Roteiro: 48 horas em Berlim

Dos fantasmas do nazismo e do muro a símbolo da Europa unida

Por Eduardo Jun Marubayashi Atualizado em 5 fev 2019, 18h43 - Publicado em 11 jul 2012, 18h10

Atualizado em janeiro de 2019

Berlim representa o novo, o antigo e o imemorial para os alemães. Enquanto as elusivas fronteiras de Alsácia, Silésia e Pomerânia embarcaram o país em guerras sórdidas, sua capital manteve a aura de bastião da alma e cultura germânicas.

Berlim reservou registros definitivos do século 20, como a tomada da cidade pelos soviéticos e o fim do regime nazista, as cinematográficas fugas da opressão comunista e, em 1989, a queda do Muro, simbolizando o fim da Guerra Fria. Entre John Kennedy declarar ser um berlinense (Ich bin ein Berliner) e Angela Merkel apontar artilharia pesada para os fanfarrões mediterrâneos, a cidade tornou-se o símbolo da Europa unificada, absorveu seus fantasmas e modernizou-se. Ou quase, já que seu tão aguardado novo aeroporto custa a decolar.

Seja como for, nestas 48 horas em Berlim você terá um roteiro com tudo isso e mais um pouco, se deparará com um ou mais tesouros vindos da Turquia, tropeçará em uma certa nostalgia marxista e rememorará capítulos cruciais de nossa história recente.

Dia 1

O local ideal para iniciar nossa jornada é aos pés do Portão de Brandemburgo. Terra de ninguém no período pós-guerra, tornou-se o principal ícone da queda da Cortina de Ferro. A imagem de jovens derrubando a marretadas o odiado muro que dividia a cidade em Oriental e Ocidental só encontraria par nos fogos de artifício junto ao portão, em celebração à unificação do país, um ano mais tarde.

Portal de Brandemburgo - Berlim, Alemanha
O Portão de Brandemburgo tornou-se o principal ícone da queda da Cortina de Ferro Klearchos Kapoutsis/Creative Commons/Flickr

Logo ao lado está o histórico edifício do parlamento alemão, o Reichstag. Casa do efêmero Império da Alemanha, foi duramente bombardeado durantes os momentos finais da II Guerra. Deixado de lado durante a cisão da cidade, só retomaria papel central com a reunificação do país e a grande reforma liderada por Norman Foster, autor de sua fantástica cúpula interior. Note que as filas para conhecer o prédio são enormes, então chegue realmente cedo.

Cúpula de vidro do Reichstag, atual sede do Parlamento Alemão, em Berlim
Cúpula de vidro do Reichstag, atual sede do Parlamento Alemão Thinkstock/Thinkstock
Reichstag - Berlim, Alemanha
Reichstag no verão Ross Huggett/Creative Commons/Flickr

Para conhecer um pouco mais sobre como Berlim lida com seu passado, caminhe alguns quarteirões em direção sul. No caminho você passará pelo Monumento ao Holocausto (Holocaust-Mahnmal), uma enorme e contundente sequência de estelas (placas) de concreto construída em memória aos judeus mortos sob o regime de Hitler. Não há menção às outras vitimas dos campos de concentração e outros tipos de perseguição – como os ciganos e homossexuais, mas mesmo assim é um silencioso e poderoso memorial às vítimas da intolerância.

Memorial aos Judeus Mortos na Europa, Berlim, Alemanha
Entre o Portão de Brandemburgo e a Potsdamer Platz está o o Memorial aos Judeus Mortos na Europa, também conhecido como Memorial ao Holocausto Thinkstock/Thinkstock

Alguns metros à frente está uma vistosa praça que há vinte anos era cortada pelo muro, Potsdamer Platz. Palco de um furioso plano de rejuvenescimento e hoje pontilhado por edifícios vanguardistas, as únicas pistas de seu atribulado passado são fragmentos completos do Muro. Construído a partir de 1961 para impedir a “fuga” da soviética Berlim Oriental para o setor aliado – administrado no pós-guerra por França, Reino Unido e EUA, ele chegou a ter mais de 150 quilômetros de extensão, circundando todo o perímetro de Berlim Ocidental. Isso, na prática, transformou toda essa área em uma ilha do capitalismo dentro da Alemanha Oriental.

