Olha o passarinho

Birdwatching in São Paulo: com muitos lugares para observação de aves nos arredores da capital, a atividade ganha adeptos a cada dia. Mas é preciso fazer silêncio...

Não há tempo para caras e bocas. Quando uma ave se aproxima, é preciso ser rápido para enquadrá-la na lente da câmera e congelar a pose – o pouso. Munidos de binóculos e câmeras fotográficas – e muita disposição para caminhar –, os observadores de aves (ou birdwatchers, em inglês) passam horas na mata procurando os bichinhos. Turismo ecológico ou apenas hobby, a atividade ganha cada vez mais adeptos brasileiros. Estima-se que sejam 15 mil hoje no Brasil, número quatro vezes maior que há cinco anos.

O paulistano Guilherme Colugnatti, famoso no metiê como Almeida, é um deles. Há dez anos ele sai frequentemente para fazer observação, além de incrementar sua pequena biblioteca com livros de aves. Ele gosta de visitar as encostas de Caraguatatuba e Ubatuba onde há grandes manchas de Mata Atlântica. A região das praias da Figueira e de Ponta Aguda, na divisa das duas cidades, segundo ele, concentram muitas espécies de pássaro. “Já vi udu, araçari e pica-pau-de-banda-branca, entre outros, na região.”

Um observador iniciante – ou sem tempo ou preguiçoso – não precisa nem sair da capital para começar a reconhecer sanhaçu e sabiá (sem falar bem-te-vi e rolinaha). Mas a graça está justamente em se bandear por regiões com muito verde, como as encostas das serras do Mar e da Cantareira.

A VT foi desbravar uma área no extremo sul da cidade de São Paulo, próxima à Represa Billings, nos limites de Peruíbe. É o Sítio Curucutu, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), aliás, a única da cidade mantida com afinco pelo advogado Jayme Vita Roso. Chegar ao lugar já foi bem mais difícil quando era necessário seguir pelas muitas quebradas de Parelheiros. Agora basta tomar a Imigrantes, retornar na Interligação e, na pista sentido São Paulo, sair no km 37. Placas vão conduzir você por 8 quilômetros de terra ao Curucutu. A visita deve ser previamente agendada (11/3242-7644) e, embora não seja imprescindível, fazê-la acompanhado de um guia é recomendável: um guia experiente sabe identificar as aves pelo canto.

Como o melhor horário para observar os pássaros é bem cedinho, a caminhada, para valer a pena, deve começar às 7 da manhã. Depois de andar por quase 20 minutos, você começa a perceber que na mata não há exatamente trilhas mas caminhos que se interconectam. Largos e bem sinalizados, eles cortam a área em todas as direções, passando por capões de mata, pequenos lagos artificiais e brejos naturais.

Durante todo o tempo em que a VT esteve no Curucutu, num sábado de novembro, o guia usou um aparelho de MP3 para reproduzir o canto de tangará, bem-te-vi-rajado e outras espécies. Usamos roupa camuflada para não assustar as aves e, claro, nos movemos de forma silenciosa, apesar da ansiedade quase incontrolável. Depois de algumas preliminares, contando 40 minutos na mata, chegamos ao nosso primeiro grande objetivo. Era um lindo tangará macho azul e preto com um “topete” vermelho-vivo, que atraímos com nosso aparelho sonoro. Controlei meus batimentos cardíacos para fotografá-lo antes que voasse para longe.

Continuamos na mata. Anda, para, anda, para, e um tucano-de-bico-verde passou sobre nossa cabeça. Pena que ele não pousou para outra foto. Ouvimos o tempo todo canto de pássaros, como o da araponga. Avistamos um caneleiro-de-chapéu-preto e um bem-te-vi-rajado. De repente, outra ave se aproximou. Era uma garça-branca-pequena, à beira do lago, que não serviu para subir a adrenalina. Ainda avistamos uma juruviara e uma fêmea de tangará antes do fim da trilha. O guia nos explicou que no local também há outras aves multicoloridas, como araçari e surucuá. Ficaram para outro dia. O Sítio Curucutu não tem apenas pássaros mas também quati, sagui e até anta. Os saguis, aliás, volta e meia nos acompanhavam ao longo da caminhada. E o rastro de uma anta estava bem marcado no barro do brejo.

