Puglia: de bicicleta de vilarejo em vilarejo

Oliveiras, vinhos e mordomia em um tour de bicicleta pelo salto da Bota

Por Fabricio Brasiliense Atualizado em 21 jun 2022, 10h27 - Publicado em 21 jun 2022, 08h09

Sou um ciclista de fim de semana, ou, para ser mais preciso, da ciclofaixa que é montada em São Paulo todos os domingos pelas principais vias da cidade, e achei que estava pronto para encarar cinco dias de pedal pela Puglia, região que vai do calcanhar ao salto da Bota. O roteiro, focado em gastronomia e hotéis de primeira, teve curadoria da Duvine, empresa americana especializada em viagens de bike, representada em São Paulo pela AuroraEco.

OTRANTO

Minha porta de entrada na Puglia foi a capital Bari, onde peguei um trem para Brindisi. Lá me encontrei com Nick, um dos guias da expedição, que minutos antes recolhera do aeroporto local outros três companheiros, Trever, de San Francisco, e um casal do País de Gales, Glyn e Menna. Seguimos 90 quilômetros de van até Otranto, cidadezinha que está na ponta leste do salto da Bota, que surpreendeu de cara. Cercada por muralhas bizantinas, ela tem um centrinho histórico que é um primor e está banhada por um Adriático muito azul e manso. Na hora de nadar, basta descer a escadaria da muralha. A cidade foi fundada pelos gregos e muito visada por ser porta de entrada para o resto da península. Nos dois dias em que dormimos na cidade, o programa consistiu em ir e voltar muitas vezes pelas estreitas vielas, subir o Castelo Aragonês para ter uma visão ainda mais alta e, sim, descer as escadinhas da muralha para mergulhar no azul profundo.

No hotel Palazzo Papaleo, naquele primeiro dia, encontramos outros dois casais companheiros de pedal, a americana E.V. e o irlandês Tadhg e os brasileiros Cecília e Márcio, de Ribeirão Preto. Apresentações feitas, na sequência fomos introduzidos às nossas bikes, que estavam já a postos com nossos nomes junto à muralha da cidade. Saímos de Otranto e pegamos uma estrada estreita de terra margeada por centenas de oliveiras. Árvores iguaizinhas, que monótono, pensei na hora, mas prometo que ainda neste relato pago minha língua. Pedalamos por cerca de 10 quilômetros até Minervino di Lecce, onde visitamos a osteria da vinícola Menhir. Uma construção de pedra, mesas sobre um pergolado de bambu, Nina Simone nas caixas, climão. Quando vieram os vinhos, pude aplicar a principal lição sobre degustação que aprendi um dia: o melhor vinho é aquele de que você gosta.

Eu gostei muito do branco PASS-O, elaborado com a uva Fiano, que tinha um aroma de pêssego e na boca ganhava um toque frisante; e do tinto N.ZERO, elaborado com Negroamaro, a uva trademark da região de Salento, sub-região da Puglia que pega todo o salto da Bota, bem onde estávamos. Para acompanhar, tortino di verdura, uma espécie de muffin de espinafre coberto por uma ricota cremosa com consistência de chantili. Saí de lá altinho, mas disposto. Pegamos a estrada de volta a Otranto e lá pelas tantas embarcamos em uma descidona. Eu estava a uma boa velocidade, furando o vento, com um sorriso meio bobo na cara, quando resolvi imprimir ainda mais força ao pedal. Peguei uma velocidade irada com direito a u-huu, mas bastou o declive terminar e, ô-ôu, não tive forças e precisei descer da bike para empurrá-la. Aprendi a duras penas a lição 101 do cicloturismo: depois de uma longa e deliciosa descida, sempre vem uma penosa e extenuante subida, e aquele esforço despendido faz falta.

Otranto, Puglia, Itália
Bicicleta estacionada no centro histórico branquinho de Otranto. Veronica Reverse/Unsplash
SLOW TRAVEL

Lecce, 50 quilômetros ao norte de Otranto, é considerada a Florença do Sul e guarda um centro histórico surpreendente. A explosão de leões, dragões, cavalos e flores na fachada da Basílica di Santa Croce, de 1695, é uma festa para os olhos, assim como o anfiteatro romano do século 2 d.C. encravado no meio da Piazza Sant’Oronzo, o centrinho vibrante do lugar. Ver a vida passar em uma mesa do Caffè Alvino é uma grande pedida.

