Iconoclasta

Os bairros da vez, os arranha-céus, as soluções urbanas, os grandes chefs. Às vésperas de receber as Olimpíadas, Londres se reinventa

Se você está prestes a desembarcar em Londres pelo aeroporto de Heathrow e pretende utilizar o metrô para chegar à cidade, prepare- se para tomar uma decisão importante em instantes. Com o bilhete unitário a £ 4,30, deverá chegar à conclusão de que vale a pena adquirir um Oyster, o cartão de transporte londrino com o qual as viagens saem mais em conta. Como outras cidades do mundo, Londres também tem bilhetes válidos por mais de um dia, ótimas pedidas para quem está a passeio. Mas só há duas opções: compra-se o bilhete válido por uma semana ou por um mês. É como se Londres mandasse um recado sutil a quem a visita: em menos de sete dias é impossível conhecê-la.

Pois sete meses, o tempo em que vivo aqui, tampouco me parecem suficientes. De todas as metrópoles que reivindicam para si o adjetivo “cosmopolita”, Londres é, na minha opinião, a que transmite de maneira mais plena a impressão de estar no centro do mundo. Aos números: 34% dos moradores da cidade nasceram em outro país, segundo um estudo da Universidade de Oxford. “Londres não é particularmente acolhedora, mas gosto da ausência de regras, da rápida mudança de ideias e estilos e da indiferença cool que as pessoas têm ao que lhe é estranho”, diz a escritora Nadifa Mohamed, nascida na Somália e que se mudou aos 5 anos para Londres. A cidade que congrega gente de todos os cantos em breve estará novamente no centro das atenções com os Jogos Olímpicos, de 27 de julho a 12 de agosto. Será palco das Olimpíadas pela terceira vez em sua história: também foi sede em 1908 e 1948.

Não é difícil perceber as rápidas mudanças na cidade. A começar pela linha do horizonte, na qual a Catedral de St. Paul reinou como edifício mais alto até 1962, com seus 111 metros de altura. No lado sul do Rio Tâmisa, o Shard London Bridge, com inauguração prevista para julho, passará a ser o maior edifício da União Europeia. Com 310 metros, vai abrigar a primeira unidade do hotel cinco- estrelas Shangri-la na cidade e um observatório no 72o andar. Do outro lado do Tâmisa também está em construção o Bishopsgate Tower, de 288 metros, apelidado de “The Pinnacle” (O Pináculo). Como Berlim, Londres gosta de apelidar seus prédios. Aqui eles ganham alcunhas antes mesmo da conclusão: na City, o centro financeiro de Londres, o 122 Leadenhall Street terá 225 metros de altura e já virou “Cheese Grater” (Ralador de Queijo). O 20 Fenchurch Street, de 160 metros, será o “Walkie Talkie”. Todos farão companhia ao 30 St. Mary Axe, o “Gherkin” (“Pepino”).

Mas não é apenas levantando os olhos que se veem transformações na paisagem. A Londres de 2012 parece um constante canteiro de obras, boa parte delas relacionada aos Jogos Olímpicos. O evento ajudou a desenvolver a Zona Leste da capital. O Parque Olímpico foi instalado em Stratford, a cerca de 10 quilômetros do centro, em uma região que antes era ocupada por lixo industrial. A construção demandou o trabalho de descontaminação do terreno e recuperação das águas que o cortam. Após os Jogos, a maioria das instalações olímpicas será removida e o parque será aberto à comunidade, rebatizado como Queen Elizabeth Park.

Na esteira da construção do Parque Olímpico vieram melhorias no transporte. Poucas estações de Londres são tão bem servidas quanto Stratford, que virou um hub que concentra quatro linhas diferentes (de metrô e trem de superfície). E, além disso, bem ao lado do parque foi inaugurado, em setembro de 2011, o Westfield Stratford City, o maior shopping urbano da Europa, com mais de 200 lojas, 70 restaurantes, três hotéis e um cassino.

Brunch do Hélène Darroze, Londres, Reino Unido

Brunch do Hélène Darroze – Foto: Divulgação

A região leste sempre esteve no imaginário dos londrinos. Desde 1985 a rede de televisão BBC leva ao ar a novela EastEnders, que retrata o dia a dia da classe trabalhadora que vive ali. Agora o East End abriga a face mais moderna e criativa de Londres. A revista Dazed & Confused levou à capa da edição de maio a evidente provocação “Is East London dead?” Disse um blogueiro na reportagem a respeito da região: “Você conhece alguém em um bar numa noite, e no dia seguinte vocês dois estão planejando dominar o mundo”.

