Viajei para fazer teatro no sertão nordestino e fui recebida com Carnaval

Viajo muito por conta dos shows que faço pelo Brasil e acho isso precioso. A mudança das paisagens, pessoas, falas, cheiros… valem cada noite maldormida, cada pescoço doído.

Das memórias que tenho da estrada, lembro de uma em especial. Eu fazia parte do Teatro Oficina, de Zé Celso Martinez Correa, e ficamos em cartaz em São Paulo com a peça Os Sertões por seis anos. Depois fomos pra Berlim, Rio, Recife, Salvador… Quixeramobim e Canudos.

Cheguei a Quixeramobim, onde nasceu Antônio Conselheiro, com as cinco peças de Os Sertões, que contava, com um pé no chão e outro com os deuses, o livro de Euclides da Cunha. Zé Celso fazia Conselheiro, Marcelo Drummond era Euclides, e nós, músicos, atores, técnicos, virados em mil personagens. Fomos pra rua com tambores, figurinos, espalhando a notícia pela cidade. Só que a notícia já tinha se espalhado antes de a gente chegar. Algumas pessoas do grupo estavam lá havia uma semana e, a cada passo que dávamos, uma situação emocionante se formava.

Na estação central tinha bumba meu boi, bloco de carnaval, a bandinha de lata das crianças da escolinha do MST e muita gente da cidade formando um carnaval lindo. Íamos pela rua, tocando, cantando o hino do bloco Adeus Amigo. “Adeus, amigo, adeus nosso amor! Até para o ano, se nós vivo for! O nosso bloco não tem rival, Adeus Amigo, não há outro igual!” Mareiam os olhos aqui só de lembrar. Na frente da igreja tinha a bandinha municipal tocando pra receber a gente.

De lá fomos pra Canudos, onde aconteceram a guerra e o massacre. Estávamos ali pra encenar todas as partes dessa história. A cidade nos acolheu como mãe. Ficamos espalhados entre duas pousadas e nas casas de alguns moradores, que nos receberam com aquela gentileza forte e aquela força gentil que o sertão tem de sobra. Em Canudos, tivemos amigos, história, música, teatro, trabalho, comida boa, água boa e o luar do sertão. E os meus olhos, só de lembrar, mareiam de novo.

 (foto: divulgação)

Karina Buhr sente uma falta danada do luar do sertão (foto: divulgação)

Texto publicado na edição 223 da revista Viagem e Turismo (maio/2014)

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