Será que eu ainda vou estar aqui quando você terminar sua volta ao mundo?

De todas as perguntas e preocupações que ouvi quando eu e o Pedro contamos lá em casa que partiríamos numa viagem de volta ao mundo, uma abalou o meu coração. “Será que eu ainda vou estar aqui quando você voltar?”, perguntaram aqueles olhinhos molhados da minha avó Zulmira, no alto dos seus 84 anos.

Não sei. Sou otimista até demais, mas a verdade é que não dá pra saber. Ninguém sabe. Com um nó na garganta, eu só disse: “Vó, continue indo na hidroginástica, mantenha a leitura em dia e aguente firme”.

Naquele dia, decidi que enviaria cartões-postais para ela de cada lugar que visitasse ao longo deste um ano (já estamos no quarto mês e até agora seguimos, ela e nós, firmes e fortes). No Instagram, criei a conta @para_vovozu para mostrar os postais em seu local de origem, antecipando o que ela um dia receberá pelas mãos do carteiro.

Vó, em cada lugar a que vou, lembro de você. Sempre que eu pensar em Zanzibar, vou lembrar da areia, tão branca e fina que parece Maizena.

Fiquei pensando que você ia gostar do mar daqui. Quentinho, bem como a gente gosta. Ainda na Tanzânia, vó, foi com olhos de criança curiosa que vi o passo longo da girafa, a proteção dos elefantes com seus filhotes e a desconfiança das zebras que olhavam com cuidado para o leão, que, por sua vez, dormia. A natureza é tão sem complicação, tão sem drama, né, vó?

Em Atenas senti uma saudade daquelas. A Grécia sempre foi o lugar que você quis conhecer. Lembrei disso enquanto caminhava pela Acrópole, quando acordei com o sorriso de uma ilha grega no rosto, quando avistei as primeiras casinhas brancas em Santorini e enquanto nadava no mar azul de Folegrandos. Foi como nadar no céu.

E, falando em céu, Madri, vó, tem um céu que teima em não ficar escuro, que chama pra vida e que me faz parar a cada 30 minutos para olhar pra cima. Não é uma cidade tão linda, mas é deliciosa pra viver, mesmo que seja só por alguns dias.

Até agora, vó, eu vi muito Kremlin, muita Ponte Carlos, muito Parque Güell, mas meu olhar sempre se fixa naquelas coisas mais simples que você, com tanto carinho, me ensinou a enxergar e a valorizar. Segura aí, vó; faltam só alguns meses.

Luciana Araújo está com saudade do bolinho de chuva da vó Zu (foto: arquivo pessoal)

Luciana Araújo está com saudade do bolinho de chuva da vó Zu (foto: arquivo pessoal)

Texto publicado na edição 228 da revista Viagem e Turismo (outubro/2014)

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