O mundo é meu

Com US$ 3 262 dá para comprar uma passagem de volta ao mundo. Siga, a partir desta edição, a viagem de nossa repórter por Estados Unidos, Espanha, Rússia, China, Índia, Indonésia… A primeira parada é Nova York

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Viajar sempre foi o meu trabalho favorito. Ainda na faculdade de jornalismo eu sonhava com uma carreira em revistas de viagens ou nos cadernos de turismo dos jornais. Eu e a torcida do Flamengo. E enfim veio a chance. Dez anos depois de concluir a faculdade, sem dívidas, sem filhos e com vários carimbos no passaporte, senti-me pronta para dar o salto que vinha ensaiando. “Bora” dar a volta ao mundo? Com meu namorado, começo a dar esse giro pela Terra que você acompanha a partir desta edição da VT.

O bilhete de volta ao mundo (Round the World, ou RTW) não é tão caro quanto a gente pensa. Custa desde US$ 3 262, e com ele você pode fazer, em geral, até 20 trechos aéreos internacionais (ou até 39 mil milhas em voos) com companhias que pertençam a uma mesma aliança aérea (a que utilizamos é a One World; as empresas pelas quais voamos e voaremos são American, Iberia e Cathay Pacific). A viagem pode durar de dez a 365 dias. Não vale a pena, claro, para quem pensa em voltar logo para casa. Vamos aproveitar ao máximo, portanto não é nosso caso. Por isso, ainda no Brasil, tomamos algumas medidas radicais. Da minha parte, a mais sofrida foi deixar o emprego que eu adorava. Por sorte, ao longo de 32 anos aprendi algo sobre a arte do desapego.

A nossa viagem começou em Nova York (objetivo: fazer compras e apresentar a Big Apple ao Danilo), segue depois por Espanha (onde vamos estudar espanhol em Valência e fazer doces bate e voltas pela Europa) e Rússia. De São Petersburgo, de trem, pela Transiberiana, vamos, por nossa conta, até a China e a Índia. Aí retomamos os trechos aéreos cobertos pela tarifa, com Nova Délhi – Jacarta (Indonésia), Jacarta–Nova York (via Hong Kong) e de lá, finalmente, de volta a São Paulo. Esse é o plano inicial, mas é bom avisar que os protagonistas da aventura adoram improvisar. Uma volta ao mundo não é uma viagem que possa, ou deva, ser decidida de uma hora para outra. É bom marcar consultas médicas, resolver pendências legais, deixar procurações (veja as dicas no final da reportagem). Mas a medida que eu reputo mais importante foi o treino do Danilo com o meu cabeleireiro. Sim, imaginando que não vamos encontrar salões decentes em todas as paradas, fiz com que ele tivesse aulas intensivas para aprender a pintar o meu cabelo. Dá para ficar sem fazer a unha, sem depilar com cera quente, sem tirar a sobrancelha, mas sem pintar os fios brancos não dá!

Um senão pesava contra Nova York antes de decidirmos nosso roteiro: a exigência do visto. No entanto, a oportunidade de comprar por ótimos preços eletrônicos e roupas muito úteis para a viagem inverteu a balança. O que é encarar umas filinhas de consulado diante de um outlet americano? Para resolver mais rápido a questão do visto, Danilo optou por solicitá-lo no Rio. Em Nova York já nos esperava uma suíte em um lof bacanérrimo no Harlem, ao norte de Manhattan, que havíamos reservado pelo site airbnb.com.br. Ficaríamos seis dias (a US$ 90 por dia) em um confortável quarto com banheiro privativo e trocas de toalhas e lençóis. Os donos do apê ficavam no quarto vizinho, por isso procurávamos não fazer muito barulho à noite. Mas isso, de fato, não foi um problema. Quem nos recebeu quando chegamos lá foi Ivan, um simpático imigrante de Curaçao apaixonado pelo Brasil. Logo embalamos uma conversa sobre futebol, jiu-jítsu, o Carnaval de Curaçao, mas ela teve de ser abortada precocemente, pois ele tinha mais o que fazer: ir trabalhar. Nós aproveitamos a deixa e fomos bater pernas.