Diversos estabelecimentos estão se abrindo para os adeptos de birdwatching. Em Ubatuba, o Itamambuca Eco Resort (acesso pelo km 36 da BR-101, 12/3834-3000, www.itamambuca.com.br; desde R$ 752 o fim de semana; Cc: A, D, M, V; Cd: todos) tem uma trilha suspensa de madeira com 400 metros de extensão. O percurso, que começa ao lado da recepção do resort, é circular e passa pelo Rio Itamambuca. Ali é possível ver tiriba, tucano-de-bico-preto e outras aves.

No caminho para Ubatuba, com acesso pela Rodovia Oswaldo Cruz, a 190 quilômetros de São Paulo, a Reserva Guainumbi, bem ao lado do Núcleo Santa Virgínia, do Parque Estadual da Serra do Mar, tem registro de mais de 280 espécies de ave. O lugar está em processo para se transformar em RPPN, como o Curucutu. Seu proprietário, o veterinário João Marcelo da Costa, costuma organizar workshops de fotografia de aves e de natureza. Vale a pena considerar a barata hospedagem em sua Pousada Reserva Guainumbi (Estrada Velha Ubatuba, km 7,5, 12/9769-3844 e 19/9655-6161, www.reservaguainumbi.com; diárias desde R$ 100). Para chegar lá é preciso deixar a Oswaldo Cruz no km 75 e seguir pela estrada de terra por 7,5 quilômetros. Os hóspedes interessados em birdwatching (R$ 180) devem agendar a visita no site. Na trilha é possível avistar, entre outras espécies, inhamubu-guaçu, aracura do mato, uru.

O Paraíso Eco Lodge (acesso pela Estrada Intervales, km 18,5, 15/3542-5507, www.brasilparaiso.com/lodge; desde R$ 400 o pacote para o fim de semana; Cc: A, D, M, V; d: todos) fica em uma reserva particular, ao lado do Parque Estadual Intervales, em Ribeirão Grande, 245 quilômetros a sudoeste de São Paulo. O local é inteiramente dedicado à observação de aves. O terreno abriga 13 trilhas, três cavernas e dezenas de cachoeiras. As caminhadas são organizadas por guias recomendados pelo hotel (R$ 25). Um deles, seu Benedito, é muito experiente. Há mais de 40 anos percorre o terreno e sabe identificar todas as espécies que habitam a região.

Se preferir ficar na capital, o Parque do Ibirapuera é um dos locais mais indicados para iniciantes. Parece estranho que uma área tão central da cidade seja um bom ponto de observação de aves. Mas é. Cerca de 200 espécies já foram vistas por ali. Nos lagos, por exemplo, não é difícil observar garça, irerê e marreca. O sabiá-laranjeira e o joão-de-barro também não se importam com o movimento diário de pessoas. Espécies menos comuns, como o pintassilgo, são vistas apenas nas áreas menos agitadas do parque. Os melhores horários para encontrá-los são no início da manhã e no fim da tarde, quando estão em atividade.

Para quem gosta de fotografar, o Jardim Botânico de São Paulo é perfeito: seguro, com trilhas bem sinalizadas e, mesmo nos fins de semana, com pontos tranquilos. Os lagos concentram aves como a enorme garça-moura e a biguatinga. As marrecas preferem os lagos cheios de ninfeias. E não é difícil avistar jacupemba nas trilhas de terra. Já tucano-de-bico-verde e araponga vivem próximo às nascentes do Riacho Ipiranga.

Para os mais experientes, no Parque Estadual da Serra da Cantareira (Núcleo Pedra Grande), a 10 quilômetros do centro, há papa-taoca-do-sul, bico-virado-carijó. O lugar é o preferido de agências, como a Trip On Jeep (11/5543-5281, www.triponjeep.com), que levam estrangeiros para praticar o birdwatching em São Paulo. Um guia especializado pode ajudá-lo na tarefa, pois muitas dessas espécies são arredias e passam despercebidas a olhos menos treinados. Como as trilhas são bem sinalizadas, também dá para ir sozinho.

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