Por uma viagem mais verde

Sustentabilidade na viagem: um não tão pequeno manual com dicas de como deixar um destino melhor do que você o encontrou

Por Laura Capanema Atualizado em 14 dez 2016, 11h57 - Publicado em 17 set 2011, 19h43

O destinoEscolher para onde viajar conta mais do que a gente imagina. Ir a uma praia do Sudeste do Brasil no verão gera um impacto acima do razoável. “O viajante tem de respeitar a capacidade do lugar e sempre se perguntar se há estrutura para tantas pessoas na temporada”, diz o engenheiro florestal Tasso Azevedo. Para Paula Arantes, consultora de ecoturismo, é importante planejar as férias com antecedência: “Viajar no impulso é insustentável”, afirma. Ir contra a corrente é sua dica: “A praia no inverno é uma delícia. No Brasil, há sol em quase todas as regiões e a hospedagem pode ser três vezes mais barata que no verão”, diz.O hotelNo Brasil e no exterior, há muitos hotéis e pousadas que começam a adotar uma agenda verde. Mas quão verde? Para o climatologista Carlos Nobre, autoridade brasileira em mudanças do tempo, é preciso bem mais do que separar lixo. “Algumas pousadas já foram construídas com o que chamamos de arquitetura verde, otimizando o consumo de energia e de água”. E isso significa mais do que usar bastante a luz solar e captar a água de chuva. A economia de energia pode ser de até 80% em relação a uma construção convencional. Não se culpe por desconfiar dos estabelecimentos que se dizem sustentáveis demais. Muitos resorts separam lixo, envolvem a comunidade em suas atividades e, claro, fazem bastante propaganda disso; mas a própria natureza do negócio – servir comida e bebida abundantes a todo momento – tem pouquíssimo a ver com conservação.A bagagemLevar uma mala mais leve é das regras básicas para evitar dores nas costas, não pagar excesso de bagagem e exigir menos combustível dos aviões – 10 quilos a menos na mala podem significar 3 toneladas a menos de peso no avião. Na nécessaire, os produtos de banho devem estar em recipientes pequenos (e deve-se reutilizar o mesmo frasco sempre que possível). Dar preferência a fórmulas líquidas ou biodegradáveis sempre. “Sabonete branco em barra tem muita soda cáustica e é bem mais poluente”, diz Paula Arantes. E até os veículos impressos entraram na berlinda. “É melhor ler jornal e revista no iPad ou em sites do que comprar as edições impressas todos os dias.”O transporteUm avião emite quase 1 tonelada a mais de gases poluentes que veículos automotores pela mesma distância percorrida. Ninguém precisa deixar de voar, mas é interessante pensar em trem e ônibus nos trechos curtos, mesmo com as barbadas das low-fare. Algumas companhias aéreas, como a Air France/KLM, a TAP, a Lufthansa e a Swiss, também trabalham com um sistema de compensação da emissão de gases: paga-se um pouco a mais pela passagem e ganhase, em troca, o plantio de árvores correspondente à quantidade de CO2 emitida no voo. A tecnologia também está sendo usada para conservação de energia. Espera-se para ainda este ano a estreia comercial do novo jato da Boeing, o 787 Dreamliner, feito de materiais mais leves e cujo consumo de combustível deve ser 20% menor que o dos atuais aviões comerciais. A TAM também já fez testes com óleo de pinhão-manso, uma biomassa vegetal brasileira. Com o carro, a regra é cuidar para não consumir desnecessariamente. Calibre os pneus e dê preferência ao álcool (proveniente de fontes renováveis). Procure também levar o maior número de pessoas com você. Para quem gosta de pedalar, viajar de bicicleta não é mais uma temeridade: há uma série de destinos apropriados e deliciosos para bikers.O comportamentoA consultora Paula Arantes avisa que produzimos mais lixo viajando do que quando estamos em casa. “O mais complicado é encontrar estrutura para reciclagem em cidades menores ou praias mais isoladas.” Paula conta que, nesses casos, traz o lixo produzido de volta para casa. “As embalagens vazias não pesam, e eu levo uma sacola de tecido para guardá-las”, diz. Nos hotéis, economizar é a regra. Deve-se evitar o hábito de usar uma nova toalha a cada dia ou deixar o ar-condicionado ligado quando não se está no quarto. Você já se torna um hóspede mais consciente ao rejeitar, no hotel, aquilo que não usaria em casa. Um teste: ao entrar no banheiro do quarto e ver muitos frasquinhos de plástico com xampu e condicionador, você: a) a-do-ra; b) pega