O que fazer em Bariloche no verão

Mesmo na estação mais quente do ano, o destino de neve mais querido dos brasileiros tem programas até dizer chega

Por Manuel Gutiérrez Arana Atualizado em 27 dez 2021, 10h44 - Publicado em 23 dez 2021, 09h11

Deixe um pouco de lado os esquis, os bastões e os óculos de neve. Eu sei: Bariloche, sem eles, é como Rio sem biscoito Globo, São Paulo sem trânsito, Canasvieiras sem nós, argentinos. Nasci, cresci e vivo em Bariloche e, mesmo sabendo que a minha cidade vira Brasiloche no inverno, acho que há muito o que ser descoberto aqui verão. Quer ver?

O Cerro Catedral, imagino, deve ser um velho conhecido seu. É a atração mais visitada de todo o Parque Nahuel Huapi, atrai milhares de esquiadores todos os anos e está a 19 quilômetros do centro de Bariloche. Você pode chegar lá de carro alugado ou táxi. Eu prefiro a boa e velha carona, no dedão. Mas e no verão? Além de apreciar a beleza de Bariloche de cima, a ausência de neve permite fazer trekkings por florestas nativas, passeios de bicicleta ziguezagueando ousadamente pelas trilhas, rolês de quadriciclo e até passar uma noite (ou mais) no refúgio de montanha Emilio Frey, a 1 700 metros de altitude. O melhor jeito de chegar lá é pegar a trilha demarcada de quatro horas que começa na base do Cerro Catedral. Na maior parte do tempo, o percurso é fácil – exceto o trecho final, de queimar as panturrilhas. A recompensa no tiene precio. Lá de cima, isolado, o refúgio é construção toda de pedra, integrado à paisagem e está a poucos metros da Lagoa Toncek, cercada por agulhas rochosas.

Refúgio Frey
O Abrigo Frey (Refugio Emilio Frey) está localizado no Cerro Catredal, dentro do Parque Nacional Nahuel Huapi. Crédito: Mampu/Pixabay

Outros passeios bacanas são a visita ao Bosque de Arrayanes, típicas dali; o passeio de catamarã até Puerto Blast; à Ilha Vitória, a maior do Lago Nahuel Huapi; e também à Ilha Huemul, onde estão as ruínas de um projeto desastrado que foi bancado pelo então presidente Juan Domingo Perón para se realizar a fusão nuclear controlada.

Se quiser dar uma pitada incomum às suas férias, recomendo a pesca de trutas com mosca. Isso mesmo. O tirão do peixe no anzol, ao abocanhar a isca, é uma sensação e tanto, principalmente depois do difícil balé que é arremessar a linha sobre a água. Por não ser uma atividade tão difundida no Brasil, o ideal é contratar um instrutor. Se quiser ver pescadores em ação antes de encarar, sugiro dar um pulo no Rio Limay, a 10 quilômetros de Bariloche, e na região de Villa Mascardi, na direção do Cerro Tronador. Justo onde começa o Lago Guillelmo saia da Ruta 40 e pegue o caminho de terra que leva ao Rio Manso e aos lagos Mascardi, Fonk e Hess.

Rio Manso
O rio Manso é um rio da província de Rio Negro, na Argentina, e da região de Los Lagos, no Chile, ambos parte da Patagônia. Crédito: Erisanchezweb/Wikimedia Commons

Caiaque é outra mania durante o verão por aqui. Se for um dia sem vento e com a água lisinha, dá pra ir longe. Em poucos minutos remando, é possível chegar a uma praia isolada e montar um piquenique.  Alerta importante: mesmos no verão, o tempo pode virar num piscar de olhos e por isso é fundamental ter roupas de frio à mão.

Cerveza, cerveza!

Bariloche e seu centrinho têm bom apelo para quem visita a cidade, tanto pelas lojas de chocolate quanto pelos restaurantes que preparam defumados, tábua de frios, cordeiro patagônico e o tradicional curanto, um assado de carnes e legumes feito dentro de um buraco. A cidade também viu surgir na última década um polo cervejeiro que não para de crescer. A pioneira é a Blest, um pouco longe da região central, na Avenida Bustillo, no caminho para o icônico hotel Llao Llao. O lugar é muito procurado por famílias com filhos por haver um espaço para as crianças brincarem enquanto os pais esvaziam os canecos. A Berlina, vizinha à Blest, tem um agradável deque com vista para a cordilheira, mas o que recomendo de fato é a visita à fábrica deles, que fica na Colonia Suiza.