A corrida para o leste não é um fenômeno tão recente: historicamente menos privilegiada, a região vem atraindo gente com seus aluguéis mais baixos. Shoreditch, Spitalfields e Hoxton são hoje a fronteira hype da cidade. Até mesmo restaurante estrelado pelo Guia Michelin já há. Trata-se do Viajante, do chef português Nuno Mendes, em Bethnal Green. No final de abril, Nuno passou a ocupar a 80a posição no ranking da revista Restaurant e foi muito festejado pelos chefs presentes à premiação, que ocorreu em Londres.

Entretanto, o hype também tem seus efeitos colaterais, e o mais indesejado deles é o boom imobiliário. Com a região de Shoreditch hipervalorizada, as mentes criativas de Londres começaram a se instalar um pouco mais para o norte, em Dalston. A região é atualmente considerada o código postal mais cool do Reino Unido, com estabelecimentos como a casa The Nest, que se orgulha de receber em seu palco apenas bandas e DJs que ainda, imagina-se, serão sucesso. Algum dia você pode ouvir nomes como a banda indie Last Dinosaurs e a cantora Ronika. Experimentalismos musicais têm lugar no Cafe Oto, eleito pela revista Vogue italiana o lugar mais cool do Reino Unido. Para sentir a aura do pedaço, você pode fazer também uma pausa para um café na Gillet Square. Lá, espere ver rapazes de bigode e moças com sidecuts (cabelo raspado na lateral). Mas espere também ver turcos, caribenhos e judeus ortodoxos, que dão a cor global de Dalston.

Essa Londres pode não ser para você – “not your cup of tea”, como se diz por aqui. O que não é realmente um problema: a Londres clássica do Big Ben, da Tower of London, da Harrods, da cerimônia da troca da guarda da rainha continua no mesmo lugar. E, o que é uma ótima notícia, come-se bem melhor do que alguns anos atrás. Tão sólidos quanto os monumentos da cidade estão suas grifes gastronômicas. Em 2008, o chef-celebridade Jamie Oliver lançou o Jamie’s Italian, onde serve pratos italianos que não configuram uma experiência memorável. Frequento as unidades de Covent Garden e Angel e digo que são o.k. o arancini de mussarela e funghi porcini, o penne all’arrabiata e o risoto de cogumelos selvagens trufados. A conta, porém, é sempre simpática como os garçons: duas pessoas gastam em média £ 50, com sobremesa e vinho.

Quando tiver pouco tempo entre um passeio e outro, troque o almoço por um sanduíche do Pret a Manger. Com ingredientes de qualidade, a rede fez uma pequena revolução na mais básica das refeições inglesas – o sanduíche. São 168 lojas em toda a cidade. Para reforçar a experiência, aprecie seu sanduíche em um dos parques da cidade. Há muitos, e os ingleses os ocupam faça chuva ou faça sol. Caso queira algo diferente dos tradicionais Hyde e Regent’s Park, pegue o metrô até Hampstead Heath, na Zona Norte (veja mais no quadro da página 84). A colina Parliament Hill é um mirante natural onde se avista a Catedral de St. Paul, o Shard e outros arranha-céus da City.

Na hora de se deslocar, use e abuse do tube, o metrô, mas não deixe de experimentar o segundo andar de um double decker, o icônico ônibus vermelho. Você vai notar que o trânsito é ruim, principalmente na Oxford Street, mas nada que se compare ao das grandes cidades brasileiras. Ajuda a tirar carros da região central a cobrança de pedágio de £ 10, o chamado congestion charge. Em 2010 Londres também aderiu ao sistema de aluguel de bicicletas. Com o patrocínio do banco Barclays, o esquema conta com 8 300 magrelas e 570 estações. Não é preciso fazer cadastro: basta inserir um cartão de crédito internacional no totem que fica junto às bikes. Até uma hora custa £ 1; até duas custam £ 6. Se você pretende ficar o dia inteiro pedalando, troque de bike para pagar menos.

