Você quer mesmo ser um nômade digital?

Acabo de ler, com uma semana de atraso, o texto ultra sincero em que a Fê Neute, do ótimo Feliz com a Vida, anuncia o fim de sua própria era como nômade digital. Há dois anos, ela largou um bom emprego numa agência de publicidade em São Paulo e embarcou numa viagem sem data para terminar. Morou na Tailândia, no Vietnã, em Hong Kong, na Colômbia, na África do Sul e nos Estados Unidos, além de ter visitado outros 20 países. “Eu queria ser mais livre, exercitar a minha criatividade e aproveitar tudo ao máximo e percebi que o que estava me impedindo de fazer isso era tudo o que eu estava acumulando desnecessariamente”, diz ela em sua apresentação no blog, no qual fala sobre as viagens, desapego, estilo de vida etc. Não foi uma simples viagem de volta ao mundo com a mochila nas costas. Durante esse período, ela continuou trabalhando on-line, não apenas no blog mas como freela de publicidade. Isso é o que faz da Fê Neute uma “nômade digital” (explicaçãozinha básica para quem anda meio avoado e nunca ouviu a expressão).

 

Muita gente que eu conheço (no mundo real e virtual) anda querendo ser nômade digital. E vários blogs sobre esse estilo de vida estão pipocando. No Brasil, o mais famoso é o excelente Nômades Digitais, do casal Eme Viegas e Jaqueline Barbosa, os seres recheados com neurônios de primeira qualidade (tiro o meu chapéu e jogo longe) que também estão por trás do Hypeness e do Casal Sem Vergonha. Viajar, não ter chefe, não ter rotina, conhecer gente, ser dono do próprio tempo… Não há dúvidas de que o estilo de vida é altamente cativante. Mas existe o outro lado da moeda. Os blogs que tratam do tema tocam nesse lado B de vez em quando. Mas o texto da Fê Neute é dos mais sinceros e completos que li recentemente. Concordo com ela do início ao fim.

 

Sou uma semi-nômade digital. Se você acompanha este blog há tempos, deve saber que moro em Barcelona trabalhando remotamente para o Brasil  e, todo ano, faço uma viagem de vários meses. Foi assim nos últimos oito anos. Gostaria muito que esses períodos fossem realmente férias, como todos os meus amigos pensam. Mas na real eu trabalho bastante pelo caminho e vou tirando mini-férias intermitentes. Já escrevi matéria sobre a Espanha na África, montei um guia da Itália na Austrália, coordenei um projeto com gente no Brasil e em Barcelona estando em Fiji e muitas outras coisas – além de manter a minha rotina de trabalho para o Achados e outras coisinhas que tenho como trabalho fixo. (Tem gente que me pergunta se eu vivo só do blog e eu acho isso fofo).

 

Se eu queria ser nômade digital em tempo integral? Nem a pau. Justamente porque, durante esses meses que passo na pele de um, sinto de leve (a moderadamente) muitas das coisas que a Fê Neute descreveu. Se o nomadismo se tornasse a regra ao invés da exceção, intuo que os efeitos colaterais iam crescer em progressão geométrica em pouco tempo: a falta de uma casa “de verdade”, o descuido com a saúde (e o peso), a saudade dos amigos velhos de guerra e da família, o saco cheio de conhecer pessoas novas e ter que contar a mesma história mil vezes, a preguiça de saltar de galho em galho. Enfim, a “rotinização” da falta de rotina.

 

Uma coisa que pega forte pra mim, além dos fatores acima, é a culpa de mão dupla. Culpa de estar trabalhando numa praia de Fiji e não estar realmente aproveitando cada segundo. E culpa por estar fazendo um trabalho que eu poderia fazer melhor com mais infra e tempo. A Fernanda também comentou sobre a perda da capacidade de se surpreender que acaba rolando depois de passar por tantos lugares lindos em tão pouco tempo. Essa é uma outra questão muito importante e o motivo pelo qual nunca almejei uma viagem de mais de seis meses, mesmo de férias.

 

Continuo a admirando os nômades em tempo integral e dando a maior força para quem quer fazer o mesmo. Mas, por hora, estou muito realizada com a minha vida de semi-nômade digital.Voltar pra casa, afinal de contas, é quase tão bom quanto viajar (clique aqui para ler o texto que escrevi sobre isso). Nada como equilibrar as duas coisas para continuar dando muito valor a ambas. Será que devo criar um blog sobre isso e ditar a tendência? Ou a semi-tendência?

 

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