Dedicamos os primeiros dias às compras. Isso não é exatamente nossa ideia, ou melhor, minha ideia de lazer. Mas a Apple Store (767, 5th Avenue, 1-212/336- 1440, apple.com), a primeira loja visitada, está na conta mais de uma atração turística. Ali compramos um iPad e um adaptador universal. Na hora de adquirir equipamentos de foto e vídeo, a brincadeira ficou um pouco mais cara. Somos apaixonados por lentes, e a loja B&H (420, 9th Avenue, 1-212/444-6615, bhphotovideo.com) é a Terra Prometida para quem gosta de câmeras e equipamentos de foto e vídeo. Depois, mais felizes e mais pobres, seguimos comprando. Na Paragon Sports (867, Broadway, 1-212/255-8036, paragonsports.com), fomos atrás de jaquetas de fio, blusas e calças térmicas e uma mochila. Depois caçamos lanternas e toalhas minúsculas que serão úteis em nossa longa viagem.

No fim das contas, sobraram três dias para apresentar uma Nova York shopless ao Danilo. Num domingo, nosso primeiro dia verdadeiramente livre, decidimos conhecer melhor o Harlem; afinal, era o “nosso” bairro. A ideia era assistir à missa da Abyssinian Baptist Church (132, Odell Clark Place, 1-212/862- 7474, abyssinian.org; missas aos domingos, 9h e 11h), famosa por seu coral gospel. Mas a fila de turistas era imensa (senti falta de um luminoso com a cara da Whoopi Goldberg para entrarmos no clima), não dava para encarar. Assim, decidimos trocar de igreja. Existem várias espalhadas pelo bairro, e escolhemos a Shiloh Baptist Church (Adam Clayton Powell Jr. Boulevard; missa gospel aos domingos, 11h). Fomos bem recebidos pela comunidade e em menos de 15 minutos já estávamos chacoalhando o corpo ao som do coral gospel. Com o perdão da comparação um tanto imprópria, só não dança ali quem é capaz de também ficar imóvel ao som de uma bateria de escola de samba. Não dá. Embora com esse clima contagiante, muitos turistas saíam da igreja no meio da missa, sem a menor cerimônia, o que nos deixou bastante envergonhados. As igrejas não cobram “ingressos”; você deixa a contribuição que achar adequada. Depois caminhamos pela 125th Street até o lendário Apollo Theather (253 West, 125th Street, 1-212/531-5337, apollotheater.com; tours de US$ 16 a US$ 18), que na ocasião estava abarrotado de fotos e coroas de flores para homenagear Whitney Houston. Terminamos a noite ouvindo jazz de ótima qualidade e experimentando a badalada cozinha do chef Marcus Samuelsson no Red Rooster Harlem (310 Lenox Avenue, 1-212/792-2001, redroosterharlem.com). Foram nossos anfitriões que nos falaram desse lugar, onde rola uma jam aos domingos. Foi preciso esperar uma hora para conseguir mesa, mas valeu: comemos arroz com camarão e nos sentimos numa locação dos filmes do Spike Lee. Aqueles mais antigos.

Veja na próxima página a continuação da matéria O mundo é meu

Playmobil dos Beatles

No dia seguinte, enquanto Danilo visitava o fantástico American Museum of Natural History (Central Park West com 79th Street, 1-212/769-5100, amnh.org; 10h/17h45; US$ 19 e US$ 10, crianças), com seus 600 fósseis de dinossauros, aproveitei para dar um pulinho na Urban Outfitters (521, 5th Avenue, 1-212/867- 4107, urbanoutfitters.com) e na Grast (625, 8th Avenue, 1-212/244-4468, grastny. com), as minhas lojas de roupas preferidas. Na Grast, se não tivesse uma volta ao mundo por fazer, eu levaria todos os bonecos Playmobil dos Beatles por US$ 300 (contentei-me com um moletom de US$ 38). Revi meu namorado no indiano Mughlay (320, Columbus Avenue, 1-212/724-6363; Cc: A, M, V), onde comemos, a US$ 12 por cabeça, uma pequena porção de quatro pratos típicos indianos mais pão e sobremesa! Depois seguimos para o Central Park. No caminho, mostrei ao Danilo o sinistro Edifício Dakota, na Central Park West, onde John Lennon viveu (e foi assassinado ao voltar ao prédio) e Roman Polanski rodou o ainda mais sinistro O Bebê de Rosemary. À noite, traçamos bem felizes os gigantescos hambúrgueres com onion rings do Jackson Hole (517, Columbus Avenue, 1-212/362-5177; Cc: A, D, M, V).

