Onde o frio é mais charmoso

Gonçalves, na Serra da Mantiqueira, conquista cada vez mais paulistanos. Visitamos restaurante estrelado, pousadas de charme e lojinhas descoladas

Tanea Romão comandava uma metalúrgica e uma fábrica de embalagens de plástico de médio porte em São Paulo. Cynthia Gavião tocava seu ateliê em uma rua descolada nos Jardins. Um dia, as duas jogaram tudo para o alto – para o alto da serra, mais precisamente. Tanea fechou as portas de suas empresas, saiu da capital e mudou radicalmente seu rumo profissional. Cynthia continuou trabalhando com cerâmica, mas bem longe da loucura da pauliceia.

Conheci ambas em Gonçalves, no sul de Minas Gerais, e percebi que havia outra característica a uni-las. Hoje, a primeira recebe os clientes no seu restaurante Kitanda Brasil com um sorriso largo no rosto – que, tive a impressão com uns poucos minutos de conversa, parece nunca se desfazer. A segunda deixa abertas as portas de seu ateliê, com uma varanda que enquadra um laguinho e a serra – e, mesmo tendo de cuidar de duas sobrinhas e da temperatura do forno em que estavam suas peças, não se furtou a puxar um banquinho e me contar sua história, com uma serenidade de dar inveja. Não sei se foi a mudança que fez tão bem a essas duas mulheres, mas que em Gonçalves as pessoas parecem viver em paz e com um encanto inquebrantável pelo lugar, isso não se pode negar.

Tanea e Cynthia são só dois exemplos de pessoas que largaram São Paulo, pegaram a estrada, desviaram da vizinha Campos do Jordão, passando por Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí, e se instalaram em Gonçalves – cidadezinha encravada na Serra da Mantiqueira, a 200 quilômetros da capital paulista, em um vale entre as pedras do Forno e Chanfrada. O caminho que elas fizeram está sendo seguido por muita gente. Por três vezes ouvi, de canto de orelha, pessoas chegarem de São Paulo pedindo dicas da cidade aos donos de restaurantes – estavam comprando, ou pensando em comprar, um terreno por lá. A ideia pode não ser desviar a rota da vida, mas pelo menos passar um fim de semana (romântico, por que não?) no friozinho da serra, com sossego e charme de sobra.

As estimativas de quem trabalha com turismo na cidade indicam que cerca de 90% dos turistas vêm da capital. Essa estatística ajuda um pouco a explicar o processo de transformação pelo qual Gonçalves tem passado nos últimos anos. A cidadezinha com menos de 5 mil habitantes (e não mais que 1,5 mil na área urbana) manteve em grande parte a tranquilidade de um destino ainda recôndito – “vida noturna” ou “agito na praça central”, por exemplo, são expressões que definitivamente não cabem ali. A natureza também continua exuberante, com cachoeiras e araucárias dignas de quem está em uma Área de Proteção Ambiental a mais de 1 300 metros de altitude. Mas Gonçalves viu nascer pousadas que não deixam nada a deverem questão de estrutura e romantismo; passou a contar com restaurantes estrelados e de proposta diferenciada; foi tomada por ateliês e lojinhas pra lá de descoladas… A explicação? “Muita gente que nos visita é de São Paulo, e esse público tem um nível de exigência alto”, teoriza Elisabete Basile, proprietária do restaurante Le Gourmet Bistrot, estrelado pelo GUIA BRASIL 2011.

A família, composta ainda de Toninho, marido de Bete – como prefere ser chamada -, e dos filhos gêmeos Fernando e Juliano, comanda outra casa no Centro, o Janelas com Tramela, com cardápio que mistura cozinha de boteco e pratos regionais (um de cada parte do país). Para junho, está previsto mais um ponto, o Rosa Madeira, que deve se apoiar, como o Le Gourmet, na alta gastronomia – mantendo um pezinho na tradição mineira. Os irmãos-prodígio, que dividiram o prêmio de chef revelação do GUIA BRASIL 2010 quando tinham apenas 18 anos, passaram um tempo na Europa estagiando com a badalada catalã Carme Ruscalleda, e depois viajaram pelo estado de Minas Gerais, durante um mês, atrás de sabores típicos. O resultado deve ser uma “cozinha contemporânea com ingredientes mineiros”, na defi nição de Fernando, ou uma “cozinha mineira com técnicas contemporâneas”, na definição de Juliano – porque, afinal, eles não precisam ser iguais em tudo.

