Trabalhar na Disney: tudo sobre o Cultural Exchange Program

Para praticar o inglês e ganhar experiência internacional, jovens universitários podem passar até 3 meses trabalhando no complexo, em Orlando!

Por Barbara Ligero Atualizado em 29 ago 2018, 14h09 - Publicado em 28 ago 2018, 16h26

É fã da Disney? Que tal bater cartão (literalmente) nos parques durante as férias de verão inteiras?! A maior empresa de entretenimento do planeta mantém um conhecido programa de intercâmbio profissional para universitários do mundo todo, o Cultural Exchange Program, mediado, no Brasil, pela operadora STBEm 2017, 4 500 brasileiros se inscreveram no programa – cerca de mil foram aprovados.

Para a Disney, trata-se de atrair uma mão de obra jovem, internacional, bilíngue, empolgada e relativamente qualificada a um custo baixo, já que os gastos da viagem (passagem, visto, seguro, alimentação) correm por conta do estudante, e a estadia, em condomínios da própria Disney, é descontada do salário dos intercambistas.

  • Para um jovem universitário, viajar sozinho ao exterior por tanto tempo – e cheio de responsabilidades – pode despertá-lo para a vida adulta no timing certo. Nas horas vagas, a troca cultural com jovens de outros países e a autonomia para administrar tempo, dinheiro e programação são uma espécie de vestibular da maioridade. Bônus: todos entram nos parques na faixa, e, depois do intercâmbio, têm um mês de visto para viajar pelos States – se sobrar grana.

    Sim, o trabalho é duro, a remuneração pode variar e a frequência com que se pratica o inglês depende da vaga, mas seu currículo ganhará um bom diferencial (e seus netinhos, quando souberem que você já esvaziou todas as lixeiras do Magic Kingdom, retribuirão a anedota com uma larga risada).

    Noves fora, o investimento na viagem – uns R$ 8 000 – não é dos mais altos, sobretudo para uma estadia de pelo menos dois meses. A seguir, tudo sobre intercâmbio na Disney.

    Instagram @themainstreetmouse/@waltdisneyworld/Reprodução

    Não banque o Pateta: tire as suas dúvidas

    Quais são os pré-requisitos? 

    É preciso ter, no mínimo, 18 anos até o início do processo seletivo (lá pra maio), falar inglês avançado ou fluente (mas sem a necessidade de um certi-
    ficado) e estar cursando a partir do segundo semestre de um curso de bacharelado presencial e reconhecido pelo MEC.
    O programa também requer disponibilidade para viajar de novembro a fevereiro e para morar com estudantes de outros países.

    Tem custo?

    Sim, o da viagem: cerca de US$ 1 000 pela passagem aérea (ida e volta), US$ 160 de visto, US$ 150, por mês, de seguro-saúde internacional (exigido pela Disney) e assessment fee (US$ 354,50, em 2018), um pagamento antecipado das duas primeiras semanas de acomodação.

    Com três meses de seguro, a conta bate nos US$ 1 900 (ou R$ 7 747, no câmbio a R$ 4,08). As outras despesas (demais semanas de acomodação, lazer, alimentação, passeios) podem ser cobertas pelo seu salário da Disney.

  • Qualquer curso universitário é aceito?

    Sim, mas a experiência é mais proveitosa para ganhar experiência em turismo, hotelaria, gastronomia, relações internacionais e administração.

    Onde e como é o processo seletivo?

    Em 2018, as palestras e entrevistas da 1ª etapa aconteceram em Goiânia, BH, Recife, São Paulo e Floripa – para 2019, cadastre-se aqui para se manter atualizado. Os candidatos aprovados na 1ª fase realizam as entrevistas da 2ª etapa em São Paulo – quem não mora na cidade tem de arcar com essa viagem. 

    Instagram @thedisneyfox/@waltdisneyworld/Reprodução

    Quanto tempo dura o programa? Dá para esticar a estadia?

    O intercâmbio dura de dois a três meses (a critério da Disney) e é sempre entre novembro e fevereiro, em datas estipuladas pela empre-
    gadora. Terminado o contrato, o visto de trabalho J-1 Summer Work and Travel permite que o estudante fique por mais um mês nos EUA como turista – o chamado grace period. É comum os jovens utilizarem o dinheiro economizado para “tirar férias” e viajar pelos EUA nesse mês extra.

    Como é o trabalho?

    Você pode atuar em qualquer um dos cinco parques e das dezenas de hotéis, restaurantes e lojas que fazem parte do complexo Walt Disney World. Trabalham-se, no mínimo, 30 horas por semana, carga que pode aumentar dependendo da função, do local de trabalho e da época – no Natal
    e no Ano-Novo, a lotação dos parques estende a jornada dos cast members

    Funcionário da Disney: as funções dos cast members na produção da magia

    Quem escolhe o seu cargo é a Disney, mas os recrutadores levam em conta os interesses dos candidatos. “Eles só não gostam quando suas opções são muito restritivas”, diz Tales Roder, que passou no processo e dá a dica para a entrevista. Se você for aprovado mas não gostar da vaga, pode desistir do programa. Antes, familiarize-se com as principais funções:

    AttractionsCuidam das filas na entrada dos parques e nos brinquedos e controlam a multidão nas paradas. A função tem muito contato com os visitantes (bom para o inglês), mas a responsa com segurança é grande.

