Na Natureza Selvagem: a última viagem do Magic Bus

Ônibus que habita o imaginário de muitos viajantes foi removido do lugar em que estava, no Alasca, após incidentes com aventureiros que tentavam encontrá-lo

Era dia 18 de junho de 2020, depois de décadas estacionado na Stampede Trail, em meio a natureza selvagem, ouviu-se mais uma vez o roncar do antigo motor do “Magic Bus”. O motorista testou os faróis, regulou o retrovisor e, fazendo jus à fama de ônibus mágico, o Fairbanks Bus 142 delicadamente deslizou pelo azulado céu do Alasca, rumo a sua última jornada.

Essa bem que poderia ser mais uma das aventuras de Edward Bloom, irresistível contador de histórias do filme Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de Tim Burton. Ed gostava de contar suas aventuras combinando realidade e fantasia e aprendi com ele que você até pode contar uma história objetivamente, isso não será complicado, mas também não será interessante.

Sem o brilhantismo de Ed, me arrisco a introduzir esse acontecimento de maneira fantástica, afinal o Magic Bus mexeu com o imaginário de toda uma geração de viajantes, tornando-se uma espécie de santuário para muitos mochileiros. Ano após ano, muitos sonhavam com a partida para uma espécie de peregrinação até o antigo ônibus, que se tornou um símbolo na busca pelo autoconhecimento e por algo misterioso que trouxesse a solução para curar as doenças da nossa louca humanidade.

O Magic Bus ficou famoso após a história de Christopher McCandless ser contada no livro “Into the Wild”, de Jon Krakauer, posteriormente adaptada aos cinemas no filme de mesmo nome, dirigido por Sean Penn, com incrível trilha sonora na voz de Eddie Vedder.

Emile Hirsch como Chris McCandless no filme Na Natureza Selvagem

Emile Hirsch como Chris McCandless no filme Na Natureza Selvagem (Paramount/Reprodução)

No melhor estilo aventureiro de Jack Kerouac, McCandless cruzou os Estados Unidos, deixando para trás família, amigos e uma confortável e promissora vida de classe média. Questionador do sistema, ele não se encaixava na vida em sociedade e partiu para uma epopeia solitária de aprendizagem. Após meses de pé na estrada, chegou ao Alasca, onde viveu no Magic Bus por 114 dias, terminando de forma trágica sua jornada.

Wayne Westerberg, uma das pessoas que teve a vida cruzada por Christopher McCandless, disse acreditar que “parte do que o colocou em problemas foi que ele pensava demais. Ele tentava demais entender o mundo, descobrir por que as pessoas eram más umas com as outras com tanta frequência”. Qualquer semelhança com nossas reflexões em tempos de quarentena não é mera coincidência.

O Alasca possui um campo gravitacional de forte influência para almas aventureiras, e em grande parte das vezes também despreparadas, que buscam encontrar algo transcendental em sua exuberante natureza. O Magic Bus tem enorme influência no imaginário popular do viajante e a decisão de incomodar o descanso do nosso querido ônibus foi tomada por preocupações com a segurança pública. Para ter a chance de prestar um tributo para McCandless, muitos desafiaram a natureza selvagem e alguns, infelizmente, tiveram o mesmo fim trágico do jovem aventureiro.

Will Bloom, filho de Ed, o mesmo do Peixe Grande, disse que um homem conta suas histórias tantas vezes que se torna as histórias. Elas sobrevivem a ele. E desta forma, ele se torna imortal. McCandless nem sequer teve tempo de contar sua maior aventura e certamente não era fama o que lhe motivada, mas sem dúvidas ele ainda viverá por muitos e muitos anos em nosso imaginário.

Deixo aqui minha pequena homenagem para Christopher McCandless, que tanto me inspirou, e sigo o seu mantra: “a felicidade só é verdadeira quando compartilhada”.

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