Bem diferente, aliás, é a proposta do Kitanda Brasil, ali pertinho. A casa é o melhor resultado (até aqui) do investimento que Tanea Romão fez no seu hobby: a cozinha. A paulistana só se mudou definitivamente para Gonçalves depois de começar a produzir em grande escala geleias artesanais de sabores inusitados – pimenta, cachaça e manjericão, por exemplo. De boca em boca, a delícia ganhou fãs (como os chefs Laurent Suaudeau e Olivier Anquier) e se tornou A Senhora das Especiarias, marca que mantém uma loja aberta na cidade há oito anos.

Tanea já não tem mais participação na loja. Saiu da sociedade em 2009 para montar o Kitanda Brasil (curiosamente, no outro lado da rua), onde pôde colocar em prática outra faceta de seu hobby, a pesquisa de ingredientes brasileiros, sem deixar de lado as invencionices agridoces. O extenso menu degustação, em um almoço de quase duas horas, envolveu, entre dezenas de finger foods, manteiga saborizada com maracujá no couvert, bolinho de tapioca com queijo da Serra da Canastra e chutney de manga na entrada e sopa de queijo de minas e doce de leite na sobremesa. Quem sai do Kitanda leva consigo um sorriso de satisfação tão grande quanto o que Tanea exibe à porta – e ainda corre o gostoso risco de gastar um pouco mais com os produtos do empório.

No fundo, toda a cidade é um pouco assim: você caminha pelo pacato Centro e depara com figuras como Tanea e os gêmeos Basile; com o delicioso bolo de chocolate da Café com Verso, misto de café e livraria; com os 800 rótulos de cachaça no Bar do Marcelo… E com os mais variados (e bacanas) ateliês. Comprar artesanato ali é esquecer de peças padronizadas e de suvenires clássicos. Gonçalves esconde preciosidades como a ceramista Cynthia, que mistura papel reciclado e argila para montar delicadas luminárias para velas e bowls decorativos, sempre com a temática das árvores que cercam seu ateliê. No Centro, é irresistível se encantar com peças feitas de fibra de bananeira e palha de milho, encontradas tanto na loja Banana’s Uai quanto na Feito Fibra. Ou espiar a “coisarada” à venda no antiquário Pau Véio, de Eliana Carvalho, que também monta móveis com madeira de demolição.

E, como a alta temporada de inverno está apenas começando, muita coisa ainda deve aparecer na cidade: além do Rosa Madeira, dos Basile, até junho devem ser abertos o restaurante vegetariano Couve com Coco (das atuais proprietárias d’A Senhora das Especiarias) e pelo menos mais duas lojas de artesanato regional. Sem contar o pico das atividades de trekking até o topo da Pedra do Forno, por exemplo – é no inverno, quando o tempo firma, que a vista alcança mais longe. E pode ser apreciada também das varandas das pousadas, como a Solar d’Araucária, a mais famosa da cidade, com seus chalés de charme. Parece muito? Ainda assim a impressão é que o máximo de agito que a cidade vai ver são dos locais ocupando as mesinhas de dominó em frente à igreja ou um grupinho de turistas circulando com roupas de neoprene na agência que opera boiacross. É que, segundo uma citação recorrente, existe certa preocupação em não fazer Gonçalves crescer demais – e passar da conta.

Talvez por isso se mantenham firmes o clima interiorano e os restaurantes como o Da Vilma. Em um extremo da área rural, ela coloca mesinhas na varanda e tigelas de barro sobre o forno a lenha, planta verduras e legumes em uma hortinha ao lado da casa e deixa qualquer um entrar na cozinha para ver de perto o que é chamado na cidade de “confit brasileiro” – pernil de porco conservado e preparado na própria banha. Ao contrário de outras figuras desta reportagem, Vilma nasceu em Gonçalves. Cresceu, casou, criou dez filhos, virou avó de 17 crianças… E só então resolveu abrir um restaurante. “Sempre gostei de cozinhar, e para muita gente”, conta ela. “O pessoal que faz as trilhas costumava perguntar se eu servia almoço. Quando meus filhos cresceram e saíram de casa, montei o restaurante para continuar cozinhando.” Acredite, os filhos de dona Vilma ainda são muito bem alimentados.

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