Nunca foi tão barato ir – Portugal em família por menos de € 100 por dia

Portugal em família: dá para viajar pelo país inteiro por menos de € 100 por dia

“Nosso filho Loretto já viajou conosco três vezes à Europa. Na primeira, com 1 ano e meio de idade, percorreu a França. Na segunda, aos 2, conheceu a Irlanda e o Reino Unido. Da última vez, aos 3 anos e meio, decidiu o destino: “Quero falar português!” foi sua condição. Embora soubéssemos que Portugal era um lugar em conta, calculamos € 200 por dia para os três. Mas gastamos muito menos do que imaginávamos. Na média, foram € 50 para a hospedagem, € 30 para a comida e € 20 para o carro. E isso incluiu até uma noite em hotel quatro-estrelas. Metade do que prevíamos.

Nosso ponto de partida foi Sabugo, um vilarejo na região de Sintra, onde havíamos reservado a pousada Casa da Pinheira (Rua Nossa Senhora da Piedade, 25, 351-219/624-354; diárias desde € 45; Cc: D, M, V), grande e acolhedora. Lá, a avó da proprietária, conhecida como Vovó Flor, deu a Loretto uma aula de jardinagem. E ele disse a ela como era a Casa das Histórias Paula Rego (Avenida da República, 300, 351-214/826-970, www.casadashistoriaspaularego.com; 10h/20h), na vizinha Cascais, que tinha acabado de conhecer: um espaço de arquitetura contemporânea com um lindo jardim.

No dia seguinte, estudamos os três o mapa. Nosso destino era a cidade medieval de Óbidos, mas vimos que seria possível passar antes por Mafra e conhecer a construção citada no livro Memorial do Convento, de José Saramago. Depois de visitar o Convento de Mafra (Terreiro Dom João V, 351-261/817-550; 2ª e 4ª/dom 10h/16h30; € 5), com sua biblioteca de 40 mil livros, seguimos para Óbidos. A cidadela, que foi presente de casamento do rei dom Dinis para Isabel de Aragão, parece cenário de filme de época. Loretto pediu que comprássemos uma espada de madeira de € 5 para ele e se sentiu o próprio rei. Pegamos chuva quando estávamos bem no alto da muralha e nos escondemos num buraco entre as pedras.

Quilômetros à frente, já em Alcobaça, contei a Loretto a trágica narrativa de Inês de Castro, a “rainha-cadáver” do século 14. Ele adorou saber que Pedro I (não confundir com o nosso Pedro I, Pedro IV para os portugueses) mandou arrancar o coração dos assassinos de Inês, exumou o corpo da amada e fez toda a corte beijar sua mão morta. O passeio ao Mosteiro de Alcobaça (Praça 25 de Abril, 351-262/505-120; 9h/17h; € 5), onde fica o túmulo de Inês e de Pedro, foi envolto nesse clima.

Como criança enjoa rapidamente, é preciso variar os temas. Então fomos ver as Grutas de Mira d’Aire (Avenida Doutor Luciano Justo Ramos, 2485, 351-244/440-322, www.grutasmiradaire.com; 9h30/17h30; € 5,50, adultos, € 3,20, crianças entre 5 e 11 anos, e grátis para menores de 5 anos), em Porto de Mós. A gruta tem 110 metros de profundidade, e andamos uns 800 metros dentro dela. Embora haja similares mais bem preservadas em Minas Gerais, para Loretto essa foi a primeira exploração na garganta da Terra. No final, havia uma pequena exposição com um ovo de dinossauro.

No dia seguinte, já na cidade de Luso, de águas termais, nosso filho se encantou com a altura das árvores trazidas de longe, como o eucalipto da Tasmânia, nas nossas caminhadas na Mata Nacional do Buçaco (351-231/939-133, www.jtluso-bucaco.pt; 8h/20h). Em Coimbra, visitamos o parque Portugal dos Pequenitos (Rossio de Santa Clara, 351-239/801-170, www.portugaldospequenitos.pt; 10h/17h; € 8,95, adultos, € 5,50, crianças de 3 a 13 anos, e grátis para menores de 3 anos), onde há casas em miniatura que mostram os estilos de construção de várias regiões portuguesas e de suas ex-colônias.