Chiesa di San Matteo, Lecce, Puglia, Itália
Enquadramento da Chiesa di San Matteo, em Lecce. Ophelia Cherry Blossom/Pixabay

SANTA MARIA DI LEUCA

No segundo dia, o roteiro era pedalar por volta de 30 quilômetros desde Otranto ao longo de todo o salto da Bota beirando o mar até o ponto onde o Adriático e o Jônico se encontram, em Santa Maria di Leuca. Naquela altura, eu já me consagrava o lanterninha do grupo. Houve trechos de um tédio absurdo, outros de grande alegria, como o superdeclive que antecede Santa Cesarea Terme, lugarejo famoso por suas fontes de água sulfurosa. Fizemos um clique e seguimos viagem até Tricase, onde almoçamos no A Casa Mia. Fui um comensal dedicado, principalmente ao vinho da casa, e por isso pela primeira vez fiz uso da van que nos acompanhava o tempo todo. Funcionava assim: tínhamos Nick e o italiano Davide como nossos guias que intercalavam a liderança do grupo e a direção da van. A americana E.V., de 73 anos, foi quem mais me impressionou. Ela fez toda a viagem com uma bike de corrida e só pediu água, ou melhor, van, uma única vez – eu pedi umas quatro.

LOCOROTONDO

No terceiro dia seguimos de van até o Valle d’Itria, 140 quilômetros ao norte de Otranto, sendo que a primeira parada foi em uma produtora de azeite de oliva, a Trisole, em Cisternino. Ali conhecemos o processo de extração do óleo e ao final fizemos uma degustação. O que eu aprendi: é preciso colocar um pouco de óleo na língua, cerrar os dentes e inspirar pela boca. Se der uma irritação na garganta, sinal de azeite bom. De lá seguimos até Locorotondo, a mais bucólica das cidades, situada no topo de um morro. A vida naquele labirinto de vielas estreitas de casas caiadas de branco segue um ritmo próprio.

De repente você topa com sacadas cobertas com gerânios e um par de chinelos na soleira de uma porta. O almoço no restaurante Ai Tre Santi foi uma festa de Babette. A Puglia é a terra dos queijos como as burratas, as mussarelas e o primo sale das focaccias, das chicórias e do purê de favas. E dá-lhe pedalar! De Locorotondo, pegamos a estrada até os arredores de Martina Franca, onde está o hotel Masseria Fumarola, uma construção feita de trulli, as casinhas cônicas que são marca registrada da Puglia. Dormir ali antecipava a visita que faríamos no dia seguinte a Alberobello, que guarda mais de mil delas, construídas por volta do século 15. O trullo geminado que coube a mim naquela noite era muito confortável. E o jantar preparado pelo hotel foi dos mais divinos.

Uma rua com uma grande e ricamente decorada porta. Um menino pequeno corre em frente ao lugar
Cenas das ruas de Locorotondo. Maremagnum/Getty Images
SHOW DE ADRIÁTICO

Polignano a Mare, 35 quilômetros ao sul de Bari, é uma das paisagens litorâneas mais surpreendentes da Puglia. A parte antiga da cidade foi construída sobre um rochedo com as casas viradas para o mar. A praia principal, de pedrinhas e água muito transparente, é muito disputada nos meses de verão.

Polignano a Mare, Puglia, Itália
Polignano a Mare, na Puglia, é um dos destinos de praia mais disputados da Itália. Vincenzo De Simone/Unsplash
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ALBEROBELLO

No dia seguinte, foi a vez de Alberobello. Confesso ter sentido uma ponta de decepção. Muitos dos trulli foram convertidos em lojinhas de suvenires sem personalidade. Não se sabe a origem exata das construções, mas uma das hipóteses seria um jeitinho que se encontrou para escapar do IPTU cobrado na época. Por ser uma construção feita de encaixes, elas poderiam ser facilmente derrubadas na ocasião da visita dos cobradores de tributos, e depois reerguidas. O bacana é que lá conhecemos Mimmo, um figuraça que nos guiou pelo lugar. Depois do tour, o almoço, preparado pela mãe dele, foi servido em um dos trulli que a família aluga para turistas. O nível das hospedagens estava alto e manteve-se assim até o final. Naquele dia fomos dormir nos arredores da cidade de Fasano (a mesma de onde veio a família do restaurateur Rogério Fasano).