    Character Attendant: Testemunha de momentos mágicos dos visitantes, a função é dar suporte aos personagens: você deve auxiliar os character performers a se locomover (as roupas tiram a visibilidade), controlar as filas de quem quer conhecê-los e ajudar os fãs a tirar fotos.

    Character Performer: É quem incorpora os personagens, tira fotos e dá autógrafos. Além de ser um papel mágico, programa 30 minutos de descanso para cada 30 de trabalho. A escolha, criteriosa, avalia o uso da linguagem corporal na interpretação do personagem. Os escolhidos também precisam ter medidas específicas, mas só experimentam a roupa em Orlando: se não servir, acabam em outra função; se servir, precisam suportar o calor da fantasia, a visão limitada e a comunicação restrita a gestos.

    Custodial: Quase qualquer função envolve limpeza em algum nível, mas só o custodial troca papéis higiênicos e esvazia lixeiras, além de recolher o lixo do chão das áreas comuns. Como circulam pelo parque, são abordados pelos visitantes, bom para a conversação, mas andam bem e carregam peso.

    Merchandising: Trabalham nas lojas como vendedores, caixas e, numa função mais solitária, estoquistas. Costumam fazer mais horas extras (e ganhar mais), mas lidam com dinheiro e produtos que valem dinheiro.

    Quick Service: Em lanchonetes e carrinhos, cuidam do preparo da comida, do atendimento e da limpeza. Rende horas extras, mas é puxado.

    Tem muitas regras?

    Além do controle de atrasos e faltas, existe o chamado Disney Look, que regula tanto a estética quanto as atitudes dos colaboradores. Independentemente da função, os cast members devem ser sempre amigáveis e solícitos com os visitantes.

    Entre as proibições, não podem usar o celular no expediente nem deixar à mostra tattoos ou piercings. Os meninos devem fazer a barba; as meninas, evitar makes e esmaltes chamativos. Para ambos os sexos, são vetados cortes de cabelo extravagantes. Menores de 21 anos pegos bebendo (inclusive nos condomínios) são sumariamente demitidos.

    O salário é bom?

    Desde de US$ 10, por hora – como a Disney garante, no mínimo, 30 horas de trabalho semanais, dá US$ 300 pelo período ou mais. Porém, passadas as duas semanas de acomodação que você deixou pagas, as seguintes são descontadas do salário.

    O valor varia com a localização do condomínio e a quantidade de pessoas no apartamento – em 2017, ficou entre US$ 99 e US$ 130, por pessoa. Assim, sobram pelo menos US$ 170 semanais para alimentação, lazer, compras e o transporte (quando não incluído).

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    Instagram @longoluongo/@waltdisneyworld/Reprodução

    Como é a acomodação? 

    A Disney tem quatro condomínios para os cast members. Os apartamentos são divididos entre meninos e meninas, menores de 21 anos e maiores. Cada unidade (para até oito pessoas) reúne sala, cozinha e suítes duplas ou triplas – a lavanderia é coletiva do condomínio. Os candidatos elencam seus condomínios preferidos no processo seletivo, mas não podem escolher com quem vão morar.

    E o transporte? 

    Como as acomodações são distantes, a Disney circula ônibus o tempo todo aos parques, diários ao Walmart e semanais ao shopping mais próximo. São grátis e passam na porta dos condomínios – que, em alguns casos, ainda têm ponto de ônibus perto (embora o transporte público seja ruim).

  • E a alimentação?

    A Disney não dá auxílio. No backstage dos parques, há restaurantes para funcionários com comida variada (de sandubas a pratos congelados, mas não em bufês) a preços amigáveis. Os cast members também encontram micro-ondas para esquentar a própria refeição. Nos apartamentos, fazem sucesso as comidas congeladas, mais baratas e convenientes, mas há quem cozinhe.

    Posso desistir no meio do intercâmbio?

    Pode, mas seu contrato e visto de trabalho serão cancelados: você não apenas perderá o grace period como terá de se virar para voltar ao Brasil até o dia seguinte.

    Vou ganhar dinheiro?

    Se isso for fundamental, priorize as funções de merchandising quick service, que geram mais horas extras. Mas, mesmo em outra vaga, é raro ganhar só o mínimo – o salário cobre as despesas do dia a dia, de lazer e, às vezes, de roupas, eletrônicos ou a trip do grace period. 