Potsdamerplatz, Berlim, Alemanha
A praça Potsdamer, antes localizada na terra de ninguém, hoje é uma dinâmica área com modernos edifícios Thinkstock/Thinkstock

Com muitas famílias e amigos agora separados, tentativas de burlar o bloqueio começaram imediatamente, uma saga contada vivamente no Mauermuseum, o museu do muro, localizado junto ao antigo posto de controle americano, o Check Point Charlie. Se quiser ver como era o muro propriamente dito, siga em direção a rua Muhlenstrasse, onde uma seção integral de pouco mais de mil metros foi preservada. Conhecida como East Side Gallery, está coberta de grafites bem interessantes, mas hoje o local parece mais uma parede comum cheia de pichações.

East Side Gallery - Berlim, Alemanha
O pedaço preservado do muro hoje é o East Side Gallery, uma galeria de grafite. Hoje o local parece mais uma parede comum cheia de pichações Rae Allen/Creative Commons/Flickr

Uma tarde no museu

Um pouco mais interessante é a Ilha dos Museus, a Museumsinsel, que contém uma vasta e imperdível coleção de instituições ligadas à arte. Escolher uma dentre elas é missão difícil, mas talvez o Pergamonmuseum seja aquele que podemos considerar como sendo imperdível. Dentro dele estão grandes tesouros do Oriente, como uma reprodução do portão babilônico de Ishtar e, vindos da Turquia, o Altar de Pérgamo e o Portal do Mercado de Mileto. Vale não só pela beleza das peças expostas, mas também pelos arranjos da exibição, teatralmente belos, bem ao estilo germânico.

Pergamonmuseum, Berlim, Alemanha
O Altar de Pérgamo, originalmente localizado na Turquia, é uma das grandes atrações do Pergamonmuseum Jan Mehlich/Wikimedia Commons

Junto com o Pergamonmuseum, as outras instituições da Museumsinsel – Altes Museum, Neues Museum (onde está o famoso busto da esposa do faraó Akhenaton, Nefertiti), Alte Nationalgallerie e Bode Museum – estão relacionados coletivamente como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Altes Museum - Berlim, Alemanha
O Altes Museum é o mais importante do mundo quando o assunto é Grécia, Roma e Etrúria Red Junasun/Creative Commons/Flickr
Busto de Nefertiti, Neues Museum, Berlim, Alemanha
O busto de Nefertiti está no Museu Egípcio de Berlim, dentro do edifício do Neues Musem Andreas Rentz/Getty Images
Alte Nationalgalerie - Berlim, Alemanha
São três andares de uma rica coleção de esculturas do século 19 e pinturas do impressionismo francês, do classicismo e do romantismo, no Alte Nationalgalerie Jean-Pierre Dalbéra/Creative Commons/Flickr
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Bode-Museum - Berlim, Alemanha
O Bode-Museum abriga uma coleção de esculturas, peças bizantinas e medalhas Jessica Spengler/Creative Commons/Flickr

Quando a noite cair e a sorte convier, não perca um concerto da Filarmônica de Berlim. Por décadas conduzida pelo célebre maestro Herbert von Karajan, é uma das melhores orquestras do planeta. As entradas são caras e raras, mas valem cada centavo.

Orquestra Filarmônica de Berlim, na Kulturforum, Berlim, Alemanha
Sede da Orquestra Filarmônica de Berlim Sean Gallup/Getty Images

Para o jantar, siga para Kreuzberg, o antigo bairro dilapidado que hoje possui uma cena gastronômica bem interessante.

Dia 2

Vale a pena começar o dia caminhando por entre belos jardins barrocos e salões de rebuscada decoração em Charlottenburg. A residência dos monarcas Hohenzollern em Berlim não é tão faustosa como Versalhes ou Schonnbrunn, mas é uma ótima forma de mostrar que a cidade tem memórias que vão além dos tempos da guerra. Reserve toda a manhã para explorar o palácio e seu parque.

Palácio Charlottenburg, Berlim, Alemanha
Palácio Charlottenburg, Berlim, Alemanha Thinkstock/Thinkstock

Pegue agora um táxi e siga para a Kürfurstendamm, ou simplesmente Ku’damm, a grande rua do comércio berlinense. Antes da queda do muro este era “o” lugar da cidade para achar roupas de grife e acessórios bacanas. Hoje, não mais enclausurados, designers, lojistas e consumidores migraram para outros bairros, mas aqui ainda se encontram lojas, hotéis, cafés e bares interessantes. Hermès, Louis Vuitton, Prada e Chanel estão aqui para provar isto.

