Só eu não consigo abrir o chuveiro do hotel?

Não adianta você se considerar viajada, rainha dos sete mares, desbravadora de continentes, colecionadora de carimbos de passaporte, a diferentona; de uma hora pra outra toda a confiança viajandística conquistada a duras penas será confrontada por simples coisinhas tecnológicas que te levarão ao patamar júnior dos viajantes.

Os vilões são eles: os botões – ou alavancas, ou sensores – que se prestam a soltar a água de chuveiros, convencer torneiras a jorrar água pra gente praticar o, veja bem, pretensioso gesto de lavar as mãos. Em culturas diferentes ou mesmo diante da pretensão dos arquitetos de criar algo engenhoso, o ato corriqueiro de tomar banho pode se tornar um mistério.

Sendo eu uma pessoa dada a tecnologia e gadgets, não sei explicar bem a minha má vontade com traquitanas. Se fosse só comigo, poderia colocar a culpa na genética ou simplesmente na falta de jeito que me fez abandonar meu curso de design de produtos lá pelos anos 1990. A questão é que muitos viajantes que eu respeito pela experiência, pelo desprendimento e pela descoladez também são vencidos por botões e alavancas intimidantes que, no silêncio de sua fria existência, nos lembram que somos apenas pobres pessoas que economizam pra viver uns dias ricos em algum lugar do mundo onde alguém foi pago para repensar o espaço e as funções e às vezes transformar atos corriqueiros em exercícios de fé.

Na minha cabeça cartesiana existem duas verdades absolutas: 1) o registro da esquerda deve girar, apenas girar, para sair água quente; 2) o registro da direita é pra água fria. Se precisar de manual, algo está errado. O mesmo vale para torneiras de pia. Eu nunca sei se é pra apertar, girar, esperar o sensor se ligar de que eu quero lavar as mãos.

E, por favor, parem de esconder o papel. É um banheiro, o papel pode estar lá, à vista, pra gente apenas usá-lo.

Um amigo viajadão confidenciou que teve de pedir ajuda pro serviço de hotel depois de tentar, inutilmente, abrir o ralo pra soltar a água represada na banheira. E era apenas um botão camuflado, minha gente. Um botão deu um baile em um cara de QI, com certeza, acima da média.

Outro chamou a emergência sem querer ao puxar aquela cordinha de segurança, obrigatória nos banheiros italianos.

Certa vez, depois de tomar um belo banho e me refestelar na cama (não sem antes me sentir o máximo por ter conseguido alternar, sem perrengue, o jato de água da ducha pro chuveirão!), o aplicativo de bate-papo do grupo de viajados descoladíssimos pula com a seguinte pergunta: “Alguém conseguiu descobrir como abre este bendito chuveiro?” Rá! E eu tinha a resposta!

Em compensação já aconteceu de eu quase enlouquecer porque não conseguia fazer a água sair do chuveiro, e não da banheira – não, eu não sei lavar o cabelo na banheira.

A questão é que eu sofro porque tenho orgulho, nunca chamo ajuda, prefiro que esses momentos não tenham testemunhas.

Não gostaria de me estender, mas preciso deixar um apelo aos arquitetos que recebem a missão de fazer o Amazonas caber em Aracaju, com design e ares de boutique – sim, eu sei que é difícil –, e acabam colocando o minibanheiro quase sempre dentro do quarto, sem pensar que a regra do espaço mínimo pro box é esta: ou você tem espaço para abrir o chuveiro sem levar um jato de água gelada ou pelando na cara ou o mínimo suficiente para entrar no box e abrir o chuveiro sem ter de ficar colado na parede gelada, esperando a água chegar numa temperatura humana. Tudo isso sem malabarismos, claro.

A tempo: o box de vidro, modelo aquário, pode ser bem esquisito se você está viajando com alguém que não seja a tua cara-metade e queira um pouco de privacidade.

Peço-vos encarecidamente. Obrigada, de nada.

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