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Se a ideia for fazer um pub crawl, pegue o rumo do centro, à altura das ruas Elfein e Morales, em que as torneiras da Manush, da Antares e da Bachman jorram excelentes birras artesanais. A Manush é especialmente aconchegante por causa do seu teto baixo e ambiente pequeno. Além das cervejas, peça a batata frita com queijo e bacon, que, ouvi falar aqui, bate a de um tal de Outback aí do Brasil. Quem preferir mais agito, a Antares, que faz parte de uma rede de cervejarias espalhadas por várias cidades argentinas, tem boa música – aproveite para fazer uma degustação de todas as cervejas da casa em copinhos, proposta que também segue a vizinha Bachman. É comum que, na hora da happy hour, entre 18h e 20h, as casas ofereçam descontos de 50% nas cervejas – ou a cada tulipa pedida você ganha outra.

A poucos quilômetros do Llao Llao está o Cerro Campanario, de onde se tem uma vista de 360 graus de Bariloche. Eis um lugar perfeito para testemunhar as mudanças das estações. No outono, as variações de vermelho, amarelo e castanho dão a impressão de uma paisagem pintada a óleo; no inverno, o branco da neve cobre praticamente toda a superfície; no verão, as cores explodem em toda a sua vivacidade, especialmente o verde dos pinheiros, o amarelo das retamas, um arbusto endêmico, e os azuis dos lagos.

Cerro Campanario
O Cerro Campanario é um mirante a 1050 metros acima do nível do mar, de onde se tem uma vista de 360° das paisagens. Crédito: Hiroki Ogawa/Wikimedia Commons
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Villa la Angostura

A 80 quilômetros de Bariloche, eis outro lugar dos mais visitados no norte da Patagônia, Villa la Angostura, muito procurado no inverno por suas pistas de esqui no Cerro Bayo. O espírito por aqui é de cidade pequena, com uma arquitetura que até lembra a Suíça. Na Avenida los Arrayanes (a principal, de poucos quarteirões), está concentrada grande parte da sua oferta gastronômica e comercial. No verão, há três atividades que, para mim, são obrigatórias. Primeiro, provar as media lunas (ok, croissants). Segundo, descer até a Puerto Bahia Brava e caminhar pela costa arenosa de águas transparentes. Terceiro, prepare as pernas!, caminhar num total de sete horas, ida e volta, pelo Cajón Negro, emoldurado dos cerros Inacayal, Belvedere e Filo Belvedere, longe do barulho do turismo. É um tour ideal para se deixar relaxar pelo som da água do Arroyo Las Piedritas e apreciar os bosques que mudam de cor de acordo com a época do ano (verde no verão e vermelho no outono). A trilha começa a 1,5 quilômetro do Centro, pegando a Avenida Siete Lagos e dobrando na Calle Cacique Antriao, no Barrio Norte.

Rota dos lagos

De Villa la Angostura, uma estrada de 108 quilômetros conecta o destino à San Martín de los Andes. O percurso é recomendadíssimo por causa dos sete lindos lagos que há no caminho: Espejo, Correntoso, Escondido, Falkner, Villarino, Machónico e Lácar. De carro, é fácil e agradável, mas, sem dúvida, a maneira mais prazerosa é de bicicleta. Asseguro que a gratificação de chegar a um novo lago pedalando é bem maior e a curta distância entre um e outro deixa a viagem pouco cansativa. O mais bonito de todos? Há os que prefiram o Escondido, por ter seu espelho-d’água verde-esmeralda quase camuflado em meio à floresta. Mas eu gosto do astral do Falkner por seu camping e suas rodas de violão em torno da fogueira.

