, A Vida Privada das Árvores, que eu comprei e li no barco. Se lá o baobá conversa com um álamo quando ninguém está vendo, aqui seria um macucu-do-rio-negro trocando ideia com uma carapanaúba. E de repente surgiria uma enguia que daria um choque no macucu, que não teria escolha senão deixar caírem os frutos que ele tão vaidoso exibia. E os botos cor-de-rosa que vimos depois em Novo Airão acho que também funcionariam em alguma história.

A ponte sobre o Rio Negro A ponte sobre o Rio Negro, em Manaus

Voltando agora aos debates, foi tocante também ouvir o testemunho do Betto sobre os anos dele na prisão e dos expedientes que inventou para não enlouquecer (estou curioso pra ler o teu Formas de Voltar para Casa, que você ambienta nos anos de chumbo da ditadura Pinochet). As pessoas que viviam na prisão com a mente lá fora ou que dormiam o dia inteiro na cela foram as que tiveram mais dificuldade de se adaptar depois de soltas, disse o Betto. Mas, pra mim, e acho que pra muita gente, o momento que entrou para a história do cruzeiro foi quando ele disse: “Sou sambista e tenho ritmo no corpo”. O que parecia uma boutade se revelou outra coisa à noite, quando houve show do grupo Projeto Coisa Fina, uma gurizada talentosíssima que toca composições de Moacir Santos, jazzista brasileiro que fez carreira nos Estados Unidos. Assim que o saxofonista anunciou que a última música era para o Betto, a audiência ficou excitada. O frei com suposto samba no pé hesitou, hesitou, e, após ouvir de alguém um “Solta o freio, Betto” e de outro “O papa não está vendo”, ele foi até o palco e… Meu caro, o frei é neguinho, samba feito um mestre-sala.

A turma saindo para um dos passeios A turma saindo para um dos passeios

Você pode estar se perguntando o que fizeram no horário da sua mesa. Bom, coincidiu de o Cadão Volpato, que mediou muito bem os debates, estar lançando seu primeiro romance, Pessoas que Passam pelos Sonhos. Então foi a vez de o Xico mediar o papo, muito descontraído.

Bom, tempo livre foi o que menos tivemos nessa viagem, mas não reclamo. Quem sabe no ano que vem você participa… O Samuel, junto com o pessoal da Auroraeco, que organizou, está cogitando a Patagônia Chilena, mais perto daí.

Apareça! Grande abraço,

Fabrício

 

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