todos eles e a reposição dos dias seguintes para levar para casa; c) lastima o uso desnecessário do plástico empregado na embalagem.Não é preciso dizer qual é a alternativa simpática ao planeta. “O ideal é que todos os estabelecimentos passassem a usar um compartimento para a retirada do líquido já dentro do banheiro”, diz o engenheiro Tasso Azevedo. Esse dispositivo já existe em alguns hotéis descolados dos Estados Unidos.Por fim, ao fazer um passeio turístico, dê preferência a guias e operadoras locais e evite o uso de qualquer transporte que represente risco ao meio ambiente, como barcos motorizados que jogam óleo e resíduos na água.A comidaQue os cuidados com a alimentação são fundamentais todo mundo sabe. Mas você pode ir além ao se informar se o que está sendo servido é realmente local e daquela época do ano. Comer lagosta em uma pousada na serra pode ser romântico, mas significa energia extra desprendida em transporte e conservação. E entre tomar água mineral de garrafa ou água do filtro, fique com a segunda opção, a menos que não haja garantia de qualidade. O planeta vai agradecer pelo menor consumo de plástico.A cartilha do viajante sustentável1. Tente não visitar um destino na alta temporada, especialmente se ele não suporta enorme fluxo de turistas. Se possível, evite a praia mais badalada do verão ou o destino de inverno da moda.2. Na mala, leve sacolas de tecido (as ecobags). São boas para pôr roupas sujas e guardar lixo. Procure também usar apenas produtos de beleza biodegradáveis.3. Prefira acomodações que tenham práticas sustentáveis (reciclagem de lixo, reúso de água, utilização de mão de obra da comunidade etc.)4. Nos deslocamentos curtos, evite avião.5. Faça revisões periódicas no carro (especialmente antes de viajar) e prefira o álcool, que emite menos CO2 que a gasolina e o diesel.6. Compre suvenires produzidos pelos locais. E risque da lista os que usarem conchas e pedaços de coral.7. Evite comer peixe de água salgada em destinos distantes do mar.8. Não retire nada da natureza – exceto lixo.O modelo BonitoComo a cidade do Mato Grosso do Sul consegue preservar sua natureza sem rechaçar o turismoNormalmente é assim: um lugar com atrações naturais exuberantes um dia se torna destino badalado. Operadores de turismo passam então a comercializá-lo e, com o tempo, a cidade é invadida pelo turismo de massa. Logo, a natureza começa a pagar a conta.Mas isso não se deu com Bonito. Campeão histórico do Prêmio VT na categoria destino de ecoturismo, o lugar encanta por suas águas límpidas e pela fauna que a habita. A novidade de Bonito é que o município não tem áreas de preservação ambiental. Há um parque nacional, o da Serra da Bodoquena, nos arredores, mas as principais atrações da cidade ficam fora dele. O controle estrito de visitação – com preços acima da média das atrações brasileiras – e o sistema de comercialização, exclusivo de agências credenciadas, ajudam a evitar que o lugar siga o mau caminho.Nem mesmo o número cada vez maior de turistas – em 2010, foram à cidade 276 mil deles, 106 mil a mais que dois anos antes – parece representar uma ameaça. Para especialistas, o modelo de Bonito, com muitas das decisões sobre o turismo nas mãos da iniciativa privada, joga a favor da preservação. Edgar Werblowsky, da operadora especializada em destinos de aventura Freeway, é um adepto. “Os proprietários cuidam bem dessas terras, pois sabem que, do contrário, o retorno econômico não vem.” Para o consultor de ecopolítica Sérgio Abranches, “é mais fácil as coisas darem certo em Bonito. A maioria das trilhas é feita a pé, o que impacta bem menos”. “Em Fernando de Noronha”, segue ele, “é um absurdo a quantidade de bugues e pousadas que são construídas sem licenciamento.” Para ir às principais atrações de Bonito, como o Abismo Anhumas – a maior caverna submersa do mundo -, a famosa gruta do Lago Azul e as flutuações e os mergulhos nos rios Formoso e da Prata, é preciso comprar um voucher. “Com ele, a arrecadação é dividida entre os gestores envolvidos e há um controle absoluto sobre quantas pessoas estão fazendo os tours”, diz Lucila Egydio, bióloga e especialista em ecoturismo. Bonito ainda conta com 120 guias profissionais, além de uma equipe de geólogos e biólogos que trabalha para monitorar o impacto que a visitação causa no meio ambiente.

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