Uma ruazinha com várias casas no estilo arquitetônico trulli, em
O centrinho de Alberobello é uma celebridade da Puglia. Branquinho, é todo feito de trulli, as casas em forma de cone. Peter Adams/Getty Images

Eu fiquei na Masseria Torre Coccaro, e o restante do grupo ficou na Masseria Torre Maizza, propriedades vizinhas, do século 16. As masserias são o que há de mais sofisticado em hospedagem na Puglia, geralmente fazendas encravadas em olivais. À noite nos encontramos na Maizza para uma aula de culinária. Aprendemos a fazer panzerotti, um tipo de calzone frito, e orecchiette, a pasta típica da Puglia, que tem o formato de orelha. Outras masserias dignas de nota são a Salamina, que lembra um castelo medieval, e a Borgo Egnazia, a mais extravagante de todas – o lugar foi cenário do “sim” entre Justin Timberlake e Jessica Biel. A paisagem onipresente nos cinco dias foram os olivais, que num olhar menos atento cheguei a pensar que fossem todos iguais. Ledo engano. Essas árvores, que podem ter centenas de anos, parecem ter sido esculpidas, às vezes parecem dançar. Algumas são contorcionistas, se abraçam ou se repelem, podem ser unas, bipartidas, itálicas, podem ser gordas no caule como uma pintura de Botero, ou ao mesmo tempo disformes, antropomórficas e com peitos como uma escultura de Louise Bourgeois. Jamais tediosas.

Oliveiras, Puglia, Itália
Oliveiras na Puglia: jamais tediosas! Mathilde Ro/Unsplash

 

IN VINO VERITAS

Antes conhecida por uma produção de vinhos em massa com baixa qualidade, a Puglia tem tido sua reputação transformada nos últimos anos e vem ganhando prestígio. A especialidade são os tintos, e principalmente das uvas Primitivo e Negroamaro. Alguns bons custo/benefício são o Taurino Salice Salentino Riserva 2008, o Leone de Castris Salento Negroamaro Elo Veni 2010 e o Castello Monaci Salento Negromaro Maru 2008. Vale colocar no roteiro a visita a vinícolas como a Masseria Altemura e a Castel Di Salve.

BRINDISI

Em uma viagem de bike, quem dita o ritmo é o grupo, e há grupos que viajam em modo traveling, enquanto outros, em fast forward. Em muitos momentos achei que meus companheiros estavam levando aquilo a sério demais e passavam batido por paisagens que mereciam um pouco mais de contemplação. No aeroporto de Brindisi, na despedida, a septuagenária E.V. disse que foi inspirador o fato de eu não ser competitivo, de não me importar em ser o último sempre. Expliquei que pra mim era apenas uma questão de condicionamento e, se forçasse a barra, poderia me machucar ou desistir. E emendei que eu achava inspirador vê-la com aquele pique enquanto poderia muito bem estar em Boston tomando chá com scones. Rimos e, como quem acaba de protagonizar um capítulo de um livro de auto-ajuda, nos abraçamos. Arrivederci.

ONDE FICAR

No coração do centro histórico de Otranto, o Palazzo Papaleo tem nove quartos muito confortáveis. Simples e econômico é o B&B Viaprimaldo Camere. Em Alberobello, no Trulli e Puglia e no La Rosa dei Trulli, dorme-se em trulli, casinhas com telhado cônico típicas da Puglia. Nos arredores de Martina Franca, os trulli da Masseria Fumarola são confortabilíssimos. Na Masseria Serralta de Locorotondo, o café é servido no jardim. Em Fasano, as masserias Torre Coccaro e Torre Maizza são vizinhas, muito confortáveis e ficam em meio a olivais. A Borgo Egnazia é luxuosa, e a Salamina lembra uma torre medieval e serve pratos impecáveis da cozinha pugliese.

La Rosa dei Trulli, Alberobello, Puglia, Itália
O La Rosa dei Trulli é uma opção para quem quer se hospedar dentro de um trullo em Alberobello. La Rosa dei Trulli/Divulgação

ONDE COMER

Em Otranto, no Da Sergio serve-se o peixe do dia cobrado por peso. Na Cantine Menhir, já na cidade de Minervino di Lecce, dá para provar alguns dos melhores vinhos de Salento. Em Alberobello, entre os restaurantes, valem a visita o La Cantina e o Il Poeta Contadino. Em Locorotondo, vale passar no Curdunn, que serve ótimos antepastos. O Ai Tre Santi fica aberto às segundas, coisa rara na cidade.

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