San Martín de los Andes, localidade de 30 mil habitantes, é conhecida, no inverno, pelo Cerro Chapelco, mas, no verão, quando a neve derrete e as encostas ficam cobertas de verde, se transforma em um parque de aventuras. Amarrados a uma tirolesa, adultos e crianças voam por entre as árvores, praticam escalada presos a cordas, descem 800 metros do Cerro Chapelco de tobogã a bordo de um carrinho, fazem trekking, passeios de bicicleta. O rafting é bastante recomendável para toda a família. O tormentoso rio dá uma trégua em certos trechos, permitindo um pouco de relaxamento e contemplação das cascatas que surgem em ambas as margens.

Nos limites do Parque Nacional Lanín, e ainda em San Martín, o vulcão que dá nome ao parque pode ser escalado pelos mais audazes. Milhares de turistas buscam o lugar para atividades de alta montanha e caminhadas. A subida ao vulcão é, com certeza, a experiência mais desafiadora por aqui: requer preparo físico e um bom guia. A sensação de ver o nascer do sol a partir do cume do vulcão é das mais increíbles.

Vulcão Lanin
O Vulcão Lanin faz parte de dois parques nacionais: Lanín na Argentina e Villarrica no Chile. Crédito: Luis Argerich/Wikimedia Commons

Travessia andina

O verão também é a melhor época para fazer a travessia dos lagos que conectam Argentina e Chile. A viagem envolve três embarcações, quatro ônibus e dez horas se preferir fazer todo o percurso no mesmo dia. O passeio começa na chilena Puerto Varas e chega a Bariloche, mas também pode ser feito no sentido inverso (você pode ir até Puerto Varas de ônibus pela Cruz del Sur). O ônibus que parte de Puerto Varas margeia o Lago Llanquihue e, em seguida, passa pelos Saltos Petrohué, uma série de cachoeiras cujas quedas verde-esmeralda correm sobre o que foi um dia a lava do Vulcão Osorno. Em seguida, embarca-se em um catamarã no Lago Todos los Santos, momento ideal para se desligar de tudo e se entregar à paisagem que surge na janela: o Osorno e também outros vulcões como o Calbuco e o Puntiagudo, cuja extremidade parece ter sido esculpida pelas mãos de um artesão. Esse trecho termina em Peulla, um pueblo tranquilo e encantador, onde é possível pernoitar se preferir fazer o roteiro em dois dias. A etapa seguinte é a travessia do Lago Frías, de um verde intenso, até Puerto Alegre. Mais um trecho de ônibus e se chega a Puerto Blest, para cruzar o Lago NahuelHuapi com destino a Puerto Pañuelo. Mais um ônibus e, voilá!, de volta a Bariloche.

ONDE FICAR

O já citado Llao Llao, com o seu campo de golfe de 18 buracos, ainda segue soberano como o melhor e mais caro hotel da cidade. Mas existem outras opções na região. Mais em conta e central o Hotel Nahuel Huapi tem quartos amplos. No Península Petit Hotel, as vistas para o Lago Nahuel Huapi são incríveis. Já em Vila la Angostura, uma boa opção para a família é o La Escondida que tem apartamentos de dois quartos. Quatro-estrelas, o Correntoso Lake & River fez fama por seu chá da tarde. Quando estiver em San Martin de Los Andes, vale se hospedar no simples La Posta del Cazador na avenida principal. Para um upgrade, o Antares Patagonia, ao lado, tem piscina climatizada.

ONDE COMER

Com cara de cervejaria, o Família Weiss é uma instituição de Bariloche. Por estar situado dentro de um bosque, o clima do Cassis é bem romântico. Para um bom fondue, busque o Chez Philippe.

ONDE COMPRAR

Os principais pontos de compra em Bariloche são a Avenida Bustillo e a Calle Mitre. A Bustillo é ideal para quem procura suvenires: visite a loja El Coihue (km 15,5), especializada em prataria criolla e mapuche, a Belém (km 3), para cerâmicas e velas artesanais, e a Origen (km 3,8), que vende cestos de palha. A Mitre concentra as principais chocolaterias, como a charmosa Mamuschka (nº 298), a Del Turista (nº 239), com mais opções, a Rapa Nui (nº 202), famosa pelas trufas de doce de leite, e a Fenoglio (nº 301), a mais tradicional.

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