Depois, já no Douro, nós nos deliciamos entre as videiras da Casa Cimeira (Rua do Cimo do Povo, 351-254/732-320, www.casacimeira-douro.com; diárias desde € 55; Cc: todos), bem no meio das plantações. Foi difícil achar o lugar mesmo com o GPS, mas a delícia daquele quintal cheio de frutas (peras, figos, marmelos e uvas), bem como as compotas feitas por dona Maria para o café, compensou tudo. Fomos a pé até o mais alto que conseguimos nas montanhas e ficamos contemplando as plantações, sentindo o vento balançar nosso cabelo e, claro, chupando as uvas que sobraram da vindima.

Chegamos ao Porto, e o Porto, para Loretto, era um lugar cheio de barcos. Então descolamos um passeio de barco turisticão com a Carristur (www.carristur.pt). Loretto sentiu-se o comandante daquela embarcação típica, o cacilheiro. Na manhã seguinte, chegou até a comentar sobre seu dia de marujo pelo Douro com um segurança da Fundação de Serralves (Rua Dom João de Castro, 210, 351-226/156-500, www.serralves.pt; 10h/17h; € 5, grátis para menores de 18 anos), espaço de arte contemporânea com casa projetada pelo badalado arquiteto Álvaro Siza, com um jardim enorme. A tarde estava quase acabando quando decidimos ir a pé até a Foz do Douro para ver o pôr do sol. Nosso filho prendeu a respiração para ouvir o chiado que o sol faz ao se deitar na água. Ele jura que ouviu.

Foi uma experiência tão marcante que passamos a repeti-la. Em Bom Jesus do Monte, nos arredores de Braga, foi fácil, pois escolhemos um hotel em que todos os quartos têm lindas vistas. O Grande Hotel (Largo Mãe d’Água, 351-253/281-222; diárias desde € 52; Cc: todos) é colado à Igreja de Bom Jesus do Monte, famosa por sua escadaria de 1 001 degraus. Durante nossa visita, pegamos o funicular (€ 2) movido a água para descer o monte. Outro pôr do sol memorável foi num mirante da estrada, perto de Vieira do Minho. Estávamos num desvio de rota, meio sem destino, e subitamente vimos uma placa escrita a mão que dizia “Mirante”. O ponto final era uma construção abandonada no lugar mais alto de um morro pedregoso. Batia um vento que nos empurrava, mas não me lembro de vista mais bonita. O sol foi baixando vermelho, e fizemos mil fotos.

O trecho final de nossa viagem pela região teve passagens por Trás-os-Montes, com almoço em Chaves para conhecer o castelo e um chá da tarde em Bragança. Pode-se caminhar pelos muros da cidadela de Bragança, mas o mais gostoso foi conversar com uma senhora de 90 anos que nasceu e se criou dentro dela. Hoje, há poucas famílias que moram lá – e a maioria das casas foi derrubada.

O fim da viagem foi no Alentejo. Passando por Évora, visitamos os megalíticos, no entorno da cidade. As pedras desse Stonehenge português estão ali há mais de 2 mil anos. Loretto, que subiu em todas, achou-as com jeito de pessoas.

Ter feito nosso filho participar das nossas decisões de viagem tornou-o um grande companheiro de estrada. Fizemos vários passeios “de adulto” também, mas tentando envolvê-lo com encantamento. No último dia, decidimos que íamos dormir em um banco qualquer do aeroporto, já que nosso voo sairia muito cedo na manhã seguinte. O senhor que nos atendeu na entrega do carro, vendo-nos quase a fazer essa loucura, sugeriu, amavelmente, que dormíssemos no automóvel. Não foi a noite mais confortável de nossa vida, mas saiu de graça e trouxe mais uma história bacana de viagem para o nosso filho contar quando crescer.

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