Imagem Blog Flanando por Paris Karina Jucá é escritora bissexta, tradutora e produtora cultural. Graduada em Letras, vive em Paris há mais de 4 anos e faz curso de história da arte no Museu de Belas Artes do Petit Palais. Aqui, ela vai ajudar a fazer seus euros renderem
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Paris: uma visita ao Museu da Caça e da Natureza

Em meio às lojas trendy do Marais, um museu com animais empalhados propõe uma reflexão sobre a complexa relação entre homem e natureza

Por Karina Jucá
Atualizado em 8 out 2022, 10h31 - Publicado em 29 set 2022, 18h39

A velha ideia corrente de civilização que se baseia no paradoxo Homem versus Natureza vem cobrando o seu preço. Basta olhar as vitrines de uma pâtisserie como a Ladurée com suas caixinhas de bombom como se fossem jóias e suas várias camadas de embalagem: papelão, papel alumínio, papel de seda, celofane. De caçador a gourmet, o ser humano segue produzindo mais lixo e mais guerras em nome de interesses de nações, e de um progresso épico que vai muito além do que seria razoável. E embora já existam tecnologias limpas que acenam para a manutenção da vida na Terra, há mais teorias do que práticas de preservação e as pulsões de vida e de morte seguem fazendo parte desse impasse chamado homo sapiens. Por isso tudo, não é exatamente contraditório visitar em Paris o Musée de la Chase et de la Nature. 

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Em pleno Marais, bairro medieval repleto de lojinhas trendy e bares LGBTQI+, o Museu da Caça e da Natureza a princípio parece o oposto simétrico de Paris: animais selvagens empalhados, morte, floresta. Mas é de onde todos se nutrem, e que flerta com um tema caro aos franceses: a ecologia. Além disso, mais do que instrumento de alimentação e defesa, caçar era um verdadeiro esporte de fidalgos, com a sua ética, regras e objetos próprios, e ainda hoje uma prática que mantém um certo glamour nas muitas florestas preservadas da França. Quer dizer, o Museu da Caça e da Natureza não é só para quem tem curiosidade pela prática, mas para quem se interessa em mergulhar na investigação da nossa própria natureza ambígua e na história da civilização (e da barbárie), assim como temas transversais como a Idade Média, as guerras, o patriarcado, filmes de época, esportes sangrentos e até a culinária raiz.

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O homem caucasiano que adentra a mata misteriosa para dominar, aprende a temer, respeitar, admirar e estudar a natureza, como mostram os inúmeros registros – de desenhos botânicos às pinturas à óleo de natureza morta – que estão expostos no museu. Muitas florestas ainda estão de pé no território francês, como a de Fontainebleau. No entorno de Paris e Versailles há um cinturão verde espetacular que mais parece de outra época. 

No imaginário, ficamos entre uma cavalgada pela floresta de Madame Bovary em busca do terceiro amante, uma siesta ao ar fresco de um Van Gogh embevecido e já doente ou um episódio carniceiro de Game of Thrones (que o cinema do museu exibiu na pré-estréia da série). Também desperta em nós o cinéfilo ou o adolescente que curtia acampar. 

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O museu foi criado a partir da coleção particular de um casal de mecenas aficionado e se debruça sobre essa atividade politicamente incorreta. No fim, é um programa mais antropológico do que estético. A caça não só como fim e troféu de sobrevivência, mas como meio, ritual e aventura. Sediado em dois grandes hotéis particuliers, que não são hotéis como conhecemos, mas uma casa que pertenceu a aristocratas rurais, o museu às vezes parece um gabinete de curiosidades tipo freak show, como por exemplo minúsculas maquetes de caveiras nas posições do kama-sutra, caserna cenográfica e muita taxidermia. Pra quem gosta de detalhes, a memorabilia é extensa: tapeçarias, pinturas temáticas, retratos dos nobres “desportistas”, estudos de espécies, pólvora, selas, gaiolas, espingardas, facas, lunetas, espadas, armadilhas, medalhas, mapas, comedouros de prata para os cães da realeza. A museografia é lúdica, com surpresas que surgem através de pequenos olhos mágicos, caixas e fundos falsos, inúmeras gavetas com toda sorte de utensílios e artefatos. Uma espingarda de prata gravada com arabescos e outra de madeira e madrepérolas mostram essa necessidade do ser humano de transcender o próprio ato da simples sobrevivência. Ou seria de mascarar ou glorificar a morte?

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Todas estas questões são mostradas e até debatidas nas programações do museu em seminários, cinema e até em mostra de arte contemporânea. Na atual programação, chama a atenção um colóquio que vai acontecer em 2023 sobre Rosa Bonheur, pintora do século XIX que se especializou em retratar animais, principalmente vacas e cavalos, domésticos e selvagens, contrariando a temática floral, a única autorizada às mulheres de então. Bonheur, que faz parte da coleção permanente do Musée D’Orsay, foi a primeira a receber a consagração em vida porque pintava um tema considerado masculino melhor do que muitos homens, o que a levou a ser vista como uma artista de verdade para além das artes decorativas. E, aparte a coleção permanente, uma galeria de arte contemporânea que desdobra o mesmo tema até os limites do ready-made, aquele inventado por Marcel Duchamp e que alguns artistas ainda insistem em reeditar.

Enfim, o Museu da Caça e da Natureza é menos uma ode à “selvageria” e mais uma reflexão sobre a relação dialética homem/natureza e um outro lado da moeda da encantada floresta artificial chamada Paris. O homem continua apartado da (sua própria) natureza, mas segue usufruindo, explorando e em diálogo permanente com as florestas, seus usos e significados.

Musée de la Chase et de la Nature

Aberto de terça-feira a domingo das 11h às 18h (quarta-feira até 21h30)

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62, rue des Archives

Ingressos: 10 euros

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