10 dicas práticas para organizar uma viagem a Moçambique

Moçambique tem praias que não fazem feio diante das Maldivas. Também tem gente amabilíssima e alegre – que ainda por cima fala português. A gastronomia é um convite a orgias de frutos do mar, a arquitetura da capital tem o seu charme e o litoral guarda alguns dos melhores pontos de mergulho do mundo. E por que tão pouca gente cogita visitar esse paraíso?

Meu amado bangalô no Nordin's Lodge, onde passei 15 dias sem trancar a janela, bem na frente da piscina cristalina da foto anterior

Meu amado bangalô no Nordin’s Lodge, onde passei 15 dias sem trancar a janela, bem na frente da piscina cristalina da foto anterior

A verdade é que o país não era exatamente visitável até meados dos anos 2000. Chega a ser surrealista, mas esta nação no sudeste da África só conseguiu a sua independência (depois de dez anos de luta armada) de Portugal em 25 de junho de 1975. A isso se seguiu uma guerra civil que durou até 1994 e deixou o país destroçado.

Diante de uma história tão dramática, é louvável que hoje em dia Moçambique tenha recursos, ainda que modestos, para receber o turista com dignidade. Obviamente, é uma viagem que requer um pouco de espírito de aventura. Mas diante do que a maioria das pessoas espera de uma imersão em um dos lugares mais pobre do mundo, a realidade é muito mais fácil. Vai vendo:

1. Como chegar

Esticar uma viagem na África do Sul (um destino cada vez mais dentro da agenda de viajantes brasileiros) é ridiculamente fácil. Eu peguei um ônibus, da ótima Greyhound, em Neilspruit, que é a base mais óbvia para acessar o Kruger Park. Menos de quatro horas depois estava desembarcando em Maputo.

Ao cruzar a fronteira você sente que voltou algumas décadas no tempo, a começar pela infraestrutura dos escritórios de imigração, meio caindo aos pedaços. Mas, se não houver muita gente, a coisa flui rapidamente. Não tive que passar mais de meia hora fora do ônibus – que já aproveitei para sacar alguns meticais do caixa eletrônico e comprar um chip de celular já registrado (uma facilidade ótima do mercado paralelo que evita que você tenha que ir a uma loja se registrar).

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2. O visto

Por motivos que a razão desconhece, o preço do visto moçambicano no Brasil é uma paulada: R$ 250 se você puder esperar 15 dias úteis ou R$ 500 em oito dias úteis. Oi? Em qualquer consulado da África do Sul (usei o da Cidade do Cabo) você paga uns US$ 10 e o visto sai em 24 horas.

3. O que fazer na capital

Maputo é simpática para uma capital africana. O centro tem um pouco de arquitetura colonial, uma atmosfera meio parada no tempo e vida noturna bastante divertida. Eu até teria ficado um pouco mais se a hospedagem na capital não fosse tão inexplicavelmente cara. Fiquei na simpática Palmeiras Guest House – uma pousada – e paguei US$ 100 por noite.

Os hotéis de redes internacionais são muito mais caros. Urgh. Por isso, a maioria dos mochileiros fica na Fatima’s Backpackers, onde acho que ficaria numa próxima vez. Em pouco tempo, aproveitei para dar um giro pelo centro; conhecer o mercado e o lindo Jardim Botânico Tunduru; comer baldes de frutos do mar na Marisqueira Sagres, tomar uma 2M gelada no Mundo’s e no Piri Piri.

4. Hospedagem em geral

Por sorte, os preços agressivos dos hotéis de Maputo não são a regra. Ao longo da viagem, ficamos em pousadas básicas, mas pé na areia, por cerca de US$ 30 para o casal. Na faixa dos US$ 40 dá pra ficar num lugar mais arrumadinho. E por uns US$ 60 você até consegue um ar condicionado (como acaba luz dia sim, dia não, mais vale pensar em um lugar ventilado naturalmente, conselho de pessoa calorenta).

Para os hotéis de luxo, o céu é o limite. Meu achado na Praia do Tofo foi o Nordin’s, que tem bangalôs enormes num terreno sombreado de frente para a parte mais bonita da praia — propriedade de uma família local cuja avó praticamente me adotou. Em Vilanculos fiquei onde praticamente todos os que viajam com pouco dinheiro se alojam, o Baobab Beach, uma delícia de lugar que tem até piscina de frente para o mar e aquela atmosfera de viajantes tomando cervejinha, conversando e jogando sinuca. Amo.