Kürfurstendamm, Berlim, Alemanha
A avenida Kürfurstendamm, popularmente conhecida como Ku’damm, é uma das mais animadas de Berlim, repleta de restaurantes e bares Sean Gallup/Getty Images
Kurfurstendamm, a grande avenida do comércio e da moda de Berlim, e a escultura que simboliza a Alemanha unificada
Kurfurstendamm, a grande avenida do comércio e da moda de Berlim, e a escultura que simboliza a Alemanha unificada Comstock/Reprodução

No extremo leste da avenida está uma igreja propositadamente deixada em frangalhos, Kaiser-Wilhelm Gedaniskirche. Bombardeada duramente no final da II Grande Guerra, foi mantida como está como um memorial sobre os horrores do conflito, tal como o Domo da Bomba, em Hiroshima.

Zooropa

Aproveite para fazer uma pausa para o almoço no restaurante Hasir Wilmersdorf. Esta rede especializada em comida turca – uma das minorias mais proeminentes da Alemanha – oferece pratos como o indefectível doner kebab, informalmente o prato mais típico de Berlim.

Próximo dali está o Kaufhaus des Westens, o popular KaDeWe, uma das maiores lojas de departamento do mundo. São nove pisos com diversas opções de compras, para homens, mulheres e crianças. Sua seção dedicada aos gourmets (e comilões, também) é tentadora.

A apenas alguns quarteirões a pé daqui está a estação de trem e metrô Zoo Banhof. Palco de muitas das ações descritas na dramática biografia Christiane F. – sobre uma adolescente que se prostituía para manter seu vicio em heroína –,  é também o tema da canção Zoo Station, da banda U2. Se estiver viajando com crianças, talvez valha a pena parar por aqui para conhecer um dos melhores zoológicos da Europa.

Parada final: Berlim Alexanderplatz

Aproveitando que estamos aqui, vá à estação e pegue a linha de metrô U-2 (coincidência?) até a parada Hausvogteiplatz e dali caminhe um pouco para conhecer a praça Gendarmenmarkt. Em um arranjo interessante encontram-se aqui, de um lado, a catedral dos huguenotes (protestantes franceses perseguidos pelos católicos em sua terra natal), Französische Dom, e, do outro, a Deutsche Dom, a igreja dos alemães. Entre elas está o Konzerthaus, a resposta do Leste para a Filarmônica ocidental. De quando em quando esta casa é utilizada para ótimos recitais e também para eventos do Festival de Cinema de Berlim.

Gendarmenmarkt, Berlim, Alemanha
Praça Gendarmenmarkt, com as igrejas alemã e francesa e o Konzerthaus Thinkstock/Thinkstock

Tomando novamente a linha U-2 e quase anoitecendo, é hora de conhecer a praça mais famosa da cidade, Alexanderplatz. Mais famosa, mas certamente não a mais bela, é bom frisar. O jeitão comunista do pedaço é marcado pela arquitetura estéril e o relógio que marca as horas de várias partes do mundo. O local ficou famoso globalmente por conta da série televisiva homônima, dirigida por Rainer Werner Fassbinder e também como locação perfeita do filme Adeus, Lênin!, uma divertida crônica sobre o fim da era marxista.

Se olhar para o alto, você encontrará a Fernsehturm, a torre de TV que tornou-se símbolo do lado comunista. Suba até o alto da torre e instale-se em seu restaurante giratório. Em termos gastronômicos, certamente não será aqui que você experimentará seu mais espetacular prato na Alemanha, mas provavelmente a vista compensará, e muito, todo o esforço.

Fernsehturm, Berlim, Alemanha
A torre de TV Fernsehturm é um dos marcos mais importantes de Berlim Sean Gallup/Getty Images

Se tiver mais um tempo…

Dia 3: Rume à vizinha cidade de Potsdam para conhecer o Palácio de Sanssouci, o retiro de verão de Frederico, o Grande, da Prússia.

Dia 4: Explore melhor os museus da cidade.

Dia 5: Não deixe de visitar o Tiergarten e as outras atrações do Kulturforum.

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