    Instagram @johanna_oakes/@waltdisneyworld/Reprodução

    Só não conte com a viagem inteira paga (incluindo passagens, visto, seguro). Aproveita mais quem vai com o foco de aprender e curtir, e não de guardar dinheiro.

    Terei tempo para o lazer?

    Os cast members têm, no mínimo, um dia de folga semanal, além das horas livres antes e após o expediente. Nesses períodos, entram em todos os parques da Disney sem pagar e passeiam livremente dentro e fora de Orlando.

    Vale a pena para conhecer a Disney?

    Ter acesso grátis aos parques é uma boa economia. Se esse for o objetivo maior, prefira os trabalhos ao ar livre, como custodial e attractions, ou que permitam trabalhar em vários parques, como character attendant.

    Ajudar a constuir essa magia é o lado oposto de quem viaja apenas para se deslumbrar, mas ter acesso aos dois lados é uma oportunidade que nenhum ingresso dá: os intercambistas acabam indo aos parques (inclusive nas horas vagas) mais que qualquer turista.

    Instagram @jhelms1/@waltdisneyworld/Reprodução

    Meu inglês vai melhorar?

    Depende do nível de contato da sua função com o público. Os character performers, por exemplo, só se comunicam com as crianças por gestos. As conversações em inglês são mais garantidas nos condomínios, entre os estudantes de várias partes do mundo, e no cotidiano em Orlando.

    Posso voltar à Disney em outro intercâmbio?

    O Cultural Exchange Program é pré-requisito para qualquer outro intercâmbio da Disney. De volta ao Brasil, você poderá se candidatar ao Super Greeter, para trabalhar no verão americano, entre maio e agosto. Esse processo é feito diretamente pela Disney e não exige uma faculdade em curso.

    Os depoimentos de quem já fez o Cultural Exchange Program

    “Não passei na segunda fase e me desesperei, mas houve desistência e fui chamada, depois, para ser character performer. Foi demais! Você interage com as crianças e faz parte da magia. A única parte ruim era o calor dentro da roupa. Ainda consegui juntar uma graninha para um celular.” – Gabriela Bueno, estudante de turismo, 22 anos

    “Fui custodial no Magic Kingdom e adorei. Erguer sacos de lixo era cansativo, mas eu gostava de poder andar pelo parque. Como eram no mínimo 44 horas semanais, juntei dinheiro para a minha viagem a NY.” – Giovanna Penteado, estudante de turismo, 23 anos

    “Atuei como merchandising em 15 lojas dos parques. Nunca era monótono, a interação com diferentes nacionalidades aperfeiçoou meu inglês e ver tantas dinâmicas de socialização foi útil para o meu curso.”  Julia Mahy, estudante de psicologia, 22 anos

    Na expectativa: o processo de seleção, mês a mês, para se planejar já

    Janeiro/Fevereiro

    Já é possível se cadastrar no site da operadora de intercâmbio STB (parceira da Disney), para se manter atualizado, por e-mail inclusive, sobre o período de inscrições.

    Março/Abril

    Em data a definir (um e-mail avisará), as inscrições são liberadas no site. Comece a pensar nas funções que gostaria de desempenhar e providencie, para a entrevista, o currículo em inglês e uma foto 3×4.

    Maio/Junho

    É chegada a 1ª etapa do processo seletivo. A STB organiza palestras para apresentar o Cultural Exchange Program aos candidatos e, ao final de cada evento, distribui as senhas das entrevistas, que podem acontecer até no mesmo dia.

    Feitas em inglês, em duplas ou trios, têm como objetivo conhecer o candidato, seus interesses no programa e o domínio do idioma. Os mais simpáticos, comunicativos e articulados costumam levar vantagem sobre os acanhados e lacônicos.

    Julho

    O resultado da 1ª etapa é divulgado. Se for aprovado, prepare o passaporte e o comprovante de matrícula assinado pela faculdade.

    Agosto

    Os recrutadores da Disney vêm ao Brasil para a 2ª fase, e ser fã do complexo não os convencerá: será preciso demonstrar muita disposição para trabalhar e as habilidades necessárias para algumas funções.

  • Setembro/Outubro

    Os escolhidos recebem a proposta de trabalho com a função para a qual foram aprovados, o salário e as datas do programa. Têm uma semana para aceitar e pagar o assessment fee, após o qual recebem o documento que oficializa o intercâmbio – o mesmo que será usado para obter o visto J-1 Summer Work and Travel. Hora também de comprar as passagens e contratar o seguro de saúde.

    Novembro/Dezembro

    Com tudo em mãos, os embarques começam. Em Orlando, os estudantes seguem para os apartamentos e tiram a foto do crachá. Em seguida, há uma recepção, palestras e treinamentos.

    Na internet

    Os sites Segunda Estrela à Direita e Cast Members Brasil reúnem dicas para as entrevistas, descrições dos condomínios, formas de economizar e depoimentos de quem já foi.

    Publicado na edição 268 da revista Viagem e Turismo

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