Com ou sem bicicleta, visitar Londres praticamente implica visitar seus museus. Os acervos são grandiosos, e muitos não cobram entrada, como a National Gallery. A Tate Modern, o museu de arte moderna mais visitado do mundo, deve inaugurar em julho um novo espaço para exibições em seu subsolo. Até setembro, exibe uma retrospectiva de Damien Hirst, o artista mais valorizado da Terra. Tenho duas preferências pessoais. A primeira é o Museum of London, que conta a história da cidade desde o Grande Incêndio de 1666 e em 2010 reabriu com cinco novas galerias. Até 10 de junho está em cartaz a mostra que celebra os 200 anos do nascimento do escritor Charles Dickens. Minha segunda preferência é um campeão de popularidade: o British Museum. Com coleção de mais de 8 milhões de objetos de diferentes eras e civilizações, o museu é um desafio para quem tenta compreender diversas obras do acervo (e não só a icônica Pedra da Rosetta). Tem-se sempre a sensação de que algo importante ficou para trás. O British é uma metáfora da cidade que o abriga: para aproveitar bem Londres é preciso aceitar que você irá deixar algo relevante para trás. Difícil achar motivo melhor para um reencontro.

Veja na próxima página como chegar e a melhor época para visitar Londres

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Londres (DDI 44)

FICAR

O Savoy (Strand, 020-7836-4343, fairmont.com/savoy; diárias desde £ 395), inaugurado em 1889, foi o primeiro hotel de luxo do Reino Unido e fez sua fama com hóspedes ilustres como Winston Churchill e Claude Monet – em 1903, ele teria pintado o Tâmisa em um quarto no quinto andar do hotel. Se não estiver com bala para se hospedar, invista no clássico chá da tarde com scones (£ 90, para duas pessoas). O Boundary Project (2-4 Boundary Street, 020-7729-1051, theboundary.co.uk; diárias desde £ 170) fica em Shoreditch, pertinho de Brick Lane e Hoxton Square, e tem um terraço disputado no fim de tarde. Com seis unidades na cidade, o easyHotel (easyhotel.com; diárias desde £ 39), do grupo EasyJet, tem quartos básicos e diminutos. Se preferir brincar de local, pode ser uma boa alugar um estúdio na Studio 2 Let (studios2let.com). As unidades estão espalhadas por seis regiões da cidade e custam em média £ 400 por semana.

COMO CHEGAR

Voam direto para Londres a TAM (0800-5705700, tam.com.br), desde US$ 1 237, e a British (0800-7610885, ba.com), desde US$ 1 412. Com conexão em Amsterdã, a KLM (0800-8881888, klm.com) é a mais barata, desde US$ 944. Outras opções são a Luthansa (11/4700-1700, lufthansa.com), com conexão em Frankfurt, desde US$ 1 129; a TAP (0300-2106060, flytap.com.br), por Lisboa, desde US$ 1 150; a Air France (0800-8889955, airfrance.com.br), via Paris, desde US$ 1 235; a Iberia (11/3218-7130, iberia.com.br), com conexão em Madri, desde US$ 1 355; a Alitalia (11/2171-7610, alitalia.com), com conexão em Roma, desde US$ 1 363; a Swiss (11/4700-1543, swiss.com), via Zurique, desde US$ 1 567. Via Nova York voam a American Airlines (0300-7897778, aa.com.br), desde US$ 1 386, e a Delta (11/4003-2121, delta.com), desde US$ 1 454.

QUEM LEVA

A Ematur (21/2544-2525, ematur.com.br) tem pacote com quatro noites desde US$ 1 350 (embarque até 16 de junho). A TAM Viagens (0800-555200, tamviagens.com.br) tem seis noites no Hotel Premier Inn (premierinn.com), com traslados e cinco ingressos para os Jogos, desde R$ 18 466. A operadora também tem roteiro com 12 noites, no mesmo hotel, com dez ingressos, desde R$ 33 233. A Ambiental (11/3818-4600, ambiental.tur.br) tem três opções de pacotes, todos em hotéis quatro-estrelas. O roteiro de seis noites com cinco ingressos custa desde £ 8 526; 12 noites com dez ingressos, desde £ 14 494; e 18 noites com 15 ingressos, desde £ 19 608. A Agaxtur (11/3067-0900, agaxtur.com.br) tem pacotes de 12 noites, com dez ingressos e traslados, desde £ 10 550. A operadora também tem um roteiro menor, de seis noites, com cinco ingressos incluídos, traslados e kit, desde £ 5 862.

DOCUMENTOS

Para estadas de até seis meses, não é necessário visto para entrar no Reino Unido. No entanto, a imigração nos aeroportos ingleses está entre as mais rígidas da Europa, e por isso é recomendável ter à mão documentos que comprovem reservas de hotéis, passagem de volta, seguro-saúde, carta-convite, caso for ficar na casa de amigos, documento que assegure vínculo com o Brasil (imposto de renda, holerite, cartão de visita), além de extrato de conta corrente e de cartão de crédito.

Veja na página anterior a reportagem Iconoclasta completa

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