O cotidiano de Vilanculos (e todo meu amor pelas mulheres africanas)

O cotidiano de Vilanculos (e todo meu amor pelas mulheres africanas)

5. Transporte terrestre: o drama

Eis o único perrengue sério de viajar por Moçambique. Os ônibus “de verdade” passam apenas pela estrada principal que corta o país de norte a sul. As rotas secundárias são cobertas pelas “chapas”, as boas e velhas (velhas MESMO) lotações.

Peguei um tal “shuttle” (nome bonito para lotação) organizado pela Fatima’s Backpakers seguindo a recomendação do Lonely Planet. Minha viagem de Maputo a Praia do Tofo durou, sem brincadeira, umas 12 horas (500 quilômetros). E com direito a galinha viva, umas 300 mil paradas, um banco onde cabia 30% do meu traseiro (o resto foi em cima de uma caixa) e uma baita experiência antropológica, que foi a parte boa da coisa.

6. Voos e aeroportos: a grande surpresa

A boa surpresa para você que desanimou com o parágrafo anterior é que viajar pelo país de avião é tranquilo. Os aeroportos por onde passei (Maputo e Vilanculos) são novinhos e funcionam bem. E a LAM, Linhas Aéreas Moçambicanas, é uma companhia modesta mas bastante ok. Graças à ótima de conexão de 3G de celular em Moçambique, eu comprei a minha passagem de volta (de Vilanculos para Joanesburgo) no meio da viagem de “chapa” para a Praia do Tofo, tamanho era a minha aflição depois de 10 horas com 30% da bunda no banco. Aliás, há voos direto de Joanesburgo para as principais cidades turísticas de Moçambique. Querendo, você pode ir direto ao assunto e pular a etapa Maputo (e a etapa ônibus na fronteira).

Aeroporto de Vilanculos: novinho em folha (você não esperava isso de Moçambique, né?)

Aeroporto de Vilanculos: novinho em folha (você não esperava isso de Moçambique, né?)

7. O roteiro

A grande maioria dos viajantes se move pelo sul do país. De Maputo, eu fui um pouco mais ao sul para conhecer uma praia magnífica chamada Ponta Mamoli. Depois, voltei para a cidade por mais um dia antes de seguir para a Praia do Tofo – que fica ao lado de Inhambane, uma cidade histórica charmosa.

Na sequência, fui ara Vilanculos (desta vez com um táxi pechinchado à exaustão, que foi um dinheiro altamente bem pago para escapar de mais uma “chapa”). De Vilanculos fui para o filé mignon do país: o arquipélago de Bazaruto. Há muitos outros lugares a explorar, a começar pelo igualmente espetacular arquipélago de Quirimbas. Voltarei.

roteiro-mocambique-carro-estradas

 

8. Situação política: a pulga atrás da orelha

O que acontece em Moçambique costuma ficar em Moçambique. É por isso que, possivelmente, você nem vai ouvir falar do conflito político que está rolando no país neste momento. Explicando de forma muito simplificada, a facção que perdeu a guerra civil (RENAMO) foi transformada em partido político.

Nos últimos anos, no entanto, um desentendimento fez com que essa antiga guerrilha – já muito enfraquecida – rompesse com o governo e retomasse as armas. Os ataques (geralmente contra alvos militares) acontecem de forma esporádica e estão concentrados na região central do país, na província de Sofala.

Isso não afeta a vida de quem viaja pelo sul. Mas atualmente não é seguro cruzar a zona quente por terra. Se você estiver planejando uma viagem para o país, fique de olho nisso, por precaução. É um pouco difícil encontrar informação na internet, mas os jornais portugueses costumam noticiar os principais acontecimentos.

9. Segurança: pode relaxar (pero no mucho)

Maputo é dos poucos lugares de Moçambique em que você precisa ficar esperto. Ainda assim, nada muito grave. Basta tomar as mesmas precauções que você tomaria em qualquer cidade grande fora da Europa e da Oceania. Nos vilarejos turísticos que realmente interessam, pode relaxar. Um exemplo: passamos 15 dias num bangalô na Praia do Tofo cuja janela não tinha trava.

10. A questão da malária

Moçambique é zona endêmica de malária em quase todo o seu território. As exceções são o extremo sul (em Ponta Mamoli, por exemplo) e as ilhas (o arquipélago de Bazaruto, por exemplo). Ou seja, consulte um médico antes de viajar e tome os remédios preventivos. Eu tomei o Malarone, que é o tipo mais moderno e tive zero efeito colateral – o grande porém de tomar esses medicamentos. Você, que convive com dengue e zica, não tem porque achar isso muito exótico. Certo?

Não me canso de postar fotos do arquipélago de Bazaruto, onde a malária não chega

Não me canso de postar fotos do arquipélago de Bazaruto, onde a malária não chega

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