Achados Adriana Setti escolheu uma ilha no Mediterrâneo como porto seguro, simplificou sua vida para ficar mais “portátil” e está sempre pronta para passar vários meses viajando. Aqui, ela relata suas descobertas e roubadas

Uma historinha que resume o espírito de Fiji (e dos fijianos)

Por Adriana Setti Atualizado em 27 fev 2017, 15h23 - Publicado em 7 abr 2015, 19h05

No dia a dia, faço um esforço hercúleo para ser um primor com meus prazos de entrega, datas de pagamento e horários. Mas o lado organizacional definitivamente não é o forte do meu cérebro. Nas férias, quando os poucos neurônios administrativos começam a nadar de braçada no gim tônica, é bastante normal que eu faça besteiras homéricas com datas, reservas e afins (e a julgar pelas trapalhadas que meus pais fazem – eles são imbatíveis – a tendência é genética e se agrava com o tempo).

 

Meu roteiro em Fiji foi bem pensado. Para começar, voamos para a ilha de Taveuni, passamos uns dias por lá e descobrimos um jeito fácil e barato de cruzar para a ilha vizinha, Vanua Levu. Como havia lido no guia Lonely Planet que as estradas daquela região eram bem precárias, e estávamos na época de chuvas, aceitei a sugestão de contratar um transfer de 4X4 (US$ 70) oferecido pelo Jean-Michel Cousteau Resort no momento da reserva, ao invés de simplesmente pegar o ônibus que saía do píer num horário conjugado com o barco – o que foi uma grande besteira, já que as estradas de Vanua Levu são bem razoáveis.

 

Acontece que pegamos o barco e chegamos ao píer de Vanua Levu no dia errado, 24 horas antes do combinado. Como tudo em Fiji é meio devagar, atrasos são relativamente normais. Por isso, deixamos o ônibus ir embora mesmo sem ter avistado o tal 4X4. Só que o píer era no meio do nada, sem nenhuma cidade por perto. E ficamos ali abandonados, sem telefone (até aquele momento a ficha do erro da data não tinha caído).

 

O único ser humano que minha vista alcançou foi o vendedor de docinhos e água de coco que, àquela altura, já estava recolhendo o carrinho. Aflita, pedi um telefone emprestado. Ele disse que não tinha saldo para fazer ligações. Diante da minha expressão ainda mais aflita, largou o carrinho, colocou as duas mãos nos meus ombros, olhou nos meus olhos e disse: “Fique tranquila, você está num lugar seguro e eu vou te ajudar, se nada der certo vocês dois podem dormir na minha casa hoje, com a minha família, e pegar o ônibus amanhã de manhã.”. Esse anjo se chamava David.

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Ele colocou nossas malas em cima do carrinho e pediu para que nós o acompanhássemos. Fomos até o hospital de uma missão religiosa onde ele trabalhava na cantina. David nos ofereceu uma mesa na sombra e nos emprestou um pratinho para que comêssemos as torradinhas com atum que tínhamos trazido de “almoço”. Depois saiu em busca de outro celular. Meia hora depois, ele voltou com um sorriso iluminado e um ar de vitória. Algum amigo tinha emprestado outro aparelhinho, com crédito. Tudo resolvido. Nunca, nunca, nunca vou esquecer o sorriso de David. E prometo me lembrar dele a cada vez que for acometida por um sentimento mesquinho.

 

Nenhum desses aí da foto é o David (infelizmente não tive a presença de espírito de tirar uma foto dele). Mas o momento (uma carona que pegamos num caminhão em Vanua Levu), com os amigos fijianos Lai e Steven, reflete muito bem o astral em que estávamos durante a viagem e o típico e inigualável sorriso fijiano

Nenhum desses da foto é o David (infelizmente não tive a presença de espírito de tirar uma foto dele). Mas o momento (uma carona que pegamos num caminhão em Vanua Levu voltando de uma cachoeira), com os amigos fijianos Lai e Steven, reflete muito bem o astral em que estávamos durante a viagem e o típico e inigualável sorriso fijiano. Dá pra notar que estamos muito felizes ou não?

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