Deixamos Manhattan no outro dia pegando a clássica linha 7 do metrô com destino ao Queens. O passeio começou na estação Grand Central e acabou exatos 37 minutos depois em Flushing-Main Street, última parada da linha. Ficamos de pé numa das portas do primeiro vagão para conferir a excelente vista que os trilhos elevados proporcionam dessa histórica rota suburbana. É impressionante como a cara do bairro muda quando se caminha pelas ruas abaixo da linha. Você ainda sente o gosto da comida chinesa na boca quando entra pelo nariz o inconfundível aroma das especiarias indianas. Pelo bairro, compramos guloseimas nas lojinhas de muitas nacionalidades e visitamos a casa onde Louis Armstrong e sua Lucille moraram até o fim de suas vidas. Transformada em museu, a Louis Armstrong House (34-56 107th Street, 1-718/478-8274, louisarmstronghouse. org; US$ 10 e US$ 7, crianças) tem visitas guiadas de hora e hora e preserva os móveis originais da residência (eu me apaixonei pela cozinha!) e os discos de ouro do Satchmo nas paredes.

Tomamos novamente o metrô na estação Woodside-61st e seguimos para a Times Square para assistir ao musical The Book of Mormon, no Eugene O’Neill Theatre (230 West, 49th Street, 1-212/239- 6200, bookofmormon.com; desde US$ 69), na Broadway. Os roteiristas são os mesmos da série South Park, e a montagem é tão nonsense quanto a animação. Duas horas mais tarde, com a desculpa de que era a nossa última noite, jantamos hambúrguer de novo em outro famoso clássico da cidade, o Corner Bistro (331 West, 4th Sreet, 1-212/242-9502). Mais Nova York impossível – menos pelo fato de não aceitarem cartões de crédito. Se você deseja uma sugestão desta burgermaníaca, vá de Bistro Burger – com bacon, por favor! – e de cerveja McSorley’s. Ai, que saudade.

Veja na próxima página 7 dicas para uma viagem de volta ao mundo

7 toques para a grande viagem

1. TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO

Não é necessário um ano inteiro para dar a volta ao mundo. Tome cuidado para não fazer da viagem uma maratona infernal. Dito isso, atente para o clima dos países que pretende visitar. Você não vai querer estar na Rússia de janeiro a março, durante o inverno, ou na Índia no período de monções (de junho a setembro).

2. VISTO AQUI, VISTO LÁ

Brasileiros são bemvindos no exterior, mas nem por isso estão livres de apresentar vistos. Se você quiser ir ao Japão e à Austrália, vai precisar requisitar os vistos do Brasil, e eles expiram em apenas 90 dias. Considere, nesse caso, começar a viagem pelo Pacífico. China e Índia, por outro lado, permitem que a solicitação seja feita fora do Brasil. Consulte as condições de vários países em itamaraty.gov.br.

3. DE AVIÃO, MAS NÃO SÓ

É vantajoso compor sua viagem com trechos a ser percorridos de trem e ônibus e guardar os aéreos para os grandes deslocamentos. As melhores descobertas são feitas com os pés no chão! Além disso, passagens de avião entre países próximos costumam ser muito baratas. Por exemplo: um voo de Bangcoc, na Tailândia, para Kuala Lumpur, na Malásia, sai por menos de € 150.

4 FAÇA UMA FARMACINHA

Não espere ter facilidades para comprar remédios no exterior. Na minha não faltam analgésico, antitérmico, antiinflamatório, antibiótico, repelente, termômetro, protetor solar, creme para queimaduras de sol, água oxigenada, tesoura, pinça, protetores estomacais, laxante, pomada muscular. Se precisar, peça receitas a seu médico.

5. PLANEJE A MALA COM CUIDADO

Coloque nela itens que suportem 15 dias sem repetição. Se algo se estragar ou se perder pelo caminho, eis um bom motivo para fazer umas comprinhas. Parece pouco, mas vá por mim: em um mês você vai odiar sua mala. E, se você não conseguir fechá-la, uma sugestão: guarde as coisas a vácuo. Compre aqueles sacos plásticos com fechamento hermético, coloque as roupas dentro e sugue o ar com um aspirador de pó.

6. SEM NEURA COM A MAQUIAGEM

Leve seus cosméticos e deixe para comprar os próximos na viagem. Se tiver algum produto imprescindível (como aquela tinta específica de cabelo), faça as contas de quantos frascos gastará nas férias e leve tudo do Brasil.

7. PARA DRIBLAR O JETLAG

Se você sofre com as mudanças de fuso, uma ideia é tentar viajar sempre no rumo oeste. Se não for possível, procure se habituar ao horário local no primeiro dia de sua chegada àquele destino. Vai fazer uma saudável diferença.

No próximo capítulo, Cassia fala de sua vida na Espanha e de suas viagens de bate e volta pela Europa!

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